sexta-feira, 13 de julho de 2007

O segundo livro de Utopia....será publicado nas proximas edições.....
Obrigado!!!!

pública, fora a aplicação do princípio da igualdade. Ora, a igualdade é, creio,
impossível num Estado em que a posse é particular e absoluta; porque cada um
se apoia em diversos títulos e direitos para atrair para si tudo quanto possa, e a
riqueza nacional, por maior que seja, acaba por cair na posse de um reduzido
número de indivíduos que deixam aos outros apenas indigência e miséria.
Muitas vezes até a sorte do rico deveria caber ao pobre. Não há ricos avaros,
imorais, inúteis, e pobres simples, modestos, cujo engenho e trabalho trazem
proveito ao Estado mas não, o trazem a si mesmos?
Eis o que invencivelmente me persuade que o único meio de distribuir os bens
com igualdade e justiça, e de fazer a felicidade do gênero humano, é a abolição da
propriedade. Enquanto o direito de propriedade for o fundamento do edifício social,
a esse mais numerosa e mais estimável não terá por quinhão senão miséria,
tormentos e desesperos.
Sei que existem remédios que podem aliviar o mal; mas estes remédios são
impotentes para curá-lo. Por exemplo:
Decretar um máximo de posse individual em terras e dinheiro
Premunir-se por meio de severas leis contra, o despotismo e a anarquia.
Denunciar e castigar a ambição e a intriga. Não traficar as magistraturas.
Suprimir o fausto e a representação nos altos cargos, a fim de que o
funcionário, para sustentar sua posição, não se entregue à fraude e à rapina; ou, a
fim de que não seja obrigado a dar aos mais ricos os cargos que deveriam caber
aos mais capazes.
Estes meios, repito-o, são excelentes paliativos que podem adormecer a dor e
aliviar as chagas do corpo social; mas não espereis com isto devolver-lhe a força e
a saúde, enquanto cada um possuir solitariamente e absolutamente seus bens;
podeis cauterizar uma úlcera, mas inflamareis todas as outras; curareis um
doente, e matareis um homem são; porque o que acrescentais ao haver de um
indivíduo tirais ao de seu vizinho.
Disse eu, então, a Rafael:
Longe de compartilhar vossas convicções, penso, ao contrário, que o país em
que se estabelecesse a comunidade de bens seria o mais miserável de todos os
países. Com efeito, como produzir para as necessidades do consumo? Todo
mundo fugiria do trabalho e descansaria dos cuidados com sua existência sobre o
trabalho dos outros. E, mesmo que a miséria perseguisse os preguiçosos, desde
que a lei não mantém inviolavelmente, para e contra todos, a propriedade de cada
um a rebelião rugiria, sem cessar, esfomeada e ameaçadora, e a matança
ensangüentaria vossa república.
Que barreira oporíeis à anarquia? Vossos magistrados têm apenas uma
autoridade nominal; estão despidos, despojados de tudo que impõe o temor e o
respeito. Não chego nem mesmo a conceber a possibilidade de governo nesse
povo de niveladores que repele toda espécie de superioridade.
Não me espanto que penseis assim, replicou Rafael. Vossa imaginação não
poderia fazer a. menor idéia de uma tal república, ou dela tem apenas uma idéia
falsa. Se tivésseis estado na Utopia, se tivésseis assistido ao espetáculo de suas
instituições e de seus costumes, como eu, que lá passei cinco anos de minha vida,
e que não me decidi a sair senão para revelar esse novo mundo ao antigo,
confessaríeis que em nenhuma outra parte existe sociedade perfeitamente
organizada.
Pedro Gil disse então, dirigindo-se a Rafael:
- Não me persuadireis jamais que haja nesse novo mundo povos melhor
constituídos do que neste. A natureza não produz entre nós espíritos de têmpera
inferior. Temos, além disso, o exemplo de uma civilização mais antiga, e uma série
de descobertas, que o tempo fez brotar, para as necessidades ou para o luxo da
vida. Não me refiro às invenções nascidas do acaso, e que o gênio mais sutil não
teria podido imaginar.
- A questão da antigüidade, respondeu Rafael, vós a discutiríeis com mais
solidez se tivésseis lido as histórias desse novo mundo. Ora, segundo essas
histórias, lá houve cidades, antes que aqui houvesse homens. Pelo que se refere
às descobertas devidas ao gênio ou ao acaso, elas podem igualmente surgir em
todos os continentes. Admito que tenhamos sobre esses povos a superioridade da
inteligência; em compensação, eles nos deixam bem atrás em matéria de
atividade e engenho. Ides ter a prova:
Seus anais testemunham que não tinham jamais ouvido falar de nosso mundo,
antes de nossa chegada; somente, há aproximadamente mil e duzentos anos, um
navio impelido pela tempestade afundou em frente à ilha da Utopia. As ondas
jogaram à praia alguns egípcios e romanos, que, desde então, só com vida,
queriam deixar o país. Os utopianos tiraram desse acontecimento um partido
enorme; na escola dos náufragos aprenderam tudo que estes conheciam das
ciências e artes espalhadas no império romano. Mais tarde, esses primeiros
germes se desenvolveram, e o pouco que os utopianos tinham aprendido, levouos
a descobrir o resto. Assim, um único ponto de contato com o mundo antigo
bastou para transmitir-lhes a indústria e o gênio.
É possível que depois desse naufrágio, a mesma sorte tenha levado alguns
dos nossos à Utopia; mas a lembrança disso está completamente apagada.
Talvez a posteridade também esqueça a minha estadia nesta ilha afortunada,
estadia esta que foi infinitamente preciosa para os seus habitantes, pois, por este
meio, puderam apropriar-se das mais belas invenções da Europa.
Mas para nós, quantos séculos nos serão precisos para aprender deles o que
há de perfeito em suas instituições? Eis o que lhes dá a superioridade do bemestar
material e social, embora os igualemos em inteligência e riqueza: essa
atividade do espírito dirigida incessantemente para a pesquisa, o aperfeiçoamento
e a aplicação, das coisas úteis.
- Pois então, disse eu a Rafael, fazei-nos a descrição desta ilha maravilhosa.
Não suprimais nenhum detalhe, suplico-vos. Descrevei-nos os campos, os rios, as
cidades, os homens, os costumes, as instituições, as leis, tudo o que pensais que
desejamos saber, e, acreditai-me, esse desejo abarca tudo que ignoramos.
- Com muito gosto, respondeu Rafael; essas coisas estão sempre presentes à
minha memória; mas a narrativa exige tempo.
- Nesse caso, disse-lhe, vamos então jantar, primeiro; teremos depois todo o
tempo necessário.
- Perfeitamente, acrescentou Rafael. Entramos então em casa para jantar, e
depois voltamos ao jardim, onde sentamo-nos no mesmo banco. Recomendei
particularmente aos criados afastar os importunos, pois havia associado minhas
instâncias às de Pedro, para que Rafael cumprisse sua promessa. Sentindo a

Dizeis a verdade se vos referis a esta filosofia de escola, que ataca de frente,
e cegamente, os tempos, os lugares, e as pessoas. Mas, existe uma filosofia
menos selvagem; esta conhece o teatro em que atua, e, na peça que deve
representar, desempenha seu papel com decência e harmonia. É esta a que
deveis empregar.
Suponhamos que, durante a representação de uma comédia de Plauto, no
momento em que os escravos estão de bom humor, irrompeis em cena, em trajes
de filósofo, declamando a passagem de Otávio, em que Sêneca repreende e
prega moral a Nero; duvido muito que fôsseis aplaudido. Certamente, teríeis agido
com mais acerto se vos tivésseis limitado ao papel de um personagem mudo do
que oferecer ao público este drama tragicômico. Um monstruoso amálgama
destes estragaria todo o espetáculo, mesmo que a vossa citação valesse cem
vezes mais do que a peça. Um bom ator pôe todo seu talento no papel que vai
representar, qualquer que ele seja; e não perturba o conjunto, porque lhe ocorre à
fantasia declamar uma tirada magnífica e pomposa.
Da mesma maneira convém agir quando se delibera acerca dos negócios do
Estado, no seio do conselho real; Se não se pode desarraigar de uma só vez as
máximas perversas, nem abolir os costumes imorais, não é isto razão para se
abandonar a causa pública. O piloto não abandona o navio diante da tempestade
porque não pode domar o vento.
Falais a homens imbuídos de princípios contrários aos vossos; que caso
poderão fazer de vossas palavras, se lhes atirais à face a contradita e o
desmentido? Segui o caminho oblíquo - ele vos conduzirá mais seguramente à
meta. Aprendei a dizer a verdade com propriedade e a propósito; e, se vossos
esforços não puderem servir para efetuar o bem, que sirvam ao menos para
diminuir a intensidade do mal; porque tudo só será bom e perfeito, quando os
próprios homens forem bons e perfeitos; e até lá, os séculos passarão.
Rafael respondeu:
Quereis saber o que me sucederia se assim procedesse? Ao querer curar a
loucura dos outros, acabaria demente também. Mentiria, se falasse doutra
maneira da que vos falei. A mentira é talvez permitida a certos filósofos, mas não
está em minha natureza.. Sei que minha linguagem parecerá dura e severa aos
conselheiros do rei; apesar disso, não vejo por que sua novidade seja de tal modo
estranha que toque ao absurdo. Se me referisse às teorias da república de Platão,
ou aos usos atualmente em vigor entre os utopianos, coisas melhores e
infinitamente superiores às nossas idéias e costumes, então, poder-se-ia crer que
eu vinha de outro mundo, porque aqui o direito de possuir de seu pertence a cada
um, enquanto que lá todos os bens são comuns. Mas, o que disse eu que não
fosse conveniente e mesmo necessário de se divulgar. Minha moral mostra o
perigo e dele salva o, homem. ponderado; não fere senão o insensato que se atira
de olhos fechados ao abismo.
Há covardia ou má fé em calar as verdades que condenam a perversidade
humana, sob o pretexto de que serão escarnecidas como novidades absurdas ou
quimeras impraticáveis. De outra forma, seria necessário deitar um véu sobre o
Evangelho e dissimular aos cristãos a doutrina de Jesus. Mas Jesus proibia a seus
apóstolos o silêncio e o mistério; repetia-lhes sempre: O que vos digo em voz
baixa e ao ouvido, pregai pôr toda parte, em voz alta e às claras. Ora, a moral deCristo está muito mais em contradição aos costumes deste mundo, do que os
nossos discursos.
Os Pregadores, homens sagazes, seguiram o caminho oblíquo de que me
falastes há pouco; vendo que repugnava aos homens acomodar seus maus
costumes à doutrina cristã, torceram o Evangelho, como se fosse uma lei de
chumbo, para modelá-lo segundo os maus costumes dos homens. Onde os
conduziu esta hábil manobra? A dar ao vício a calma e a segurança da virtude.
Quanto a mim, não obteria melhor resultado nos conselhos dos príncipes,
porque, ou minha opinião é contrária à opinião geral, e, nesse caso, não seria
tomada em consideração, ou coincide com a opinião geral, e então, deliro também
com os loucos, segundo a expressão de Micion, a personagem de Terêncio.
Assim, não vejo aonde pode levar o vosso caminho retorcido. Dizeis: Quando não
se pode atingir a perfeição, deve-se, ao menos, atenuar o mal. Mas aqui, a
dissimulação é impossível e a conivência um crime, pois se trata de aprovar as
propostas mais execráveis, de votar decretos mais perigosos que a peste, e, neste
caso, aprovar perfidamente deliberações infames como essas, seria comportar-se
tal qual um espião e um traidor.
Não há, pois, nenhuma maneira de ser útil ao Estado nessas altas regiões. O
ar que aí se respira corrompe a própria virtude. Os homens que vos cercam, longe
de corrigir-se com os vossos ensinamentos, vos depravam com seu contato e pela
inf1uência de sua perversão; e se conservais vossa alma pura e incorruptível,
servireis de manto às suas imoralidades e loucuras. Não há, pois, esperança de
transformar o mal em bem, trilhando o vosso caminho oblíquo, aplicando os
vossos meios indiretos.
Agora, caro Morus, vou revelar-vos o fundo de minha alma, e dizer-vos, os
meus pensamentos mais íntimos. Em toda a parte onde a propriedade for um
direito individual, onde todas as coisas se medirem pelo dinheiro, não se poderá
jamais organizar nem a justiça nem a prosperidade. social, a menos que
denomineis justa a sociedade em que o que há de melhor é a partilha dos piores,
e que considereis perfeitamente feliz o Estado no qual a fortuna pública é a presa
de um punhado de indivíduos insaciáveis de prazeres, enquanto a massa é
devorada pela miséria.
Também, quando comparo as instituições utopianas com as dos outros países,
não me canso de admirar a sabedoria e a humanidade de uma parte, e deplorar,
da outra, o desvario e a barbaria.
Na Utopia, as leis são pouco numerosas; a administração distribui
indistintamente seus benefícios por todas as classes de cidadãos. O mérito é ali
recompensado; e, ao mesmo tempo, a riqueza nacional é tão igualmente repartida
que cada um goza abundantemente de todas as comodidades da vida.
Alhures, o princípio do teu e do meu é consagrado por uma organização cujo
mecanismo é tão complicado quão vicioso. Há milhares de leis, e que ainda não
bastam, para que um indivíduo possa adquirir uma propriedade, defendê-la e
distinguí-la da propriedade de outrem. A prova é o número infinito de processos
que surgem todos os dias e não terminam nunca. Quando me entrego a esses
pensamentos, faço inteira justiça a Platão e não me admiro mais que ele tenha
desdenhado legislar para os povos que não aceitam a comunidade dos bens.
Esse grande gênio previra facilmente que o único meio de organizar a felicidade

