criação de seus carneiros. Vão comprar, distante, animais magros, quase por
nada, engordam-nos nos seus campos e os revendem a preços extraordinários.
Temo bastante que a Inglaterra não tenha sofrido todos os efeitos desses
deploráveis abusos. Até agora os engordadores de gado só provocaram a carestia
nos lugares onde vendem; mas à força de transportar o gado do lugar onde
compram, sem lhe dar tempo de reproduzir, o seu número acabará por diminuir,
insensivelmente, e o país acabará por cair numa horrível penúria. Assim, o que
devia fazer a riqueza de vossa ilha fará a miséria, devido à avareza de um
punhado de miseráveis.
A escassez geral obriga todo o mundo a restringir sua despesa e sua
criadagem. E os que são despedidos, para onde vão? Mendigar ou roubar, se têm
coragem.
A estas causas de miséria ajuntam-se ainda o luxo e as despesas insensatas.
Lacaios, operários, camponeses, todas as classes da sociedade, ostentam um
luxo inaudito nas vestes e na alimentação. Que direi dos lugares de prostituição,
dos vergonhosos antros de embriaguez e devassidão, das infames casas de
tavolagem de todos os jogos, do baralho, do dado, do jogo da péla e da conca,
que devoram o dinheiro de seus freqüentadores, e os impelem diretamente ao
roubo para reparar as perdas?
Arrancai de vossa ilha essas pestes públicas, esses germes do crime e da
miséria. Obrigai os vossos nobres demolidores a reconstruir as quintas e burgos
que destruíram, ou a ceder os terrenos para os que quiserem reconstruir sobre as
ruínas. Colocai um freio ao avarento egoísmo dos ricos; tirai-lhes o direito do
açambarcamento e monopólio. Que não haja mais ociosos entre vós. Dai à
agricultura um grande desenvolvimento; criai a manufatura da lã e a de outros
ramos de indústria, para que venha a ser ocupada utilmente esta massa de
homens que a miséria transformou em ladrões, vagabundos ou lacaios, o que é
aproximadamente a mesma coisa.
Se não remediardes os males que vos assinalo, não vos vanglorieis de vossa
justiça; é ela uma mentira feroz e estúpida.
Abandonais milhões de crianças aos estragos de uma educação viciosa e
imoral. A corrupção emurchece, à vossa vista, essas jovens plantas que poderiam
florescer para a virtude, e, vós as matais, quando, tornadas homens, cometem os
crimes que germinavam desde o berço em suas almas. E, no entanto, que é que
fabricais? Ladrões, para ter o prazer de enforcá-los.
Enquanto eu assim falava, o meu adversário preparava a réplica. Ele se
dispunha a seguir a pomposa dialética desses polemistas categóricos, que
repetem mais do que respondem e que fazem ponto de honra de uma discussão
os exercícios de memória.
Falastes muito bem, disse-me ele, sobretudo vós que sois estrangeiro e que
não podeis conhecer estas matérias senão de outiva. Eu vos darei melhores
esclarecimentos. Eis a ordem do meu discurso: antes de tudo, recapitularei tudo o
que vos disse; em. seguida realçarei os erros a que vos induziu a ignorância dos
fatos; finalmente, refutarei os vossos argumentos e pulverizá-los-ei. Começo, pois,
como o prometi. Tendes, se não me engano, enumerado quatro...
- Eu vos detenho aí, interrompeu bruscamente o cardeal, o exórdio me faz
temer que o discurso seja um pouco longo. Nós vos pouparemos hoje desta
fadiga. Mas não vos dou. por desembaraçado dessa arenga; guardai-a
integralmente para a próxima entrevista que tiverdes com vosso adversário.
Desejo que estejam ambos aqui, amanhã, a menos que vós, ou Rafael, estejais na
impossibilidade de vir. Enquanto isso, meu caro Rafael, far-me-íeis o obséquio de
explicar por que o roubo não merece a morte, e por que outra pena a substituireis
de forma a garantir melhor a segurança pública. Como não pensais que se deva
tolerar o roubo, e se a forca não é hoje uma barreira para o banditismo, que terror
exercereis, sobre os celerados quando eles tiverem a certeza de não perder a
vida? Que sanção bastante forte dareis à lei? Uma pena mais branda não seria
um prêmio de incitamento ao crime?