quinta-feira, 21 de junho de 2007

quando ninguém desejava um almocreve que estivesse ao mesmo tempo a
serviço de outro patrão.
Esse bom príncipe resolveu-se: cedeu o novo reino a um dos seus amigos, que
foi expulso dali logo depois, e contentou-se com seu antigo domínio.
Volto à minha hipótese. Se fosse mais longe ainda; se, dirigindo-me ao próprio
monarca, o fizesse ver que essa paixão de guerrear, que transtorna as nações,
depois de ter esgotado as finanças e arruinado o povo, poderia ocasionar à
França as conseqüências mais fatais; se lhe dissesse:
Senhor, aproveitai a paz que um feliz acaso vos concede, cultivai o reino de
vossos pais, fazei nele florescer a felicidade, a riqueza e a força; amai vossos
súditos, e que o amor deles faça a vossa alegria; vivei como pai no meio deles e
não comandai nunca como déspota; deixai em paz os outros reinos; aquele que
vos coube por herança é suficientemente grande para vós.
Dizei-me, caro Morus, com que espécie de bom ou mau humor seria acolhida
semelhante arenga?
- Com péssimo mau humor, respondi.
- E não é tudo, continuou Rafael; passamos em revista a política exterior dos
ministros de França; a glória era então o de que necessitava o seu senhor ; agora
é o dinheiro. Vejamos um instante os seus novos princípios de governo e justiça.
Este, propõe elevar o valor da moeda quando se trate de reembolsar um
empréstimo, e de fazê-lo descer muito abaixo do par quando se trate de tornar a
encher o tesouro. Com esse duplo expediente, o príncipe poderá cobrir suas
enormes dívidas, e, sem trabalho, fazer uma grande colheita em recursos.
Aquele, aconselha simular uma guerra próxima. Este pretexto legitimará um
novo imposto. Depois da arrecadação do tributo extraordinário, o príncipe fará
subitamente a paz; ordenará a celebração desse feliz acontecimento por meio de
ações de graça nos templos e de todas as pompas das cerimônias religiosas. A.
nação ficará deslumbrada, e o reconhecimento público elevará até aos céus as
virtudes de um rei tão humanamente avaro do sangue de seus súditos.
Um outro vem, e exuma velhas leis carcomidas pelas traças e caídas em
desuso pelo tempo. Como todo mundo ignora sua existência, todo mundo as
transgride. Restaurando, assim, as multas pecuniárias contidas nessas leis, criarse-
ia uma fonte de renda lucrativa e até honrada, pois que se agiria em nome da
justiça.
Um terceiro pensa que não seria de menos proveito lançar, sob pena de
pesadas multas, uma, multidão de novas proibições, a maioria delas em benefício
do povo. O rei, mediante soma considerável, dispensaria aqueles cujos interesses
privados fossem comprometidos por estas proibições. Dessa maneira o rei ver-seia
cumulado das bênçãos do povo e faria dupla receita, recebendo, ao mesmo
tempo, dinheiro dos contraventores e dos privilegiados. O melhor do negócio é
que quanto mais exorbitante fosse o preço das dispensas tanto mais Sua
Majestade ganharia em estima e consideração.
Vejam, diriam, como este bom príncipe violenta seu coração ao vender tão caro
o direito de prejudicar o povo.
Outro ainda, enfim, aconselha ao monarca ter à disposição juizes sempre
dispostos a sustentar, em todas as ocasiões, os direitos. da coroa. Vossa
Majestade, acrescenta ele, deveria chamá-los à corte, e persuadi-los a discutir,perante a vossa augusta pessoa, os próprios negócios reais. Por pior que seja
uma causa, haverá sempre um juiz para julgá-la boa, seja pela mania da
contradição, seja por amor da novidade e do paradoxo, seja para agradar o
soberano. Então, uma discussão se trava; a multiplicidade e o conflito de opiniões
embrulham uma coisa de si mesma muito clara, e a verdade é posta em dúvida.
Vossa Majestade aproveita o momento para resolver a dificuldade, interpretando o
direito em proveito próprio. Os dissidentes se submetem à opinião real por timidez
ou por temor, e o julgamento é dado, segundo as formalidades, com franqueza e
sem escrúpulo. Faltarão jamais ao juiz, que dá uma sentença a favor do príncipe,
os necessários consideranda? Não há o texto da lei, a liberdade de interpretação,
e, acima das leis, para um juiz religioso e fiel, a prerrogativa real?
Ouvi os axiomas de moral política proclamados unanimemente pelos membros
do nobre conselho:
O rei que sustenta um exército nunca tem dinheiro bastante.
O rei não poderia fazer o mal mesmo que o quisesse.
O rei é o proprietário universal e absoluto dos bens e pessoas de todos os seus
súditos; nada possuem senão como usufrutuários pelas boas graças do rei.
A pobreza do povo é o baluarte da monarquia.
A riqueza e a liberdade conduzem à insubordinação e ao desprezo da
autoridade; o homem livre e rico suporta com impaciência um governo injusto e
despótico.
A indigência e a miséria degradam os caracteres, embrutecem as almas,
habituam-nas ao sofrimento e à escravidão, comprimindo-as a ponto de lhes tirar a
energia necessária para sacudir o jugo.
Se outra vez me erguesse, e falasse assim a esses poderosos senhores:
Vossos conselhos são infames, vergonhosos para o rei, funestos para o povo.
A honra de vosso senhor e a sua felicidade consistem na riqueza de seus súditos
mais ainda do que na sua própria. Os homens fizeram os reis para os homens e
não para os reis; colocaram chefes à sua frente para que pudessem viver
comodamente ao abrigo das violências e dos ultrajes; o dever mais sagrado do
príncipe é velar pela felicidade do povo antes de velar pela sua própria; como um
pastor fiel, deve dedicar-se a seu rebanho, e conduzi-lo às pastagens mais férteis.
Sustentar que a miséria pública é a melhor salvaguarda da monarquia, é
sustentar um erro grosseiro e evidente; onde se vêm mais querelas e rixas do que
entre os mendigos?
Qual o homem que mais deseja uma revolução? Não será aquele cuja
existência atual é miserável? Qual o homem que revelará maior audácia em
subverter o Estado? Não será aquele que com isso só pode ganhar por nada ter a
perder?
Um rei que provocasse o ódio e o desprezo dos cidadãos e cujo governo não
pudesse se manter senão pelas vexações, pela pilhagem, pelo confisco e pela
miséria universal, deveria descer do trono e depor o poder supremo. Empregando
estes meios tirânicos, talvez pudesse conservar o nome de rei, mas de rei não
teria mais nem o ânimo nem a majestade. A dignidade real não consiste em reinar
sobre mendigos, mas sobre homens ricos e felizes.
Fabricius, (3) esta grande alma, estava todo penetrado desse sublime
sentimento quando respondeu: Prefiro governar ricos do que eu mesmo ser rico.E, de fato, nadar em delícias, saciar-se de voluptuosidades em meio às dores e
gemidos de um povo, não é manter um reino e sim uma cadeia.
O médico que só sabe curar as moléstias de seus clientes dando-lhes
moléstias mais graves, passa por ignaro e imbecil; confessai, pois, - ó vós que não
sabeis governar senão arrebatando aos cidadãos a subsistência e as
comodidades da vida! - confessai que sois indignos e incapazes de dirigir homens
livres! Ou então corrigi vossa ignorância, vosso orgulho e vossa preguiça: é isso o
que excita o ódio e o desprezo pelo soberano. Vivei de vosso patrimônio, segundo
a justiça; medi vossas despesas na proporção de vossas rendas; detei as
torrentes do vício; criai instituições de benemerência, que previnam o mal e o
estiolem no germe, ao em vez de inventar suplícios contra os infelizes que uma
legislação absurda e bárbara impele ao crime e à morte
Não ressusciteis leis carunchosas caídas no olvido e no esquecimento,
lançando sobre os vossos súditos toda a sorte de obstáculos. Não eleveis o preço
de um delito a uma taxa que o juiz condenaria, como injusta e vergonhosa, entre
simples particulares. Tende sempre diante dos olhos este belo hábito dos
macarianos.
Nesta nação, vizinha da Utopia, no dia em que o rei toma posse do império,
oferece sacrifícios à divindade, comprometendo-se, por um juramento sagrado, a
não ter nunca em seus cofres mais do que mil libras de ouro ou a soma em
dinheiro de valor equivalente. Este uso foi introduzido por um príncipe que tinha
mais desejo de trabalhar pela prosperidade do Estado, do que de acumular
mi1bões. Quis desse modo pôr um freio à avareza dos seus sucessores e impedilos
de enriquecer pelo empobrecimento de seus súditos. Mil libras de ouro lhe
pareceram uma quantia suficiente para um caso de guerra civil ou estrangeira,
mas demasiado fraca para apoderar-se da fortuna da nação. Foi principalmente
este último motivo que o induziu a decretar esta lei; mas visava ele ainda duas
outras finalidades: em primeiro lugar, ter em reserva, para os tempos de crise, a
quantidade de dinheiro necessária à circulação e às transações quotidianas dos
cidadãos; em segundo lugar, limitar as cifras dos impostos e da lista civil no intuito
de impedir que o príncipe empregasse o excesso da dotação legal em semear a
corrupção e cometer injustiças. Um rei como este é o terror dos maus e a
veneração das pessoas de bem.
Mas, dizei-me, caro Morus, pregar uma tal moral a homens que por interesse e
por sistema se orientam por princípios diametralmente opostos, não é contar
histórias a surdos?
- E a surdos como portas, respondí. Mas isto não me espanta., e, para vos
revelar o meu modo de pensar, é perfeitamente inútil dar conselhos quando se
tem a certeza de que serão repelidos, quer na forma, quer no fundo. Ora, os
ministros e os políticos de hoje, estão impregnados de erros e preconceitos; como
quereis bruscamente modificar suas crenças e fazer penetrar, de chofre, em suas
cabeças e em seu coração, a verdade e a justiça? Esta filosofia escolástica está
no seu lugar em uma conversação familiar, entre amigos; está fora de propósito
nos conselhos dos reis, onde grandes coisas são tratadas com grande autoridade
e em face do poder supremo.
- Era isto o que vos dizia ainda agora, retrucou Rafael, a filosofia não tem
acesso na corte dos príncipes.

desenvolvi minhas idéias, foi com o desprezo geral que foram acolhidas as minhas
palavras; mas assim que o cardeal me trouxe o seu beneplácito o elogio substituiu
o desprezo. Suas cortesanices iam ao ponto de achar judiciosas e sublimes as
bufonerias de um bobo, que o cardeal tolerava como uma brincadeira frívola.
Julgai ainda que as pessoas da corte levariam em grande consideração minha
pessoa e meus conselhos?.
Respondi a Rafael: Vossa narrativa fez-me experimentar uma grande alegria.
Ela reunia o interesse e a atração a uma profunda sabedoria. Escutando-vos, eu
me acreditava na Inglaterra; porque fui educado desde criança no palácio desse
bom cardeal, e sua lembrança me reconduz aos primeiros anos da vida. Já vos
tinha dado a minha amizade, mas todo o bem que dissestes à memória do
piedoso arcebispo, torna-vos ainda mais caro ao meu coração. De resto, persisto
na mesma opinião a vosso respeito, estando persuadido de que vossos conselhos
seriam de uma alta utilidade pública, se quisésseis vencer o horror que vos
inspiram os reis e as cortes. E não é um dever para vós, como para todo bom
cidadão, sacrificar ao interesse geral as suas ojerizas particulares? Platão disse: A
humanidade. será feliz um dia, quando os filósofos forem reis, ou quando os reis
forem filósofos. Ai! Como está longe de nós esta felicidade quando os filósofos
nem ao menos se dignam assistir os reis com seus conselhos!
Caluniais os sábios, replicou-me Rafael; eles não são bastante egoístas para
esconder a verdade; muitos a têm revelado em seus escritos; e se os senhores do
mundo estivessem preparados para receber a luz, poderiam ver e compreender.
Infelizmente cega-os uma venda fatal, a venda dos preconceitos e dos falsos
princípios, em que se formaram e dos quais foram inficionados já na infância.
Platão não ignorava isso; sabia, como nós, que os reis nunca seguiam os
conselhos dos filósofos, se eles próprios já não o eram também. Platão teve disso
a triste experiência na corte de Diniz, o Tirano. (2).
Suponhamos pois que eu seja ministro de um rei. Proponho-lhe os decretos
mais salutares; esforço-me por arrancar de seu coração e de seu império todos os
germes do mal. Acreditais que não me expulsará da corte ou que não me exporá
ao riso dos cortesãos?
Suponhamos, por exemplo, que eu seja ministro do rei de França. Eis-me
sentado à mesa do Conselho, ao passo que, no fundo do palácio, o monarca
preside, em pessoa, as deliberações dos mais judiciosos políticos do reino. Essas
nobres e poderosas cabeças estão procurando laboriosamente por quais
maquinações e intrigas, o rei, seu senhor, conservará o ducado de Milanês,
recobrará o reino de Nápoles, sempre a fugir, e como, em seguida, destruirá a.
república de Veneza e submeterá a Itália toda; finalmente, como reunirá à sua
coroa a Flandres, o Brabante, a Borgonha inteira, e outras nações que sua
ambição já invadiu e conquistou há muito tempo.
Este propõe concluir com os venezianos um tratado que durará enquanto não
houver interesse em rompê-lo. Para melhor dissipar suas desconfianças,
acrescenta o mesmo, comunicar-lhes-emos as primeiras palavras do enigma;
podemos mesmo deixar com eles uma parte do saque; fácil nos será retomá-la
depois da execução completa do plano.
Aquele aconselha aliciar alemães; um terceiro, que se atraiam os suíços com
dinheiro. Um outro pensa que se deve tornar propício o deus imperial,sacrificando-lhe ouro em expiação; aquele julga oportuno entrar em entendimentos
com o rei de Aragão, abandonando-lhe, como garantia de paz, o reino da Navarra,
que não lhe pertence. Outro ainda quer engodar o príncipe de Castela com a
esperança de uma aliança, e manter, em sua corte, algumas inteligências,
pagando gordas pensões a alguns grandes personagens.
Depois, vem a questão difícil e insolúvel, a questão da Inglaterra, verdadeiro nó
górdio político. A fim de se prevenir contra qualquer eventualidade, tomam-se as
seguintes resoluções:
Negociar com essa potência as condições de paz, e apertar mais estreitamente
os laços de uma união sempre vacilante; dar-lhe, publicamente, o nome de melhor
amiga da França, e, no fundo, dela desconfiar como de seu inimigo mais
poderoso.
Manter os escoceses permanentemente de guarda, como sentinelas
avançadas, atentas a tudo, e, ao primeiro sintoma de movimento na Inglaterra,
lançá-los imediatamente como um exército de vanguarda.
Manter secretamente (por causa dos tratados que se opõem a uma proteção
aberta) algum grande personagem exilado, animando-o a fazer valer os seus
direitos à coroa da Inglaterra, e, assim, pôr em cheque o príncipe reinante de
quem se receia os desígnios...
Então, se, no meio dessa assembléia real onde se agitam tão vastos
interesses, na presença desses profundos homens de Estado, a concluir,
unânimes, pela guerra, se eu, homem do nada, me levantasse para transtornar
suas combinações e cálculos, e dissesse:
Deixemos a Itália em sossego e fiquemos na França; a França já é grande
demais para ser bem administrada por um só homem e o rei não deve cuidar em
aumentá-la. Escutai, senhores, o que aconteceu aos acorianos numa situação
semelhante, e a decisão que então tomaram:
Esta nação, situada em frente à ilha da Utopia, nas margens do Euronston, fez,
outrora, a guerra, porque seu rei pretendia a sucessão de um reinado vizinho, em
virtude de antiga aliança. O reino vizinho foi subjugado, mas cedo se reconheceu
que a conservação da conquista era mais difícil e onerosa do que a própria
conquista.
A todo momento havia revoltas internas a reprimir, ou tropas a enviar para o
país conquistado; a cada instante era-se forçado a combater pró ou contra os
novos súditos. Em conseqüência, o exército tinha que ser mantido de pé, e os
cidadãos eram esmagados pelos impostos; o dinheiro fugia para fora; e, para
lisonjear a vaidade de um só homem, o sangue corria em borbotões. Os curtos
instantes de paz não eram menos desastrosos do que a guerra. A dissolução das
tropas lançara a corrupção nos costumes; o soldado voltava ao lar com o amor da
pilhagem e a audácia do assassinato, resultado adquirido no trato da violência nos
campos de batalha.
Essas desordens, esse desprezo geral pelas leis, provinham de que o príncipe,
ao dividir sua atenção e cuidados entre dois reinos, não podia bem administrar
nem um nem outro. Os acorianos quiseram pôr um termo a tantos males;
reuniram-se em conselho nacional, e, polidamente, deram ao monarca a escolher
entre os dois Estados, declarando-lhe que não podia mais carregar duas coroas, e
que era absurdo que um grande povo. fosse governado por uma metade de rei,

estabelecer na Inglaterra, sem acarretar a dissolução e a ruína do império.
Depois sacudiu a cabeça, mordeu os lábios, e calou.
Todos os ouvintes aplaudiram com arrebatamento esta magnífica sentença, até
que o cardeal fez a seguinte reflexão:
Não somos profetas para saber, antes de experimentar, se a legislação
polilerita convém ou não ao nosso país. Todavia, parece-me que depois do
pronunciamento da sentença de morte, o príncipe poderia decretar o sursis, a fim
de experimentar este novo sistema de repressão, abolindo, ao mesmo tempo, os
privilégios dos lugares de asilo. Se a experiência desse bons resultados,
adotaríamos o sistema; se não, que os condenados continuem a ser levados ao
suplício. Essa maneira de proceder apenas suspende o curso da justiça e não
oferece nenhum perigo no intervalo. Irei mesmo além, creio que seria muito útil
tomar medidas igualmente moderadas e sábias para reprimir e acabar com a
vagabundagem. Temos acumulado leis sobre leis contra este flagelo e o mal é
hoje pior do que nunca.
Apenas terminara o cardeal, os louvores mais exagerados acolheram as
opiniões expendidas por Sua Eminência, as quais não tinham encontrado senão
desprezo e desdém quando sozinho as sustentara. O incenso das louvaminhas
envolvia particularmente as idéias do prelado referentes à vagabundagem.
Não sei se seria preferível suprimir o resto da conversação; coisas bem
ridículas lá foram ditas. Entretanto, vou relatá-las; não eram de todo ruins e se
relacionam com o assunto.
Havia na mesa um desses parasitas, cuja honra provém do ofício de fazer o
louco. A esse respeito a semelhança era tão perfeita, que poderia ser facilmente
tomada a sério. Seus gracejos eram tão estúpidos e insípidos que o riso era
provocado mais a miúdo pela própria pessoa do que por suas graças. Mas, de vez
em quando escapavam-lhe algumas palavras bastante razoáveis.
Um dos convivas observou que eu procurava remediar a sorte dos ladrões e o
cardeal a dos vagabundos; mas que existiam ainda duas classes de infelizes às
quais a sociedade devia assegurar a existência, porque são incapazes de
trabalhar para viver: os doentes e os velhos.
Deixai-me falar, disse o bufão, possuo a este respeito um plano soberbo. Para
falar francamente, grande é o meu desejo de poupar-me ao espetáculo desses
miseráveis e enclausurá-los longe de todos os olhos. eles me fatigam com as suas
lamúrias, suspiros e lamentáveis súplicas, embora deva convir que esta lúgubre
música ainda não conseguiu arrancar-me um cêntimo; aliás, sempre acontece
comigo uma destas duas coisas: ou quando posso dar não o quero, ou quando
quero não o posso. Também agora já se mostram bastante avisados: quando me
vêm passar se calam para não perder tempo. Sabem que de mim há tanto a
esperar quanto de um padre.
Eis então o decreto que sugiro:
Todos os mendigos velhos e doentes serão distribuídos e classificados como
se segue: os homens entrarão para os conventos dos beneditinos na qualidade de
irmãos leigos; as mulheres tornar-se-ão religiosas. Tal é o meu bom desejo.
O cardeal sorriu desse repente, aprovou-o como um rasgo de espírito,
enquanto os demais ouvintes o tomaram como uma sentença séria e grave.
Causou particular bom humor a um irmão teólogo que ali se achava. Estereverendo, desfranzindo um pouco a carrancuda fisionomia, riu-se
maliciosamente, à custa dos padres e frades, e depois, dirigindo-se ao bufo, falou:
Não tereis suprimido a mendicidade, se não provirdes à subsistência de nós
mesmos, frades mendicantes.
- Sua eminência, o cardeal, proveu perfeitamente, quando disse que se devia
encerrar os vagabundos e faze-los trabalhar. Ora, os freis mendicantes são os
maiores vagabundos do mundo.
A vivacidade da resposta, todos os olhos se fixaram sobre o cardeal, que, no
entanto, não pareceu se formalizar; o epigrama foi então ruidosamente aplaudido.
Quanto ao frei reverendo, ficou petrificado. O dardo satírico que acabava de lhe
ser lançado ao rosto, acendeu subitamente a sua cólera; e, vermelho como fogo,
desatou numa torrente de injúrias, tratando o engraçado de velhaco, caluniador,
tagarela, ameaçando-o de danação, tudo temperado com as ameaças mais
aterradoras da Santa Escritura.
Então o nosso bufão gracejou com seriedade, e, levando a melhor, replicou:
Não nos zanguemos, caríssimo irmão. Está escrito:
Com paciência dominareis as vossas almas.
O teólogo recomeçou, no mesmo instante, e foram estas as suas expressões:
Não me agasto, pícaro; ou pelo menos não peco; porque o salmista diz: --
Encolerizai-vos mas não pequeis.
O cardeal, numa admoestação cheia de doçura, convida, então, o frade a
moderar os seus transportes.
Não, monsenhor, exclamou, não, não posso Calar-me, não o devo. É um zelo
divino que me exalta, e os homens de Deus tiveram destas santas cóleras. Está
escrito: O ZELO DE TUA CASA ME CONSOME. Não se ouve cantar nas igrejas:
AQUELES QUE ZOMBAVAM DE ELISEU ENQUANTO ELE SUBIA PARA A
CASA DE DEUS SOFRERAM A CÓLERA DO CALVO? A mesma punição
castigará talvez esse gracejador, esse bufão, esse devasso.
- Sem dúvida, disse o cardeal, a vossa intenção é boa. Mas. me parece que
procederíeis mais sabiamente, senão mais santamente, evitando comprometervos
com um louco numa querela ridícula.
- Monsenhor, meu comportamento não poderia ser mais sábio. Salomão, o
mais sábio dos homens, disse: RESPONDEI AO LOUCO CONFORME A SUA
LOUCURA. Pois bem, é isso o que faço. Mostro-lhe o abismo onde vai se
precipitar, se não se cuida. Aqueles que riam de Eliseu eram em grande número, e
foram todos punidos por terem zombado de um único calvo. Qual será, pois, o
castigo do único homem que ridiculariza um tão grande número de frades, entre
os quais há tantos calvos? Mas o que deve, sobretudo, fazê-lo tremer é que temos
uma. bula do papa que excomunga aqueles que escarnecem de nós.
O cardeal, vendo que o caso não acabava, despediu, com um aceno, o bufão
parasita, e mudou prudentemente o curso da conversação. Logo depois levantouse
da mesa para dar audiência a seus vassalos, e despediu todos os convivas.
Caro Morus, fatiguei-vos com a narrativa de uma história bastante longa.
Estaria verdadeiramente envergonhado de tê-la prolongado tanto se não fosse por
ter cedido às vossas instâncias, e se a atenção que prestastes aos detalhes não
me tivesse obrigado a não omitir nenhum. Poderia ter abreviado, mas quis
esclarecer-vos sobre o espírito e o caráter dos convivas. Enquanto, sozinho,