Minha convicção íntima, eminência, é que é injusto matar-se um homem por ter
tirado dinheiro de outrem, desde que a sociedade humana não pode ser
organizada de modo a garantir para cada um uma igual porção de bens.
Podem objetar-me, sem dúvida, que a sociedade, tirando-lhe a vida, vinga a
justiça e as leis, e não pune somente uma miserável subtração de dinheiro.
Responderei com este axioma: Summum jus, summa injuria, O supremo direito é
uma injustiça suprema. A vontade do legislador não é tão infalível e absoluta que
seja necessário desembainhar a espada à menor infração aos seus decretos. A lei
não é tão rígida e estóica que coloque, no mesmo nível, todos os delitos e crimes,
e não estabeleça nenhuma diferença entre matar um homem e roubá-lo. Se a
eqüidade não é uma palavra cã, há entre essas duas ações um abismo.
E como! Deus proibiu o assassínio e nós, nós matamos tão facilmente por
causa do furto de algumas moedas!
Alguém dirá, talvez: Deus, com esse mandamento, tirou o poder de matar ao
homem privado, mas não ao magistrado que condena aplicando as leis da
sociedade.
Mas se é assim, quem impede os homens de fazer outras leis igualmente
contrárias aos preceitos divinos, e de legalizar o estupro, o adultério e o perjúrio.?
Como!... Deus nos proibiu tirar a vida não somente ao nosso próximo mas também
a nós mesmos; e nós poderíamos legitimamente convencionar em degolarmo-nos
em virtude de algumas sentenças jurídicas! E esta convenção atroz colocaria
juizes e carrascos por cima da lei divina, dando-lhes o direito de mandar à morte
os que o código penal condena a morrer!
Resultaria disso esta conseqüência monstruosa: a justiça divina tem
necessidade de ser legalizada e autorizada pela justiça humana; e que, em todos
os casos possíveis, cabe ao homem determinar quando deve obedecer ou não
aos mandamentos de Deus.
A própria lei de Moisés, lei de terror e vingança, feita para escravos e homens
embrutecidos, não punia de morte o simples roubo. Evitemos pensar que, sob a lei
cristã, lei de perdão e caridade, em que Deus ordena como pai, nós temos o
direito de ser mais desumanos, e de derramar, sob qualquer pretexto, o sangue de
nosso irmão.
Tais são os motivos que me persuadem que é injusto aplicar ao ladrão o
mesmo castigo que ao assassino. Poucas palavras vos farão compreender como
esta penalidade é absurda em si mesma e como é perigosa à segurança pública.
O celerado vê que não há menos a temer furtando do que assassinando;
então, ele mata aquele a quem apenas despojara; e mata-o para a sua própria
quinta-feira, 3 de maio de 2007
Postado por
Mony Duraes : )
às
10:18
0
comentários
multiplicar com mais cuidado. Há neles mais ânimo e nobreza da alma que no
artesão e no trabalhador. São maiores e mais robustos e constituem, portanto, a
força do exército na hora de combater.
- Seria o mesmo que dizer, repliquei então, que se deve, para a glória e o êxito
dos vossos exércitos, multiplicar os ladrões. Porque esses mandriões são uma
sementeira inesgotável para o exército. Com efeito, os ladrões não são os piores
soldados, como os soldados não são os ladrões mais tímidos; há muita analogia
entre esses dois ofícios. Infelizmente, esta praga social não é particular à
Inglaterra; corrói quase todas as nações.
A França está infestada por uma peste ainda mais desastrosa. O seu solo está
inteiramente coberto e como que sitiado por inúmeras tropas arregimentadas e
pagas pelo Estado. E isto em tempo de paz; se é que se pode chamar de paz as
tréguas de um momento. Este deplorável sistema é justificado pelo mesmo motivo
que vos leva a sustentar miríades de lacaios ociosos. Pareceu a esses políticos,
timoratos e aflitos, que a segurança. do Estado exigia um exército numeroso, forte,
permanentemente em armas, e composto de veteranos. Não confiam nos
conscritos. Dir-se-ia mesmo que fazem guerras para ensinar o exercício ao
soldado a fim de que, como escreveu Salústio, nesse grande matadouro humano,
o coração ou a mão não se lhes entorpeçam no repouso.
A França aprende à sua custa o perigo de alimentar essa espécie de animais
carnívoros. No entanto, bastar-lhe-ia olhar os romanos, os cartagineses e muitos
outros povos antigos. Que benefícios tiraram, entretanto, de seus exércitos
imensos e sempre em pé de guerra? A devastação de suas terras, a destruição de
suas cidades, a ruína de seu império. Se, ao menos, tivesse adiantado, aos
franceses, exercitar, por assim dizer, seus soldados desde o berço! Mas os
veteranos da França já combateram contra os conscritos da Inglaterra, e não
estou certo se se podem gabar muitas vezes de ter levado a melhor. Eu me calo
sobre esse capítulo; pareceria estar fazendo a corte aos que me ouvem.
Voltemos aos nossos soldados lacaios.
Têm eles, dizeis, mais coragem e grandeza da alma do que os artesãos e os
trabalhadores. Eu, de mim, não creio que um lacaio faça muito medo nem a uns
nem a outros, a não ser àqueles em que a fraqueza do corpo paralisa o vigor da
alma e cuja energia foi aniquilada pela miséria. Os lacaios, dizeis ainda, são
maiores e mais robustos. Mas não é uma lástima ver homens fortes e belos
(porque os nobres escolhem as vítimas de sua corrupção) consumirem-se na
inação, amolecerem-se em ocupações de mulheres, quando fácil seria torná-los
laboriosos e úteis, dando-lhes um ofício honrado e habituando-os a viver do
trabalho de suas mãos.
De qualquer maneira que se encare a questão, esta massa imensa de gente
ociosa parece-me inútil ao país, mesmo na hipótese de uma guerra, que poderíeis,
aliás, evitar todas as vezes que o quisésseis. Ela é, além do mais, o flagelo da
paz; e a paz merece que se trate dela, tanto quanto da guerra.
A nobreza e a lacaiada não são as únicas causas dos assaltos e roubos que
vos deixam desolado; há uma outra exclusivamente peculiar à vossa ilha.- E qual
é ela?, disse o cardeal.
- Os inumeráveis rebanhos de carneiros que cobrem hoje toda a Inglaterra.
Estes animais, tão dóceis e tão sóbrios em qualquer outra parte, são entre vós de
tal sorte vorazes e ferozes que devoram mesmo os homens e despovoam os
campos, as casas e as aldeias.
De fato, a todos os pontos do reino, onde se recolhe a lã mais fina e mais
preciosa, acorrem, em disputa do terreno, os nobres, os ricos e até santos abades.
Essa pobre gente não se satisfaz com as rendas, benefícios e rendimentos de
suas terras; não está satisfeita de viver no meio da ociosidade e dos prazeres, às
expensas do público e sem proveito para o Estado. Eles subtraem vastos tratos de
terra à agricultura e os convertem em pastagens; abatem as casas, as aldeias,
deixando apenas o templo para servir de estábulo para os carneiros. Transformam
em desertos os lugares mais povoados e mais cultivados. Temem, sem dúvida,
que não haja bastantes parques e bosques e que o solo venha a faltar para os
animais selvagens.
Assim um avarento faminto enfeixa, num cercado, milhares de geiras; enquanto
que honestos cultivadores são expulsos de suas casas, uns pela fraude, outros
pela violência, os mais felizes por uma série de vexações e de questiúnculas que
os forçam a vender suas propriedades. E estas famílias mais numerosas do que
ricas (porque a agricultura tem necessidade de muitos braços), emigram campos
em fora, maridos e mulheres, viúvas e órfãos, pais e mães com seus filhinhos. Os
infelizes abandonam, chorando, o teto que os viu nascer, o solo que os alimentou,
e não encontram abrigo onde refugiar-se. Então vendem a baixo preço o que
puderam carregar de seus trastes, mercadoria cujo valor é já bem insignificante.