segurança. Assim agindo, ele se descarta do seu principal denunciador, e tem
maior probabilidade de esconder o crime. Eis o belo efeito desta justiça
implacável: aterrorizando o ladrão com a expectativa da forca, fez dele um
assassino!
Chego, agora, à solução deste problema tão controvertido: Qual é o melhor
sistema penitenciário?
Na minha opinião, era mais fácil encontrar o melhor do que o pior.
Primeiramente, todos vós conheceis a penalidade adotada pelos romanos, povo
tão adiantado na ciência de governar. Eles condenavam os grandes criminosos à
escravatura perpétua, aos trabalhos forçados nas pedreiras ou nas minas. Esse
modo de repressão parece-me conciliar a justiça com a utilidade pública.
Entretanto, para vos dizer o meu modo de pensar sobre esse ponto, não conheço
nada de comparável ao que ví nos polileritas, nação dependente da Pérsia.
É aquele um país bastante povoado, e às suas instituições não falta
sabedoria. Além do tributo anual que pagam ao rei da Pérsia, gozam de liberdade
e se governam por suas próprias leis. Longe do mar, cercados de montanhas, se
satisfazem com os produtos do seu solo feliz e fértil; vão raramente a outros
lugares e raramente outros vêm ao seu país. Fiéis aos princípios e costumes dos
seus antepassados, não procuram nunca estender as suas fronteiras, e nada têm
a temer de fora. Suas montanhas, e o tributo que pagam, anualmente, ao
monarca, põem-nos ao abrigo de uma invasão. Vivem comodamente na paz e na
abundância, sem exército e sem nobreza, ocupados com sua felicidade e
despreocupados de qualquer vã celebridade; pois, seu nome, desconhecido no
resto da terra, talvez o seja mesmo aos seus vizinhos.
Quando ali um indivíduo é apanhado em furto, obrigam-no, primeiro, a restituir
o objeto roubado ao proprietário e não ao príncipe, como é de uso em outras
partes. Os polileritas julgam que o furto não destrói o direito de propriedade. Se o
objeto foi danificado ou perdido, o valor dele é descontado dos bens do autor do
furto, deixando-se o que sobrar do desconto à sua mulher e filhos. Ele é
condenado aos trabalhos públicos; e se o furto não é acompanhado de
circunstâncias agravantes, o seu autor não é jogado no calabouço nem posto a
ferros; trabalha, o corpo livre, e sem entraves.
Para forçar os preguiçosos e os rebeldes, empregam-se os castigos corporais
de preferência às correntes. Os que cumprem bem o seu dever não sofrem
nenhum mau trato. De tarde se faz a chamada nominal dos condenados,
encerrando-os nas celas onde passam a noite. Aliás, a única pena que podem vir
a sofrer é a continuidade do trabalho; porque lhes são fornecidas todas as coisas
necessárias à vida; uma vez que trabalham para a sociedade, é a sociedade que
os mantém.
Os costumes, nesse ponto, variam segundo as localidades. Em certas
províncias, o produto das esmolas e das coletas é reservado aos condenados;
este recurso, precário por si mesmo, é, na rea1idade, o mais fecundo devido à
humanidade dos habitantes. Em outros países destina-se, para este fim, uma
parte das rendas públicas, ou então um tributo particular e pessoal.
Há mesmo regiões em que os condenados não são empregados nos trabalhos
públicos. Todo indivíduo que tem necessidade de operários, ou de carregadores,
vem alugá-los por dia, pagando-lhes salário pouco menor que o de um homemlivre. A lei dá ao patrão o direito de bater nos preguiçosos. Dessa forma, os
condenados não faltam nunca ao trabalho; ganham roupas e alimentação cada dia
contribuem com alguma coisa para o Tesouro.
Eles são reconhecíveis facilmente pela cor de seu uniforme, igual para todos e
só a eles reservado. A cabeça não é raspada, exceto um pouco acima das
orelhas, uma das quais é mutilada. Os amigos podem lhes dar de beber, comer, e
uma roupa. Mas um presente em dinheiro acarreta a morte tanto do que dá como
do que recebe. Um homem livre não pode, sob nenhum pretexto, receber dinheiro
de um escravo (é assim que são chamados os condenados). O escravo não pode
tocar em armas. Estes dois últimos crimes são punidos de morte.
Cada província marca seus escravos com um sinal particular e característico.
Fazê-lo desaparecer é para eles um crime capital, assim como transpor a fronteira
e falar com os escravos de uma outra província. O simples projeto de fugir não é
menos perigoso que a própria fuga. Por ter-se envolvido em semelhante trama o
escravo perde a vida e o homem livre, a liberdade. Ainda mais, a lei confere
recompensas ao delator; dinheiro, se este é livre; liberdade, se escravo;
impunidade, se cúmplice, a fim de que o malfeitor não se sinta mais seguro
perseverando num mau desígnio, do que arrependendo-se.
Eis aí as, penalidades correspondentes ao roubo entre os polileritas. Não é
difícil divisar nelas uma grande humanidade aliada a um grande senso utilitário. Se
a lei castiga, é para matar o crime, conservando o homem. Trata o condenado
com tanta benignidade e justiça, que o força a se tornar honesto e a reparar,
durante o resto de sua vida, todo o mal que fez à sociedade.
Também é extremamente raro que os condenados voltem aos seus antigos
hábitos. Os cidadãos não têm nenhum medo deles, e é mesmo comum, entre os
que empreendem qualquer viagem, escolher seus guias entre os escravos que
são trocados de uma província a outra. Na verdade, o que Se pode temer? A lei
tira ao escravo a possibilidade, e até o pensamento, do roubo; suas mãos estão
desarmadas; o dinheiro é para ele um crime capital; se aprisionado, a morte é bem
próxima e a fuga impossível. Como quereis que um homem vestido
diferentemente dos outros possa dissimular a sua fuga? E se fugisse
completamente nu? Mas mesmo assim a sua orelha meio cortada o trairia.
É impossível igualmente que os escravos possam urdir uma conspiração contra
o Estado. A fim de assegurar à revolta alguma probabilidade de êxito, os cabeças
teriam necessidade de incitar e arrastar para o seu lado os escravos de diversas
províncias. Ora, isto é impraticável. Uma conspiração não é fácil a pessoas que,
sob pena de morte, não se podem reunir, se falar, dar ou retribuir uma saudação.
Ousariam mesmo confiar seu projeto aos camaradas que conhecem o perigo do
silêncio e a enorme vantagem da denúncia? Por outro lado, todos alimentam a
esperança de recobrar, um dia, a liberdade, mostrando-se submissos e
resignados, dando, por seu bom comportamento, garantias para o futuro; aliás,
não há um ano sequer em que grande número deles, transformados em boas
pessoas, não seja reabitado e emancipado.
Por que, acrescentei então não se estabeleceria na Inglaterra uma penalidade
semelhante? Isso valeria infinitamente mais do que esta justiça que desperta tão
exaltado entusiasmo ao meu sábio antagonista.
- Um semelhante estado de coisas, respondeu este, não poderia jamais se

quinta-feira, 3 de maio de 2007

criação de seus carneiros. Vão comprar, distante, animais magros, quase por
nada, engordam-nos nos seus campos e os revendem a preços extraordinários.
Temo bastante que a Inglaterra não tenha sofrido todos os efeitos desses
deploráveis abusos. Até agora os engordadores de gado só provocaram a carestia
nos lugares onde vendem; mas à força de transportar o gado do lugar onde
compram, sem lhe dar tempo de reproduzir, o seu número acabará por diminuir,
insensivelmente, e o país acabará por cair numa horrível penúria. Assim, o que
devia fazer a riqueza de vossa ilha fará a miséria, devido à avareza de um
punhado de miseráveis.
A escassez geral obriga todo o mundo a restringir sua despesa e sua
criadagem. E os que são despedidos, para onde vão? Mendigar ou roubar, se têm
coragem.
A estas causas de miséria ajuntam-se ainda o luxo e as despesas insensatas.
Lacaios, operários, camponeses, todas as classes da sociedade, ostentam um
luxo inaudito nas vestes e na alimentação. Que direi dos lugares de prostituição,
dos vergonhosos antros de embriaguez e devassidão, das infames casas de
tavolagem de todos os jogos, do baralho, do dado, do jogo da péla e da conca,
que devoram o dinheiro de seus freqüentadores, e os impelem diretamente ao
roubo para reparar as perdas?
Arrancai de vossa ilha essas pestes públicas, esses germes do crime e da
miséria. Obrigai os vossos nobres demolidores a reconstruir as quintas e burgos
que destruíram, ou a ceder os terrenos para os que quiserem reconstruir sobre as
ruínas. Colocai um freio ao avarento egoísmo dos ricos; tirai-lhes o direito do
açambarcamento e monopólio. Que não haja mais ociosos entre vós. Dai à
agricultura um grande desenvolvimento; criai a manufatura da lã e a de outros
ramos de indústria, para que venha a ser ocupada utilmente esta massa de
homens que a miséria transformou em ladrões, vagabundos ou lacaios, o que é
aproximadamente a mesma coisa.
Se não remediardes os males que vos assinalo, não vos vanglorieis de vossa
justiça; é ela uma mentira feroz e estúpida.
Abandonais milhões de crianças aos estragos de uma educação viciosa e
imoral. A corrupção emurchece, à vossa vista, essas jovens plantas que poderiam
florescer para a virtude, e, vós as matais, quando, tornadas homens, cometem os
crimes que germinavam desde o berço em suas almas. E, no entanto, que é que
fabricais? Ladrões, para ter o prazer de enforcá-los.
Enquanto eu assim falava, o meu adversário preparava a réplica. Ele se
dispunha a seguir a pomposa dialética desses polemistas categóricos, que
repetem mais do que respondem e que fazem ponto de honra de uma discussão
os exercícios de memória.
Falastes muito bem, disse-me ele, sobretudo vós que sois estrangeiro e que
não podeis conhecer estas matérias senão de outiva. Eu vos darei melhores
esclarecimentos. Eis a ordem do meu discurso: antes de tudo, recapitularei tudo o
que vos disse; em. seguida realçarei os erros a que vos induziu a ignorância dos
fatos; finalmente, refutarei os vossos argumentos e pulverizá-los-ei. Começo, pois,
como o prometi. Tendes, se não me engano, enumerado quatro...
- Eu vos detenho aí, interrompeu bruscamente o cardeal, o exórdio me faz
temer que o discurso seja um pouco longo. Nós vos pouparemos hoje desta

fadiga. Mas não vos dou. por desembaraçado dessa arenga; guardai-a
integralmente para a próxima entrevista que tiverdes com vosso adversário.
Desejo que estejam ambos aqui, amanhã, a menos que vós, ou Rafael, estejais na
impossibilidade de vir. Enquanto isso, meu caro Rafael, far-me-íeis o obséquio de
explicar por que o roubo não merece a morte, e por que outra pena a substituireis
de forma a garantir melhor a segurança pública. Como não pensais que se deva
tolerar o roubo, e se a forca não é hoje uma barreira para o banditismo, que terror
exercereis, sobre os celerados quando eles tiverem a certeza de não perder a
vida? Que sanção bastante forte dareis à lei? Uma pena mais branda não seria
um prêmio de incitamento ao crime?
Minha convicção íntima, eminência, é que é injusto matar-se um homem por ter
tirado dinheiro de outrem, desde que a sociedade humana não pode ser
organizada de modo a garantir para cada um uma igual porção de bens.
Podem objetar-me, sem dúvida, que a sociedade, tirando-lhe a vida, vinga a
justiça e as leis, e não pune somente uma miserável subtração de dinheiro.
Responderei com este axioma: Summum jus, summa injuria, O supremo direito é
uma injustiça suprema. A vontade do legislador não é tão infalível e absoluta que
seja necessário desembainhar a espada à menor infração aos seus decretos. A lei
não é tão rígida e estóica que coloque, no mesmo nível, todos os delitos e crimes,
e não estabeleça nenhuma diferença entre matar um homem e roubá-lo. Se a
eqüidade não é uma palavra cã, há entre essas duas ações um abismo.
E como! Deus proibiu o assassínio e nós, nós matamos tão facilmente por
causa do furto de algumas moedas!
Alguém dirá, talvez: Deus, com esse mandamento, tirou o poder de matar ao
homem privado, mas não ao magistrado que condena aplicando as leis da
sociedade.
Mas se é assim, quem impede os homens de fazer outras leis igualmente
contrárias aos preceitos divinos, e de legalizar o estupro, o adultério e o perjúrio.?
Como!... Deus nos proibiu tirar a vida não somente ao nosso próximo mas também
a nós mesmos; e nós poderíamos legitimamente convencionar em degolarmo-nos
em virtude de algumas sentenças jurídicas! E esta convenção atroz colocaria
juizes e carrascos por cima da lei divina, dando-lhes o direito de mandar à morte
os que o código penal condena a morrer!
Resultaria disso esta conseqüência monstruosa: a justiça divina tem
necessidade de ser legalizada e autorizada pela justiça humana; e que, em todos
os casos possíveis, cabe ao homem determinar quando deve obedecer ou não
aos mandamentos de Deus.
A própria lei de Moisés, lei de terror e vingança, feita para escravos e homens
embrutecidos, não punia de morte o simples roubo. Evitemos pensar que, sob a lei
cristã, lei de perdão e caridade, em que Deus ordena como pai, nós temos o
direito de ser mais desumanos, e de derramar, sob qualquer pretexto, o sangue de
nosso irmão.
Tais são os motivos que me persuadem que é injusto aplicar ao ladrão o
mesmo castigo que ao assassino. Poucas palavras vos farão compreender como
esta penalidade é absurda em si mesma e como é perigosa à segurança pública.
O celerado vê que não há menos a temer furtando do que assassinando;
então, ele mata aquele a quem apenas despojara; e mata-o para a sua própria

multiplicar com mais cuidado. Há neles mais ânimo e nobreza da alma que no
artesão e no trabalhador. São maiores e mais robustos e constituem, portanto, a
força do exército na hora de combater.
- Seria o mesmo que dizer, repliquei então, que se deve, para a glória e o êxito
dos vossos exércitos, multiplicar os ladrões. Porque esses mandriões são uma
sementeira inesgotável para o exército. Com efeito, os ladrões não são os piores
soldados, como os soldados não são os ladrões mais tímidos; há muita analogia
entre esses dois ofícios. Infelizmente, esta praga social não é particular à
Inglaterra; corrói quase todas as nações.
A França está infestada por uma peste ainda mais desastrosa. O seu solo está
inteiramente coberto e como que sitiado por inúmeras tropas arregimentadas e
pagas pelo Estado. E isto em tempo de paz; se é que se pode chamar de paz as
tréguas de um momento. Este deplorável sistema é justificado pelo mesmo motivo
que vos leva a sustentar miríades de lacaios ociosos. Pareceu a esses políticos,
timoratos e aflitos, que a segurança. do Estado exigia um exército numeroso, forte,
permanentemente em armas, e composto de veteranos. Não confiam nos
conscritos. Dir-se-ia mesmo que fazem guerras para ensinar o exercício ao
soldado a fim de que, como escreveu Salústio, nesse grande matadouro humano,
o coração ou a mão não se lhes entorpeçam no repouso.
A França aprende à sua custa o perigo de alimentar essa espécie de animais
carnívoros. No entanto, bastar-lhe-ia olhar os romanos, os cartagineses e muitos
outros povos antigos. Que benefícios tiraram, entretanto, de seus exércitos
imensos e sempre em pé de guerra? A devastação de suas terras, a destruição de
suas cidades, a ruína de seu império. Se, ao menos, tivesse adiantado, aos
franceses, exercitar, por assim dizer, seus soldados desde o berço! Mas os
veteranos da França já combateram contra os conscritos da Inglaterra, e não
estou certo se se podem gabar muitas vezes de ter levado a melhor. Eu me calo
sobre esse capítulo; pareceria estar fazendo a corte aos que me ouvem.
Voltemos aos nossos soldados lacaios.
Têm eles, dizeis, mais coragem e grandeza da alma do que os artesãos e os
trabalhadores. Eu, de mim, não creio que um lacaio faça muito medo nem a uns
nem a outros, a não ser àqueles em que a fraqueza do corpo paralisa o vigor da
alma e cuja energia foi aniquilada pela miséria. Os lacaios, dizeis ainda, são
maiores e mais robustos. Mas não é uma lástima ver homens fortes e belos
(porque os nobres escolhem as vítimas de sua corrupção) consumirem-se na
inação, amolecerem-se em ocupações de mulheres, quando fácil seria torná-los
laboriosos e úteis, dando-lhes um ofício honrado e habituando-os a viver do
trabalho de suas mãos.
De qualquer maneira que se encare a questão, esta massa imensa de gente
ociosa parece-me inútil ao país, mesmo na hipótese de uma guerra, que poderíeis,
aliás, evitar todas as vezes que o quisésseis. Ela é, além do mais, o flagelo da
paz; e a paz merece que se trate dela, tanto quanto da guerra.
A nobreza e a lacaiada não são as únicas causas dos assaltos e roubos que
vos deixam desolado; há uma outra exclusivamente peculiar à vossa ilha.- E qual
é ela?, disse o cardeal.
- Os inumeráveis rebanhos de carneiros que cobrem hoje toda a Inglaterra.
Estes animais, tão dóceis e tão sóbrios em qualquer outra parte, são entre vós de

tal sorte vorazes e ferozes que devoram mesmo os homens e despovoam os
campos, as casas e as aldeias.
De fato, a todos os pontos do reino, onde se recolhe a lã mais fina e mais
preciosa, acorrem, em disputa do terreno, os nobres, os ricos e até santos abades.
Essa pobre gente não se satisfaz com as rendas, benefícios e rendimentos de
suas terras; não está satisfeita de viver no meio da ociosidade e dos prazeres, às
expensas do público e sem proveito para o Estado. Eles subtraem vastos tratos de
terra à agricultura e os convertem em pastagens; abatem as casas, as aldeias,
deixando apenas o templo para servir de estábulo para os carneiros. Transformam
em desertos os lugares mais povoados e mais cultivados. Temem, sem dúvida,
que não haja bastantes parques e bosques e que o solo venha a faltar para os
animais selvagens.
Assim um avarento faminto enfeixa, num cercado, milhares de geiras; enquanto
que honestos cultivadores são expulsos de suas casas, uns pela fraude, outros
pela violência, os mais felizes por uma série de vexações e de questiúnculas que
os forçam a vender suas propriedades. E estas famílias mais numerosas do que
ricas (porque a agricultura tem necessidade de muitos braços), emigram campos
em fora, maridos e mulheres, viúvas e órfãos, pais e mães com seus filhinhos. Os
infelizes abandonam, chorando, o teto que os viu nascer, o solo que os alimentou,
e não encontram abrigo onde refugiar-se. Então vendem a baixo preço o que
puderam carregar de seus trastes, mercadoria cujo valor é já bem insignificante.
Esgotados esse fracos recursos, o que lhes resta? O roubo, e, depois, o
enforcamento segundo as regras.
Preferem arrastar sua miséria mendigando? Não tardam ser atirados na prisão
como vagabundos e gente sem eira nem beira. No entanto, qual é o seu crime? É
o de não achar ninguém que queira aceitar os seus serviços, ainda que eles os
ofereçam com .o mais vivo empenho. E aliás, como empregar esses homens?
Eles só sabem trabalhar a terra; não há então nada a fazer com eles, onde não há
mais nem semeaduras nem colheitas. Um só pastor ou vaqueiro é suficiente,
agora, a fazer com que brote, de si mesma, a terra onde, outrora, para seu cultivo,
centenas de braços eram necessários.
Outro efeito desse fatal sistema é uma grande carestia de vida em diversos
lugares.
Mas não é tudo. Após a multiplicação dos pastos, uma horrorosa epizootia veio
matar uma imensa quantidade de carneiros. Parece que Deus queria punir a
avareza insaciável dos vossos açambarcadores com esta medonha mortandade
que talvez fosse mais justo lançar sobre suas próprias cabeças. Então, o preço
das lãs subiu tão alto que os operários mais pobres não as podem atualmente
comprar. E eis aí de novo uma multidão de gente sem trabalho. É verdade que o
número de carneiros cresce rapidamente todos os dias; mas nem por isso o preço
baixou; porque se o comércio das lãs não é um monopólio legal, está, na
realidade, concentrado nas mãos de alguns ricos açambarcadores que nada pode
constrangê-los a vender a não ser com altos lucros.
As outras espécies de gado encareceram proporcionalmente pela mesma
causa e por uma causa mais forte ainda, porque a reprodução destes animais está
completamente abandonada, desde a abolição das granjas e a ruína da
agricultura. Vossos grandes senhores não cuidam da criação do gado, como da

Uns se calam por inépcia, e teriam mesmo grande necessidade de ser
aconselhados. Outros, são capazes, e sabem que o são; mas partilham sempre do
parecer do preopinante, que está em melhores graças, e aplaudem, com
entusiasmo, as pobres imbecilidades que este entende desembuchar; esses vis
parasitas só têm uma finalidade: ganhar, por uma baixa e criminosa lisonja, a
proteção do primeiro favorito. Os outros, são escravos de seu amor próprio e
escutam apenas a própria opinião, o que não é de admirar, pois a natureza insufla
cada um a afagar com amor os produtos de sua invenção. É assim que o corvo
sorri à sua ninhada, e o macaco aos seus filhotes.
Que sucede então no seio desses conselhos onde reinam a inveja, a vaidade e
o interesse? Intenta, alguém, apoiar uma opinião razoável na história dos tempos
passados, ou nos costumes dos outros países? Os outros se mostram surpresos e
transtornados; e com o amor próprio alarmado como se fossem perder a
reputação de sábios e passar por imbecis. Eles quebram a cabeça até encontrar
um argumento contraditório, e, se a memória e a lógica lhes minguam,
entrincheiram-se neste lugar comum: Nossos pais assim pensaram e assim
fizeram; ah! queira Deus que igualemos a sabedoria de nossos pais! Depois se
assentam, pavoneando-se, como se acabassem de pronunciar um oráculo. Dir-seia,
ao ouvi-los, que a sociedade vai perecer se surgir um homem mais sábio que
os seus antepassados. Enquanto isso, permaneçamos indiferentes, deixando
subsistir as boas instituições que eles nos legaram; e quando surge um
melhoramento novo agarramo-nos à antigüidade para não acompanhar o
progresso. Vi, em quase toda a parte, desses julgadores rabugentos, insensatos
ou presunçosos. Aconteceu-me uma vez na Inglaterra. -.
- Perdão, disse eu, então, a Rafael, estivestes também na Inglaterra?
- Sim, estive lá alguns meses, pouco depois da guerra civil dos ingleses
ocidentais contra o rei que terminou com uma horrorosa matança dos insurretos -
Nessa ocasião, recebi enormes obséquios do reverendíssimo padre João Morton,
cardeal-arcebispo de Cantuária e chanceler da Inglaterra.
Era um homem (dirijo-me unicamente a vós, meu caro Pedro, porque Morus
não necessita dessas informações), era um homem ainda mais venerável por seu
caráter e virtude do que por suas altas dignidades. Sua estatura mediana não se
curvava ao peso da idade; sua fisionomia, sem ser dura, impunha respeito; era de
trato fácil, mas severo e majestoso. Sentia prazer em experimentar os solicitantes
com apóstrofes por vezes um tanto rudes, embora nunca ofensivas, mostrando-se
encantado se percebia neles presença de espírito e respostas prontas, mas sem
impertinência. Esta prova o ajudava a inferir do mérito de cada qual e a classificálo,-
segundo a especialidade. Sua linguagem era pura e enérgica; sua ciência do
direito profunda, seu julgamento seleto, sua memória prodigiosa. Essas brilhantes
disposições naturais, ele as tinha ainda desenvolvido pelo exercício e pelo estudo.
O rei fazia grande caso de seus conselhos e o considerava como um dos mais
firmes esteios do Estado - Levado muito jovem do colégio para a corte, envolvido
toda a vida nos acontecimentos mais graves, tangido, sem descanso, pelo mar
tempestuoso do destino, adquirira, em meio de perigos sempre renovados, uma
consumada prudência, um conhecimento tão profundo das coisas que, por assim
dizer, com ele próprio se identificava.
O acaso me fez encontrar um dia, à mesa desse prelado, um leigo reputadocomo douto legista - Este homem, não sei a que propósito, se pôs a cumular de
louvores a rigorosa justiça exercida contra os ladrões. Narrava gostosamente
como eles eram enforcados, aqui e ali, às vintenas, na mesma forca.
Apesar disso, acrescentava, vejam que fatalidade! Mal escapam da forca dois
ou três desses bandidos, e, no entanto, na Inglaterra, eles formigam por toda parte
!
Com a liberdade de palavra que gozava na casa do cardeal, disse eu, então:
Nada disso devia surpreender-vos. Neste caso a morte é uma pena injusta e
inútil; é bastante cruel para punir o roubo, mas bastante fraca para impedi-lo. O
simples roubo não merece a forca, e o mais horrível suplício não impedirá de
roubar o que não dispõe de outro meio para não morrer de fome. Nisto, a justiça
de Inglaterra e de muitos outros países se assemelha aos mestres que espancam
os alunos em lugar de instruí-los. Fazeis sofrer aos ladrões pavorosos tormentos;
não seria melhor garantir a existência a todos os membros da sociedade, a fim de
que ninguém se visse na necessidade de roubar, primeiro, e de morrer, depois?
- A sociedade previu o fenômeno, replicou o meu legista; a indústria, a
agricultura oferecem ao povo inúmeros meios de existência; existem, porém, seres
que preferem o crime ao trabalho.
- Era aí mesmo onde eu vos esperava, respondi. Não falarei dos que voltam
das guerras civis ou estrangeiras com o corpo mutilado. Quantos soldados,
entretanto, na batalha de Cornualha, ou na campanha de França, perderam um ou
vários membros a serviço do rei e da pátria! Esses infelizes tornaram-se fracos
demais para exercer o seu antigo ofício e velhos demais para aprender um novo.
Mas deixemos isso, as guerras só se reacendem a longos intervalos. Olhemos o
que se passa cada dia ao redor de nós. A principal causa da miséria pública reside
no número excessivo de nobres, zangões ociosos, que se nutrem do suor e do
trabalho de outrem e que, para aumentar seus rendimentos, mandam cultivar suas
terras, escorchando os rendeiros até à carne viva. Não conhecem outra economia.
Mas, tratando-se, ao contrário, de comprar um prazer, são pródigos, então, até à
loucura e à mendicidade. E não menos funesto é o fato de arrastarem consigo
uma turba de lacaios e mandriões sem estado e incapazes de ganhar a vida.
Caiam doentes esses lacaios, ou venha o seu patrão a morrer, e são jogados
no olho da rua; porque é preferível nutri-los para não fazer nada, do que alimentálos
enfermos; muitas vezes o herdeiro do defunto não está em condições de
manter a domesticidade paterna.
Eis aí pessoas expostas a morrer de fome se não têm o ânimo de roubar.
Terão eles,, na realidade, outras possibilidades? Procurando emprego gastam a
saúde e as roupas; e quando se tornam descorados pelas moléstias e cobertos de
farrapos, os nobres lhes têm horror, desprezando os seus serviços. Os
camponeses mesmo não os querem empregar. Os camponeses sabem que um
homem criado molemente na ociosidade e nos prazeres, habituado a trazer a
cimitarra e o broquel, a olhar superiormente os vizinhos e a desprezar todo
mundo; os, camponeses sabem que um tal homem não é apto a manejar a pá e a
enxada, a trabalhar, fielmente, por um salário insignificante e uma parca
alimentação, a serviço de um pobre lavrador.
Sobre esse ponto meu antagonista respondeu:
- É precisamente essa espécie de gente que o Estado deve manter e