Esgotados esse fracos recursos, o que lhes resta? O roubo, e, depois, o
enforcamento segundo as regras.
Preferem arrastar sua miséria mendigando? Não tardam ser atirados na prisão
como vagabundos e gente sem eira nem beira. No entanto, qual é o seu crime? É
o de não achar ninguém que queira aceitar os seus serviços, ainda que eles os
ofereçam com .o mais vivo empenho. E aliás, como empregar esses homens?
Eles só sabem trabalhar a terra; não há então nada a fazer com eles, onde não há
mais nem semeaduras nem colheitas. Um só pastor ou vaqueiro é suficiente,
agora, a fazer com que brote, de si mesma, a terra onde, outrora, para seu cultivo,
centenas de braços eram necessários.
Outro efeito desse fatal sistema é uma grande carestia de vida em diversos
lugares.
Mas não é tudo. Após a multiplicação dos pastos, uma horrorosa epizootia veio
matar uma imensa quantidade de carneiros. Parece que Deus queria punir a
avareza insaciável dos vossos açambarcadores com esta medonha mortandade
que talvez fosse mais justo lançar sobre suas próprias cabeças. Então, o preço
das lãs subiu tão alto que os operários mais pobres não as podem atualmente
comprar. E eis aí de novo uma multidão de gente sem trabalho. É verdade que o
número de carneiros cresce rapidamente todos os dias; mas nem por isso o preço
baixou; porque se o comércio das lãs não é um monopólio legal, está, na
realidade, concentrado nas mãos de alguns ricos açambarcadores que nada pode
constrangê-los a vender a não ser com altos lucros.
As outras espécies de gado encareceram proporcionalmente pela mesma
causa e por uma causa mais forte ainda, porque a reprodução destes animais está
completamente abandonada, desde a abolição das granjas e a ruína da
agricultura. Vossos grandes senhores não cuidam da criação do gado, como da
Postado por
Mony Duraes : )
às
10:17
0
comentários
Uns se calam por inépcia, e teriam mesmo grande necessidade de ser
aconselhados. Outros, são capazes, e sabem que o são; mas partilham sempre do
parecer do preopinante, que está em melhores graças, e aplaudem, com
entusiasmo, as pobres imbecilidades que este entende desembuchar; esses vis
parasitas só têm uma finalidade: ganhar, por uma baixa e criminosa lisonja, a
proteção do primeiro favorito. Os outros, são escravos de seu amor próprio e
escutam apenas a própria opinião, o que não é de admirar, pois a natureza insufla
cada um a afagar com amor os produtos de sua invenção. É assim que o corvo
sorri à sua ninhada, e o macaco aos seus filhotes.
Que sucede então no seio desses conselhos onde reinam a inveja, a vaidade e
o interesse? Intenta, alguém, apoiar uma opinião razoável na história dos tempos
passados, ou nos costumes dos outros países? Os outros se mostram surpresos e
transtornados; e com o amor próprio alarmado como se fossem perder a
reputação de sábios e passar por imbecis. Eles quebram a cabeça até encontrar
um argumento contraditório, e, se a memória e a lógica lhes minguam,
entrincheiram-se neste lugar comum: Nossos pais assim pensaram e assim
fizeram; ah! queira Deus que igualemos a sabedoria de nossos pais! Depois se
assentam, pavoneando-se, como se acabassem de pronunciar um oráculo. Dir-seia,
ao ouvi-los, que a sociedade vai perecer se surgir um homem mais sábio que
os seus antepassados. Enquanto isso, permaneçamos indiferentes, deixando
subsistir as boas instituições que eles nos legaram; e quando surge um
melhoramento novo agarramo-nos à antigüidade para não acompanhar o
progresso. Vi, em quase toda a parte, desses julgadores rabugentos, insensatos
ou presunçosos. Aconteceu-me uma vez na Inglaterra. -.
- Perdão, disse eu, então, a Rafael, estivestes também na Inglaterra?