compreendido pela órbita do sol, não viram senão vastas solidões eternamente
devoradas por um céu de fogo. Ai, tudo os aturdia de horror e espanto. A terra
inculta tinha apenas como habitantes os animais mais ferozes, os reptis mais
terríveis, ou homens mais selvagens que os animais. Afastando-se do Equador, a
natureza se abrandava pouco a pouco; o calor é menos abrasador, a terra se
cobre de uma ridente verdura e os animais são menos selvagens. Mais longe
ainda, aparecem povos, cidades, povoações, em que se faz um comércio ativo por
terra e por mar, não somente no interior e com as fronteiras, mas entre nações
muito distantes.
Estas descobertas inflamavam o ardor de Rafael e de seus companheiros. E o
que alimentava essa paixão pelas viagens era o fato de serem admitidos sem
dificuldade no primeiro navio a partir, qualquer que fosse o seu destino.
As primeiras embarcações que viram eram chatas, as velas formadas de vimes
entrelaçados ou de fo1has de papiros, e algumas de couro. Em seguida,
encontraram embarcações terminadas em ponta, as velas feitas de cánamo; e
finalmente embarcações inteiramente semelhantes às nossas, e hábeis nautas
conhecendo muito bem o céu e o mar, mas sem nenhuma idéia da bússola.
Esses bons homens ficaram pasmados de admiração e cheios do mais vivo
reconhecimento, quando nossos castelhanos lhes mostraram uma agulha
imantada. Antes, era tremendo que se aventuravam ao mar, e, ainda assim,
atreviam-se a navegar apenas no verão. Hoje, bússola em mão, arrostam os
ventos e o inverno mais confiados do que seguros; pois, se não tomam cuidado,
essa bela invenção que parecia dever trazer-lhes tantos benefícios, poderá
transformar-se, por sua imprudência, em uma fonte de males.
Seria muito extenso se relatasse, aqui, tudo o que Rafael viu em suas viagens.
Aliás, não é essa a finalidade desta obra. Completarei talvez a sua narrativa num
outro livro em que darei detalhes, principalmente, dos hábitos, costumes e sábias
instituições dos povos civilizados, que freqüentou Rafael.
Sobre essas graves questões nós o importunamos com perguntas
intermináveis, e ele consentia, prazeirosamente, em satisfazer a nossa
curiosidade. Nós nada lhe perguntamos sobre esses monstros famosos que já
perderam o mérito da novidade: Cila (1), Celenos, Lestrigões, comedores de gente,
e outras hárpias da mesma espécie que existem em quase toda parte. O que é
raro, é uma sociedade sã e sabiamente organizada.
Para dizer verdade, Rafael notou entre esses novos povos instituições tão ruins
quanto as nossas, mas, observou também um grande número de leis capazes de
esclarecer, de regenerar as cidades, nações e reinos da velha Europa.
Todas essas coisas, repito-o, serão objeto de uma outra obra. Nesta, relatarei
apenas o que Rafael nos contou dos costumes e instituições do povo utopiano.
Antes, quero mostrar ao leitor de que maneira a conversa foi levada para este
terreno:
Rafael entremeava a sua narrativa com as reflexões mais profundas.
Examinando cada forma de governo, analisava, com uma sagacidade
maravilhosa, o que há de bom e verdadeiro numa, de mau e de falso noutra. Ao
ouvi-lo discorrer tão sabiamente sobre as instituições e os costumes dos
diferentes povos, era de pensar-se que vivera toda a vida nos lugares por onde
apenas passara. Pedro não pode conter a sua admiração.
Na verdade, disse, meu caro Rafael, espanto-me que não vos tivésseis posto a
serviço de algum rei. Certamente não haveria um só que não encontrasse em vós
utilidade e satisfação. Encheríeis de encanto os seus lazeres com o vosso
conhecimento universal das coisas e dos homens, e os incontáveis exemplos, que
poderíeis citar, proporcionar-lhe-iam um sólido ensinamento e conselhos
preciosos. Faríeis, ao mesmo tempo, uma brilhante fortuna para vós e os vossos.
- Eu pouco me inquieto com a sorte dos meus, retomou Hitiodeu. Creio ter
cumprido sofrivelmente os meus deveres para com eles. Os outros homens só
abrem mão de seus bens já velhos e na agonia, e é ainda chorando, que
renunciam ao que suas mãos desfalecentes não mais podem reter. Eu, cheio de
saúde e juventude, tudo dei aos meus parentes e amigos. - Eles não se queixarão,
espero, do meu egoísmo; não exigirão que, para cumulá-los de ouro, eu me faça
escravo de um rei.
- Entendamo-nos, disse Pedro, a minha intenção não foi a de que servísseis
um príncipe como lacaio e sim como ministro.
- Os príncipes, meu amigo, põem nisto pouca diferença; e, entre estas duas
palavras latinas servire e inservire, vêm apenas uma sílaba a mais, ou a menos.
- Chamai a coisa como quiserdes, respondeu Pedro; é o melhor meio de ser útil
ao público, aos indivíduos, e de tornar mais feliz a própria situação.
- Mais feliz, dizeis! mas, como aquilo que repugna ao meu sentimento, ao meu
caráter, poderia fazer minha felicidade? Presentemente sou livre, vivo como quero,
e duvido que muitos dos que vestem a púrpura possam dizer o mesmo. Muita
gente ambiciona os favores do trono; os reis não sentirão falta, se eu e dois ou
três da minha têmpera não nos encontrarmos entre os cortesãos.
Então falei assim:
É evidente, Rafael, que não procurais riquezas nem poder, e não tenho menos
admiração e estima por um homem como vós, do que por aquele que está à frente
de um império. Parece-me, entretanto, que seria digno de um espírito tão
generoso, tão filósofo, como o vosso, aplicar todos os seus talentos na direção
dos negócios públicos, embora houvesse que comprometer o seu bem estar
pessoal; ora, a maneira de o fazer com mais proveito, é ainda a de entrar para o
conselho de algum grande príncipe; estou certo de que a vossa boca não se abrirá
jamais, senão para a virtude e para a verdade. Vós o sabeis, o príncipe é a fonte
de onde o bem e o mal jorram, como uma torrente, sobre o povo; e possuís tanta
ciência e tantos talentos que, embora não tivésseis o hábito dos negócios, daríeis,
mesmo assim, um excelente ministro para o rei mais ignorante.
- Incidis num duplo erro, caro Morus, replicou Rafael; e não só quanto ao fato
em si como quanto à pessoa; estou longe de ter a capacidade que me atribuis; e
mesmo que a tivesse cem vezes maior, o sacrifício de meu sossego seria inútil à
causa pública.
Em primeiro lugar, os príncipes cuidam somente da guerra (arte que me é
desconhecida e que não tenho nenhum desejo de conhecer). Eles desprezam as
artes benfazejas da paz. Trate-se de conquistar novos reinados, e todos os meios
lhes parecem bons; o sagrado e o profano, o crime e o sangue, não os detêm. Em
compensação, ocupam-se muito pouco de bem administrar os Estados
submetidos à sua dominação.
Quanto aos conselhos dos reis, eis aproximadamente a sua composição:

A UTOPIA

DISCURSO DO MUITO EXCELENTE HOMEM RAFAEL HITLODEU
SOBRE A MELHOR CONSTITUIÇÃO DE UMA REPÚBLICA PELO
ILUSTRE THOMAS MORUS VISCONDE E CIDADÃO DE LONDRES
NOBRE CIDADE DA INGLATERRA


LIVRO PRIMEIRO
O invencível rei da Inglaterra, Henrique, oitavo do nome, príncipe de um gênio
raro e superior, teve, não faz muito tempo, uma querela de certa importância com
o sereníssimo Carlos, príncipe de Castela. Eu fui, então, enviado às Flandres,
como parlamentar, com a missão de tratar e resolver essa questão.
Tinha por companheiro e colega, o incomparável Cuthbert Tunstall, a quem o
rei confiara a chancela do arcebispado de Cantuária, com os aplausos de todos.
Nada direi, aqui, em seu louvor. Não por temer que se acuse a minha amizade de
adulação; porém, a sua doutrina e as suas virtudes estão acima dos meus elogios,
e sua reputação é tão brilhante que celebrar o seu mérito seria, como diz o
provérbio, chover no molhado.
Encontramos em Bruges, lugar fixado para a conferência, os delegados do
príncipe Carlos, todos personagens distintíssimos. O governador de Bruges era o
chefe e o cabeça dessa deputação, e Jorge de Tomásia, preboste de Mont-
Cassel, era a boca e o coração. Este homem, que deve sua eloqüência, menos
ainda à arte que à natureza, passava por um dos mais sábios jurisconsultos em
questões de Estado; e sua capacidade pessoal; aliada a longa prática dos
negócios, fazia dele um habilíssimo diplomata.
A conferência já realizara duas sessões e não pudera ainda concordar sobre
muitos artigos. Os enviados de Espanha despediram-se, então de nós, para ir a
Bruxelas consultar o príncipe. Aproveitei esse lazer e rendí-me a Antuérpia.
Durante a minha estada nesta cidade conheci muita gente; mas nenhuma
relação me foi mais agradável que a de Pedro Gil, antuerpiense de uma grande
integridade. Este moço, que desfruta de honrosa posição entre os seus
concidadãos, merece, realmente, uma das mais elevadas, já pelos seus
conhecimentos, já por sua moralidade, pois, a erudição que possui iguala à
qualidade do caráter. Sua alma está aberta a todos; mas nutre por seus amigos
tanta benevolência, amor, fidelidade e devotamento que poder-se-ia qualificá-lo,
muito justamente, como o perfeito modelo da amizade. Modesto e sem
fingimentos, simples e prudente, sabe falar com espírito, e seu gracejo não é
nunca uma injúria. Em suma, a intimidade que se estabeleceu entre nós foi tão
cheia de prazer e encanto, que suavizou em mim a saudade da pátria, do lar, de
minha mulher, de meus filhos, e acalmou as inquietações de uma ausência de
mais de quatro meses.
Um dia, estava eu na Notre-Dame, igreja da grande devoção do povo, e uma
das obras primas mais belas da arquitetura; depois de ter assistido ao ofício
divino, dispunha-me a voltar para o hotel, quando, de repente, dou de cara com
Pedro Gil, que conversava com um estrangeiro já idoso. A tez trigueira do
desconhecido, sua longa barba, a capa, quase a cair-lhe, negligentemente, sua
aparência e aspecto revelavam um patrão de navio.
Logo que Pedro deu comigo, aproximou-se, e, saudando-me, afastou-se um