- Sim, estive lá alguns meses, pouco depois da guerra civil dos ingleses
ocidentais contra o rei que terminou com uma horrorosa matança dos insurretos -
Nessa ocasião, recebi enormes obséquios do reverendíssimo padre João Morton,
cardeal-arcebispo de Cantuária e chanceler da Inglaterra.
Era um homem (dirijo-me unicamente a vós, meu caro Pedro, porque Morus
não necessita dessas informações), era um homem ainda mais venerável por seu
caráter e virtude do que por suas altas dignidades. Sua estatura mediana não se
curvava ao peso da idade; sua fisionomia, sem ser dura, impunha respeito; era de
trato fácil, mas severo e majestoso. Sentia prazer em experimentar os solicitantes
com apóstrofes por vezes um tanto rudes, embora nunca ofensivas, mostrando-se
encantado se percebia neles presença de espírito e respostas prontas, mas sem
impertinência. Esta prova o ajudava a inferir do mérito de cada qual e a classificálo,-
segundo a especialidade. Sua linguagem era pura e enérgica; sua ciência do
direito profunda, seu julgamento seleto, sua memória prodigiosa. Essas brilhantes
disposições naturais, ele as tinha ainda desenvolvido pelo exercício e pelo estudo.
O rei fazia grande caso de seus conselhos e o considerava como um dos mais
firmes esteios do Estado - Levado muito jovem do colégio para a corte, envolvido
toda a vida nos acontecimentos mais graves, tangido, sem descanso, pelo mar
tempestuoso do destino, adquirira, em meio de perigos sempre renovados, uma
consumada prudência, um conhecimento tão profundo das coisas que, por assim
dizer, com ele próprio se identificava.
O acaso me fez encontrar um dia, à mesa desse prelado, um leigo reputadocomo douto legista - Este homem, não sei a que propósito, se pôs a cumular de
louvores a rigorosa justiça exercida contra os ladrões. Narrava gostosamente
como eles eram enforcados, aqui e ali, às vintenas, na mesma forca.
Apesar disso, acrescentava, vejam que fatalidade! Mal escapam da forca dois
ou três desses bandidos, e, no entanto, na Inglaterra, eles formigam por toda parte
!
Com a liberdade de palavra que gozava na casa do cardeal, disse eu, então:
Nada disso devia surpreender-vos. Neste caso a morte é uma pena injusta e
inútil; é bastante cruel para punir o roubo, mas bastante fraca para impedi-lo. O
simples roubo não merece a forca, e o mais horrível suplício não impedirá de
roubar o que não dispõe de outro meio para não morrer de fome. Nisto, a justiça
de Inglaterra e de muitos outros países se assemelha aos mestres que espancam
os alunos em lugar de instruí-los. Fazeis sofrer aos ladrões pavorosos tormentos;
não seria melhor garantir a existência a todos os membros da sociedade, a fim de
que ninguém se visse na necessidade de roubar, primeiro, e de morrer, depois?
- A sociedade previu o fenômeno, replicou o meu legista; a indústria, a
agricultura oferecem ao povo inúmeros meios de existência; existem, porém, seres
que preferem o crime ao trabalho.
- Era aí mesmo onde eu vos esperava, respondi. Não falarei dos que voltam
das guerras civis ou estrangeiras com o corpo mutilado. Quantos soldados,
entretanto, na batalha de Cornualha, ou na campanha de França, perderam um ou
vários membros a serviço do rei e da pátria! Esses infelizes tornaram-se fracos
demais para exercer o seu antigo ofício e velhos demais para aprender um novo.
Mas deixemos isso, as guerras só se reacendem a longos intervalos. Olhemos o
que se passa cada dia ao redor de nós. A principal causa da miséria pública reside
no número excessivo de nobres, zangões ociosos, que se nutrem do suor e do
trabalho de outrem e que, para aumentar seus rendimentos, mandam cultivar suas
terras, escorchando os rendeiros até à carne viva. Não conhecem outra economia.