pouco de seu interlocutor que iniciava uma resposta, e, a propósito deste, me
disse:
Vede este homem, pois bem, ia levá-lo diretamente à vossa casa.
- Meu amigo, respondi-lhe, por vossa causa, ele seria benvindo.
- É mesmo por causa dele, replicou Pedro, se o conhecêsseis. Não há sobre a
terra outro ser vivo que possa vos dar detalhes tão completos e tão interessantes
sobre os homens e os países desconhecidos. Ora, eu sei que sois
excessivamente curioso por essa espécie de notícias.
- Não tinha adivinhado muito mal, disse eu, então, pois que, logo à primeira
vista, tomei o desconhecido por um patrão de navio.
- Enganai-vos estranhamente; ele navegou, é certo; mas não como Palinuro.
Navegou como Ulisses, e até mesmo como Platão. Escutai sua história:
Rafael Hitiodeu (o primeiro destes nomes é o de sua família) conhece bastante
bem o latim e domina o grego com perfeição. O estudo da filosofia ao qual se
devotou exclusivamente, fe-lo cultivar a língua de Atenas de preferência à de
Roma. E, por isso, sobre assuntos de alguma importância, só vos citará
passagens de Sêneca e de Cícero. Portugal é o seu país. Jovem ainda,
abandonou seu cabedal aos irmãos; e, devorado pela paixão de correr mundo,
amarrou-se à pessoa e à fortuna de Américo Vespúcio. Não deixou por um só
instante este grande navegador, durante as três das quatro últimas viagens, cuja
narrativa se lê hoje em todo o mundo. Porém, não voltou para a Europa com ele.
Américo, cedendo aos seus insistentes pedidos, lhe concedeu fazer parte dos
VINTE E QUATRO ficaram nos confins da NOVA-CASTELA. Foi, então, conforme
seu desejo, largado nessa margem; pois, o nosso homem não teme a morte em
terra estrangeira; pouco se lhe dá a honra de apodrecer numa sepultura; e gosta
de repetir este apotegma: O CADÁVER SEM SEPULTURA TEM O CÉU POR
MORTALHA; HÁ POR TODA A PARTE CAMINHO PARA CHEGAR A DEUS. Este
caráter aventureiro podia ter-lhe sido fatal, se a Providência divina não o tivesse
protegido. Como quer que fosse, depois da partida de Vespúcio ele percorreu,
com cinco castelhanos, uma multidão de países, desembarcou em Taprobana,
como por milagre, e. daí chegou em Calicut, onde encontrou navios portugueses
que o reconduziram ao seu país, contra todas as expectativas.
Assim que Pedro acabou essa narrativa, agradeci-lhe o empenho e solicitude
em me fazer desfrutar conversação com homem tão extraordinário; depois,
abordei Rafael, e, após as saudações e cortesias habituais num primeiro encontro,
levei-o à minha casa com Pedro Gil. Aí, sentados no jardim, sobre um banco de
relva, a conversa começou.
Rafael me contou como, após a partida de Vespúcio, ele e seus companheiros,
com afabilidade e bons serviços, grangearam a amizade dos indígenas, e como
viveram com eles em paz e na melhor harmonia. Houve mesmo um príncipe, cujo
pais e nome me escapam, que lhes deu proteção a mais afetuosa. Sua
generosidade os proveu de barcos, carros e tudo mais de que necessitavam para
continuar a viagem, Um guia fiel teve ordem de acompanhá-los e apresentá-los
aos príncipes com excelentes recomendações.
Depois de vários dias de marcha descobriram burgos e cidades bem
administradas, nações inúmeras e Estados poderosos.
No Equador, acrescentava Hitiodeu, de uma parte e de outra, no espaço

Cena III

O mesmo. Um cemitério, com o túmulo dos Capuletos. Entram Páris e seu pajem, trazendo flores e uma tocha.



PÁRIS — Dá-me a tocha, rapaz, e fica à parte. Não, apaga-a; não quero que me vejam. Deita-te ali embaixo do cipreste e o ouvido encosta junto do oco solo. Assim, não pisará o cemitério nenhum pé, sendo o solo pouco firme, frouxo e escavado pelas sepulturas, sem que o percebas. Deves assobiar-me, em sinal de que vem chegando gente. Dá-me essas flores. Faze o que te disse.
PAJEM (à parte) — Sinto um pouco de medo, por sozinho me ver no cemitério. Mas que seja. (Sai.)
PÁRIS — Minha querida flor, espalho flores em teu leito – Oh! de pedras é o dossel! – De água à noite trarei irrigadores ou o pranto amargo de meu fado cruel. Os funerais de nossa desventura flores far-te-ão nascer na sepultura. (O pajem assobia.) O menino me avisa que vem gente. Que pé maldito pisa estes caminhos durante a noite, para perturbar-me nos funerais e ritos do amor puro? Como! Traz uma tocha? Noite, esconde-me durante alguns instantes. (Retira-se.)
(Entram Romeu e Baltasar, com uma tocha, enxadão, etc.)
ROMEU — Dá-me o ferro e o enxadão. Toma esta carta. Logo que amanhecer tens de entregá-la ao meu senhor e pai. Agora, a tocha. Por tua vida te exorto: embora vejas e ouças seja o que for, fica a de parte, sem vires perturbar-me. Se ora desço a este leito de morte, em parte é apenas para o rosto ainda ver de minha esposa, mas, sobretudo, para de seu dedo de morta o anel tirar muito precioso que necessito para um caso extremo. Por isso, parte logo. Mas se, acaso só por curiosidade retornares para espiar o que fazer pretendo: pelo céu! quebrar-te-ei todas as juntas e encherei o faminto cemitério com partes de teu corpo. Meus intuitos a esta hora são selvagens, mais violentos e inexoráveis ainda do que o tigre faminto e o mar revolto.
BALTASAR — Vou-me embora, senhor, sem vos atrapalhar em nada.
ROMEU — Assim, me provarás tua amizade. Toma isto para ti; vive e prospera. E agora, bom amigo, passa bem.
BALTASAR (à parte) — Mas apesar de tudo, vou esconder-me por aqui mesmo. Não confio nele e temo seu olhar. (Retira-se.)
ROMEU — Matriz da morte. detestável maxila, que estás cheia da mais cara partícula da terra: assim te forço os maxilares podres (Abre a sepultura.) e te obrigo a aceitar mais alimento.
PÁRIS — Este é o Montecchio altivo, que banido foi por ter morto o primo de Julieta, por cuja dor a morrer veio aquela criatura incomparável. Ei-lo agora que vem para fazer nesses cadáveres alguma vilania oprobriosa. Vou prendê-lo. (Adianta-se.) Interrompe teu maldito trabalho, vil Montecchio! Como! É crível que a vingança vá além da própria morte? Estás preso, banido desprezível. Obedece e me segue; morrer deves.
ROMEU — Devo morrer, é fato; foi para isso que vim aqui. Mancebo generoso, tentar não queiras um desesperado. Foge daqui e deixa-me; reflete nestes mortos e que eles te amedrontem. Suplico-te, mancebo, não me faças arcar com o peso de mais um pecado, pois aqui vim contra mim próprio armado. Não fiques; vai-te e dize no porvir que foi um louco que te fez fugir.
PÁRIS — Importância não dou a teu pedido e prendo-te por seres criminoso.
ROMEU — Queres me provocar? Então defende-te.
(Batem-se.)
PAJEM — Batem-se, oh Deus! Vou já chamar a guarda. (Sai.)
PÁRIS (cai) — Estou morto! Se fores compassivo, abre a tumba e me deita com Julieta. (Morre.)
ROMEU — Em verdade o farei. Porém vejamos estas feições: o nobre conde Páris, parente de Mercúcio! Que me disse meu criado, quando juntos caminhávamos para cá e minha alma atormentada não escutava nada? Não me disse que Páris e Julieta iam casar-se? Não foi assim, ou terá sido sonho? Ou então, por estar louco, pensei nisso, quando ele me falava de Julieta? Dá-me essa mão, ó tu que estás inscrito, como eu também, no livro do infortúnio. Vou depor-te num túmulo glorioso. Túmulo? Não, mancebo assassinado; uma lanterna, pois Julieta se acha deitada aí e sua formosura faz desta abóbada uma sala régia, transbordante de luz. Repousa, morto, por um morto enterrado. (Coloca no túmulo o corpo de Páris.) Quantas vezes, no ponto de morrer, ledos se mostram os homens? É o clarão da despedida, dizem quantos o doente estão velando. Oh! poderei chamar clarão a esta hora? Ó meu amor! querida esposa! A morte que sugou todo o mel de teu doce hálito poder não teve em tua formosura. Não; conquistada ainda não foste; a insígnia da beleza em teus lábios e nas faces ainda está carmesim, não tendo feito progresso o pálido pendão da morte. Tebaldo, jazes num lençol de sangue? Oh! que maior favor fazer-te posso do que com esta mesma mão que a tua mocidade cortou, destruir, agora, também, a do que foi teu inimigo? Primo, perdoa-me. Ah! querida esposa, por que ainda és tão formosa? Pensar devo que a morte insubstancial se apaixonasse de ti e que esse monstro magro e horrível para amante nas trevas te conserve? Com medo disso, ficarei contigo, sem nunca mais deixar os aposentos da tenebrosa noite; aqui desejo permanecer, com os vermes, teus serventes. Aqui, sim, aqui mesmo fixar quero meu eterno repouso, e desta carne lassa do mundo sacudir o jugo das estrelas funestas. Olhos, vede mais uma vez; é a última. Um abraço permiti-vos também, ó braços! Lábios, que sois a porta do hálito, com um beijo legítimo selai este contrato sempiterno com a morte exorbitante. Vem, condutor amargo! Vem, meu guia de gosto repugnante! Ó tu, piloto desesperado! lança de um só golpe contra a rocha escarpada teu barquinho tão cansado da viagem trabalhosa. Eis para meu amor. (Bebe.) Ó boticário veraz e honesto! tua droga é rápida. Deste modo, com um beijo, deixo a vida. (Morre.)
(Entra pelo outro lado do cemitério frei Lourenço com lanterna, alavanca e uma pá.)
FREI LOURENÇO — São Francisco me ajude! Quantas vezes esta noite meus pés enfraquecidos tropeçaram em túmulos? Quem vive?
BALTASAR — É um amigo, que muito vos conhece.
FREI LOURENÇO — Deus te abençoe. Querido amigo, dize-me que tocha é aquela ali que embalde a sua luz aos vermes empresta e aos crânios cegos? Ao que parece, está no monumento dos Capuletos.
BALTASAR — Sim, é lá, santo homem. Lá se acha meu senhor, de quem gostais.
FREI LOURENÇO — Quem é ele?
BALTASAR — Romeu.
FREI LOURENÇO — Há quanto tempo está ele lá?
BALTASAR — Há cerca de meia hora.
FREI LOURENÇO — Vem comigo até o túmulo.
BALTASAR — Não ouso fazer isso, senhor; meu amo pensa que eu fui embora e me ameaçou de morte se eu ficasse a espreitá-lo.
FREI LOURENÇO — Então espera; irei só; já começo a sentir medo. Oh! receio algum caso desastrado.
BALTASAR — Tendo dormido sob aquele teixo, vi em sonhos, parece, que meu amo se batia com outro, tendo-o morto.
FREI LOURENÇO (adiantando-se) — Romeu! Romeu! Oh dor! Que sangue é este que mancha a entrada pétrea do sepulcro? Que quererão dizer estas espadas sem dono, a estilar sangue e descoradas, neste lugar de paz? (Entra no túmulo.) Romeu! Oh, pálido! Quem mais? Quê! Também Páris? E encharcado de sangue? Oh! que hora dura teve culpa deste acontecimento lamentável? A senhora se mexe.
(Julieta desperta.)
JULIETA — Ó meu bom frade, onde está meu senhor? Sei muito bem onde eu devia estar, onde me encontro. Mas onde está Romeu?
(Barulho dentro.)
FREI LOURENÇO — Ouço bulha. Saí, senhora, desse ninho de morte, de contágio e sono contrário à natureza. Uma potência por demais forte para que a vençamos frustrou nossos intentos. Vem, bem logo! Teu marido em teu seio se acha morto; Páris também. Vem logo; vou levar-te para um convento de piedosas freiras. Não percas tempo com perguntas; vamos; a guarda está chegando. Vem, bondosa Julieta; não me atrevo a esperar mais.
JULIETA — Vai, que eu daqui não sairei jamais. (Sai frei Lourenço.) Que vejo aqui? Um copo bem fechado na mão de meu amor? Certo: veneno foi seu fim prematuro. Oh! que sovina! Bebeste tudo, sem que me deixasses uma só gota amiga, para alivio. Vou beijar esses lábios; é possível que algum veneno ainda se ache neles, para me dar alento e dar a morte. (Beija-o.) Teus lábios estão quentes.
PRIMEIRO GUARDA (dentro) — Vamos, guia-me, rapaz; qual é o caminho?
JULIETA — Ouço barulho. Preciso andar depressa. Oh! sê bem-vindo, punhal! (Apodera-se do punhal de Romeu.) Tua bainha é aqui. Repousa ai bem quieto e deixa-me morrer. (Cai sobre o corpo de Romeu e morre.)
(Entram os homens da guarda, com o pajem de Páris.)
PAJEM — É ali o ponto, onde está acesa a tocha.
PRIMEIRO GUARDA — Há sangue pelo chão. Passai revista em todo o cemitério, e se encontrardes alguém, prendei-o. (Saem alguns guardas.) Oh vista dolorosa! Aqui se encontra, assassinado, o conde, e Julieta a sangrar de novo e morta recentemente, que há dois dias fora posta neste sepulcro. Ide depressa chamar os Capuletos e os Montecchios. Na busca prossegui vós outros. (Saem outros guardas.) Vemos o terreno de tantas desventuras; mas o terreno verdadeiro destas desgraças lastimáveis, só podemos ficar sabendo após maior estudo.
(Voltam alguns guardas com Baltasar.)
SEGUNDO GUARDA — É o criado de Romeu; fomos achá-lo dentro do cemitério.
PRIMEIRO GUARDA — Segurai-o com bem cautela, até que chegue o príncipe.
(Volta outro guarda, com frei Lourenço.)
TERCEIRO GUARDA — Aqui está um frade que suspira e chora, sem parar de tremer. Nas mãos trazia uma pá e este ferro, e deste lado vinha do cemitério.
PRIMEIRO GUARDA — São indícios suspeitos; segurai também o frade.
(Entra o príncipe com seu séqüito.)
PRÍNCIPE — Que desgraça se deu aqui tão cedo, para tirar assim nossa pessoa de seu sono habitual?
(Entram Capuleto, a senhora Capuleto e outros.)
CAPULETO — Por que esses gritos por toda parte? Que houve?
SENHORA CAPULETO — Pelas praças o nome de Romeu o povo grita; outros, o de Julieta; outros, de Páris, correndo com clamores toda a gente para o lado do nosso monumento.
PRÍNCIPE — Que horror é esse que nos fere a vista?
PRIMEIRO GUARDA — Príncipe, aqui está, morto o conde Páris; morto, Romeu; e a que antes falecera, Julieta, quente está e outra vez morta.
PRÍNCIPE — Investigai por outra parte como se deu este horroroso morticínio.
PRIMEIRO GUARDA — Aqui está um frade e aqui, também, o criado de Romeu; instrumentos carregavam para arrombar o túmulo dos mortos.
CAPULETO — Oh céus! Mulher, vê nossa filha: sangra! Enganou-se o punhal; sua bainha se acha vazia ao lado de Montecchio. Está mal colocado em nossa filha.
SENHORA CAPULETO — Ai de mim! Este quadro só de mortes é como um toque fúnebre que a minha velhice chama para a sepultura.
(Entram Montecchio e outros.)
PRÍNCIPE — Vem cá, Montecchio; cedo te levantas para mais cedo ver baixar teu filho.
MONTECCHIO — O meu senhor! durante a noite a minha senhora faleceu; cortou-lhe o fôlego a tristeza do exílio de meu filho. Que mais conspira contra minha idade?
PRÍNCIPE — Olha e verás.
MONTECCHIO — O néscio! néscio! que costume é esse de, antes do pai, entrar na sepultura?
PRÍNCIPE — Sela a boca do ultraje por um pouco, até que este mistério esclareçamos e fiquemos sabendo sua origem e verdadeiro curso. Depois disso, comandante serei de vossas dores e conduzir-vos-ei à própria morte. Até lá sossegai e que a desgraça se submeta à paciência. Apresentai-nos as pessoas suspeitas.
FREI LOURENÇO — Dos presentes sou eu o mais suspeito, muito embora seja o que menos pode fazer algo, visto acusarem-me o lugar e a hora. Eis-me a acusar-me, a um tempo, e a defender-me, num só momento condenado e absolto.
PRÍNCIPE — Dize então logo o que sobre isto sabes.
FREI LOURENÇO — Serei breve, porque meu curto fôlego não é mais longo do que história insípida. Romeu, aqui sem vida, era marido desta Julieta, assim como ela, morta também aqui, era a fiel consorte deste Romeu. Fui eu que os desposei. O dia dessas núpcias clandestinas foi o do final juízo de Tebaldo, cuja morte baniu de nosso burgo o recente marido. Era por causa dele, não por Tebaldo, que Julieta se vinha definhando. Vós, com o fito de expulsar-lhe do peito essa tristeza, ao conde a prometestes, tencionando casá-la a contragosto. Procurou-me desvairada e pediu-me que inventasse qualquer recurso que a livrasse desse segundo casamento, ou então lá mesmo, sem vacilar, poria termo à vida. Dei-lhe então – por minha arte aconselhado – um estupefaciente que sobre ela o efeito produziu por mim visado, a aparência emprestando-lhe da morte. A Romeu escrevi nesse entrementes, para que ele aqui viesse nesta noite de horrores ajudar-me a retirá-la de seu falso sepulcro, pois o efeito do veneno nessa hora cessaria. Mas a pessoa que levou a carta, Frei João, detido foi por acidente, tendo-ma devolvido ontem à noite. Então, sozinho, na hora prefixada para ela despertar, vim retirá-la do túmulo dos seus, a idéia tendo de escondê-la na minha pobre cela, até chamar Romeu. Aqui chegando, porém – alguns minutos antes da hora de Julieta acordar – encontrei mortos antes de tempo o nobre conde Páris e o fiel Romeu. Julieta despertou. Roguei-lhe que fugisse e que aceitasse com paciência o que o céu lhe destinara. Nisso, um barulho me afastou do túmulo, sem que, em seu desespero, ela comigo se retirasse, tendo, ao que parece, posto termo à existência. Sei só isso. A ama se achava a par do casamento. Se algo nisto falhou por minha culpa, que minha velha vida, algumas horas antes do tempo, o expie em sacrifício, sob o rigor da mais severa pena.
PRÍNCIPE — Por um santo homem sempre te tivemos. E o criado de Romeu, que nos informa?
BALTASAR — Fui portador a meu senhor da nova da morte de Julieta. Ele, apressado, veio de Mântua para cá, para este mesmo túmulo, tendo-me ordenado que esta carta a seu pai desse bem cedo. Ao penetrar no túmulo, ameaçou-me de morte se eu não fosse logo embora e não o deixasse aqui.
PRÍNCIPE — Dá-me essa carta; quero ver o que diz. E onde está o pajem do conde Páris, que chamou a guarda? Que fazia teu amo aqui, pequeno?
PAJEM — Veio com flores para a sepultura de sua noiva, tendo-me ordenado que ficasse de parte. Obedeci-lhe. Depois, com luz, chegou um homem, para violar a sepultura, tendo logo sacado meu senhor contra ele a espada. Saí correndo e fui chamar a guarda.
PRÍNCIPE — Confirma a carta o que nos disse o monge: como o amor decorreu, a falsa nova da morte dela. Aqui ele nos conta que veneno comprou de um boticário e que vinha morrer neste sepulcro, para ficar ao lado de Julieta. Onde se encontram esses inimigos? Capuleto! Montecchio! Vede como sobre vosso ódio a maldição caiu e como o céu vos mata as alegrias valendo-se do amor. Por minha parte, por ter condescendido com vós todos, dois parentes perdi. Fomos punidos.
CAPULETO — Dá-me tua irmão, irmão Montecchio; é o dote de minha filha. Mais, pedir não posso.
MONTECCHIO — Mas eu posso dar mais, pois hei de a estátua dela mandar fazer do mais puro ouro. Enquanto for Verona conhecida, nenhuma imagem terá tanto preço como a da fiel e mui veraz Julieta.
CAPULETO — Romeu fama também dará à cidade; vítimas são de nossa inimizade.
PRÍNCIPE — Esta manhã nos trouxe paz sombria: esconde o sol, de pesadume, o rosto. Ide; falai dos fatos deste dia; serei clemente, ou rijo, a contragosto, que há de viver de todos na memória de Romeu e Julieta a triste história.
(Saem.)