Mas, tratando-se, ao contrário, de comprar um prazer, são pródigos, então, até à
loucura e à mendicidade. E não menos funesto é o fato de arrastarem consigo
uma turba de lacaios e mandriões sem estado e incapazes de ganhar a vida.
Caiam doentes esses lacaios, ou venha o seu patrão a morrer, e são jogados
no olho da rua; porque é preferível nutri-los para não fazer nada, do que alimentálos
enfermos; muitas vezes o herdeiro do defunto não está em condições de
manter a domesticidade paterna.
Eis aí pessoas expostas a morrer de fome se não têm o ânimo de roubar.
Terão eles,, na realidade, outras possibilidades? Procurando emprego gastam a
saúde e as roupas; e quando se tornam descorados pelas moléstias e cobertos de
farrapos, os nobres lhes têm horror, desprezando os seus serviços. Os
camponeses mesmo não os querem empregar. Os camponeses sabem que um
homem criado molemente na ociosidade e nos prazeres, habituado a trazer a
cimitarra e o broquel, a olhar superiormente os vizinhos e a desprezar todo
mundo; os, camponeses sabem que um tal homem não é apto a manejar a pá e a
enxada, a trabalhar, fielmente, por um salário insignificante e uma parca
alimentação, a serviço de um pobre lavrador.
Sobre esse ponto meu antagonista respondeu:
- É precisamente essa espécie de gente que o Estado deve manter e
Postado por
Mony Duraes : )
às
10:14
0
comentários
compreendido pela órbita do sol, não viram senão vastas solidões eternamente
devoradas por um céu de fogo. Ai, tudo os aturdia de horror e espanto. A terra
inculta tinha apenas como habitantes os animais mais ferozes, os reptis mais
terríveis, ou homens mais selvagens que os animais. Afastando-se do Equador, a
natureza se abrandava pouco a pouco; o calor é menos abrasador, a terra se
cobre de uma ridente verdura e os animais são menos selvagens. Mais longe
ainda, aparecem povos, cidades, povoações, em que se faz um comércio ativo por
terra e por mar, não somente no interior e com as fronteiras, mas entre nações
muito distantes.
Estas descobertas inflamavam o ardor de Rafael e de seus companheiros. E o
que alimentava essa paixão pelas viagens era o fato de serem admitidos sem
dificuldade no primeiro navio a partir, qualquer que fosse o seu destino.
As primeiras embarcações que viram eram chatas, as velas formadas de vimes
entrelaçados ou de fo1has de papiros, e algumas de couro. Em seguida,
encontraram embarcações terminadas em ponta, as velas feitas de cánamo; e
finalmente embarcações inteiramente semelhantes às nossas, e hábeis nautas
conhecendo muito bem o céu e o mar, mas sem nenhuma idéia da bússola.
Esses bons homens ficaram pasmados de admiração e cheios do mais vivo
reconhecimento, quando nossos castelhanos lhes mostraram uma agulha
imantada. Antes, era tremendo que se aventuravam ao mar, e, ainda assim,
atreviam-se a navegar apenas no verão. Hoje, bússola em mão, arrostam os
ventos e o inverno mais confiados do que seguros; pois, se não tomam cuidado,
essa bela invenção que parecia dever trazer-lhes tantos benefícios, poderá
transformar-se, por sua imprudência, em uma fonte de males.
Seria muito extenso se relatasse, aqui, tudo o que Rafael viu em suas viagens.
Aliás, não é essa a finalidade desta obra. Completarei talvez a sua narrativa num
outro livro em que darei detalhes, principalmente, dos hábitos, costumes e sábias
instituições dos povos civilizados, que freqüentou Rafael.
Sobre essas graves questões nós o importunamos com perguntas
intermináveis, e ele consentia, prazeirosamente, em satisfazer a nossa
curiosidade. Nós nada lhe perguntamos sobre esses monstros famosos que já
perderam o mérito da novidade: Cila (1), Celenos, Lestrigões, comedores de gente,
e outras hárpias da mesma espécie que existem em quase toda parte. O que é
raro, é uma sociedade sã e sabiamente organizada.