Cena II

Verona. Cela de frei Lourenço. Entra frei João



FREI JOÃO — Santo irmão franciscano! Olá, irmão!
(Entra frei Lourenço.)
FREI LOURENÇO — A voz é de frei João. Deve ser ele. Ó tu que vens de Mântua, sê bem-vindo. Romeu que disse? Ou então, se o pensamento mandou escrito, dá-me sua carta.
FREI JOÃO — Fui procurar um frade de nossa ordem de pés descalços, que visita os doentes, para ir comigo a Mântua, mas os guardas da cidade, pensando que tivéssemos estado numa casa em que a infecciosa pestilência domina, as portas logo fecharam, não deixando que saíssemos. Desta arte minha pressa de ir a Mântua ficou parada.
FREI LOURENÇO — E quem levou a carta para Romeu?
FREI JOÃO — Não pude remetê-la – ei-la aqui outra vez – tentei, embalde, achar um portador para levá-la, tanto medo têm todos de infecção.
FREI LOURENÇO — Quanta falta de sorte! Por minha ordem, essa carta não é sem importância, mas de peso e conteúdo muito grave. O atraso pode ser de conseqüências muito sérias. Frei João, vai bem depressa buscar uma alavanca; estou na cela.
FREI JOÃO — Pois não, irmão; levá-la-ei já já. (Sai.)
FREI LOURENÇO — Agora tenho de ir sozinho ao túmulo. Dentro destas três horas vai a bela Julieta despertar; vai maldizer-me porque Romeu ficou sem ter notícias de quanto aconteceu. Mas para Mântua vou escrever de novo; em minha cela vou deixá-la escondida, até que possa Romeu chegar aqui. Pobre cadáver vivo, enterrado numa sepultura! (Sai.)

ATO V
Cena I

Mântua. Uma rua. Entra Romeu.



ROMEU — Se eu tiver de dar crédito à verdade do sono aduladora, os sonhos dizem-me que está iminente alguma alegre nova. Em seu trono sentado está de leve o senhor do meu peito, e o dia todo com risonhas imagens um espírito desconhecido me ergue do chão duro. Sonhei que meu amor tinha chegado e me encontrara morto. Estranho sonho, que não destrói no morto o pensamento! E com beijos tal vida me insuflava que eu revivi e imperador tornei-me. Quão doce deve ser o amor possuído, se assim tão venturoso é sua sombra! (Entra Baltasar, de botas.) Notícias de Verona! Que acontece, Baltasar? Frei Lourenço mandou carta? E meu pai, está bem? Minha Julieta, como a deixaste? Torno a perguntar-te, nada irá mal, se bem ela estiver.
BALTASAR — Então ela está bem; nada está mal. Seu corpo está dormindo no sepulcro dos Capuletos e a imortal essência vive agora entre os anjos. Vi quando ela foi deposta na tumba da família. Perdoai-me por trazer-vos tais notícias; mas destes-me, senhor, essa incumbência.
ROMEU — É assim? Então, estrelas, desafio-vos! Sabes bem onde eu moro; vai buscar-me papel e tinta e aluga-me uns cavalos. Partirei esta noite.
BALTASAR — Revesti-vos de paciência, senhor, vos peço; tendes pálidas as feições e desvairadas, pressagiando desgraça.
ROMEU — Não; enganas-te. Vai logo e faze o que te disse há pouco. Não me mandou o monge alguma carta?
BALTASAR — Nenhuma, bom senhor.
ROMEU — Bem; não importa. Vai tratar logo de alugar cavalos; irei já para casa. (Sai Baltasar.) Bem, Julieta; deitar-me-ei ao teu lado ainda esta noite. Procuremos os meios... Ó desgraça! como rapidamente te intrometes nos pensamentos dos desesperados! Lembro-me de ter visto um boticário – mora aqui perto – não faz muito tempo, maltrapilho, de cenho carregado, a separar suas ervas. Rosto esquálido, tinha-o roído até aos ossos a miséria. Pendida via-se uma tartaruga em sua pobre loja, um crocodilo morto e empalhado, e muitas outras peles de peixes desconformes; pelas sujas prateleiras, uns montes miseráveis de caixinhas vazias, potes verdes, bexigas e sementes bolorentas, restos de fios, velhos pães de rosas, magramente espalhados para efeito. Vendo tanta miséria, a sós comigo observei que se alguém necessitasse algum dia veneno que, sob pena de morte agora não se vende em Mântua, ali vivia um desgraçado escravo que decerto o vendera. Oh! essa idéia veio muito antes da necessidade. Esse coitado vai vender-me a droga. Se não me engano, a casa é aqui defronte. Sendo feriado, a loja está fechada. Olá! oh!... Boticário!
(Entra o boticário.)
BOTICÁRIO — Quem me chama com tanta força?
ROMEU — Vem aqui, amigo. Vejo que és pobre; toma estes quarenta ducados, mas arranja-me uma dracma de veneno, mas droga tão violenta que tão veloz se espalhe pelas veias, que a pessoa cansada desta vida, bebendo-a, caia morta, e que do corpo o fôlego se aparte tão depressa como pólvora acesa, ao desprender-se do fatal ventre do canhão medonho.
BOTICÁRIO — Possuo esse veneno perigoso; porém as leis de Mântua morte certa cominam para quantos o venderem.
ROMEU — És tão nu e tão cheio de misérias, e a morte ainda receias? Tens a fome nas faces; as angústias e o infortúnio de fome em teu olhar estão morrendo; do dorso pendem-te a miséria e a ofensa. Não se te mostra amigo o mundo e, menos ainda, a lei do mundo. Em todo o mundo não há uma lei para deixar-te rico. Não sejas pobre, então; passa por cima da lei e toma isto.
BOTICÁRIO — Aceita a minha pobreza o que me dás, não a vontade.
ROMEU — Não a vontade, pago-te a pobreza.
BOTICÁRIO — Ponde isto em qualquer líquido; tomando-o, embora a resistência possuirdes de vinte homens, caireis de pronto morto.
ROMEU — Eis teu ouro, veneno mais nocivo para as almas dos homens, que mais crimes tem cometido neste mundo sujo, do que essas pobres drogas misturadas que não podes vender. Dei-te veneno; não tu a mim. Adeus. Compra alimento e engorda um pouco mais. Vamos, cordial, não veneno. Ao sepulcro vem comigo de Julieta, mostrar que és meu amigo.
(Saem.)

Alguem a espera de um mundo melhor

Campo Grande
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