Para dizer verdade, Rafael notou entre esses novos povos instituições tão ruins
quanto as nossas, mas, observou também um grande número de leis capazes de
esclarecer, de regenerar as cidades, nações e reinos da velha Europa.
Todas essas coisas, repito-o, serão objeto de uma outra obra. Nesta, relatarei
apenas o que Rafael nos contou dos costumes e instituições do povo utopiano.
Antes, quero mostrar ao leitor de que maneira a conversa foi levada para este
terreno:
Rafael entremeava a sua narrativa com as reflexões mais profundas.
Examinando cada forma de governo, analisava, com uma sagacidade
maravilhosa, o que há de bom e verdadeiro numa, de mau e de falso noutra. Ao
ouvi-lo discorrer tão sabiamente sobre as instituições e os costumes dos
diferentes povos, era de pensar-se que vivera toda a vida nos lugares por onde
apenas passara. Pedro não pode conter a sua admiração.
Na verdade, disse, meu caro Rafael, espanto-me que não vos tivésseis posto a
serviço de algum rei. Certamente não haveria um só que não encontrasse em vós
utilidade e satisfação. Encheríeis de encanto os seus lazeres com o vosso
conhecimento universal das coisas e dos homens, e os incontáveis exemplos, que
poderíeis citar, proporcionar-lhe-iam um sólido ensinamento e conselhos
preciosos. Faríeis, ao mesmo tempo, uma brilhante fortuna para vós e os vossos.
- Eu pouco me inquieto com a sorte dos meus, retomou Hitiodeu. Creio ter
cumprido sofrivelmente os meus deveres para com eles. Os outros homens só
abrem mão de seus bens já velhos e na agonia, e é ainda chorando, que
renunciam ao que suas mãos desfalecentes não mais podem reter. Eu, cheio de
saúde e juventude, tudo dei aos meus parentes e amigos. - Eles não se queixarão,
espero, do meu egoísmo; não exigirão que, para cumulá-los de ouro, eu me faça
escravo de um rei.
- Entendamo-nos, disse Pedro, a minha intenção não foi a de que servísseis
um príncipe como lacaio e sim como ministro.
- Os príncipes, meu amigo, põem nisto pouca diferença; e, entre estas duas
palavras latinas servire e inservire, vêm apenas uma sílaba a mais, ou a menos.
- Chamai a coisa como quiserdes, respondeu Pedro; é o melhor meio de ser útil
ao público, aos indivíduos, e de tornar mais feliz a própria situação.
- Mais feliz, dizeis! mas, como aquilo que repugna ao meu sentimento, ao meu
caráter, poderia fazer minha felicidade? Presentemente sou livre, vivo como quero,
e duvido que muitos dos que vestem a púrpura possam dizer o mesmo. Muita
gente ambiciona os favores do trono; os reis não sentirão falta, se eu e dois ou
três da minha têmpera não nos encontrarmos entre os cortesãos.
Então falei assim:
É evidente, Rafael, que não procurais riquezas nem poder, e não tenho menos
admiração e estima por um homem como vós, do que por aquele que está à frente
de um império. Parece-me, entretanto, que seria digno de um espírito tão
generoso, tão filósofo, como o vosso, aplicar todos os seus talentos na direção
dos negócios públicos, embora houvesse que comprometer o seu bem estar
pessoal; ora, a maneira de o fazer com mais proveito, é ainda a de entrar para o
conselho de algum grande príncipe; estou certo de que a vossa boca não se abrirá
jamais, senão para a virtude e para a verdade. Vós o sabeis, o príncipe é a fonte
de onde o bem e o mal jorram, como uma torrente, sobre o povo; e possuís tanta
ciência e tantos talentos que, embora não tivésseis o hábito dos negócios, daríeis,
mesmo assim, um excelente ministro para o rei mais ignorante.
- Incidis num duplo erro, caro Morus, replicou Rafael; e não só quanto ao fato
em si como quanto à pessoa; estou longe de ter a capacidade que me atribuis; e
mesmo que a tivesse cem vezes maior, o sacrifício de meu sossego seria inútil à
causa pública.
Em primeiro lugar, os príncipes cuidam somente da guerra (arte que me é
desconhecida e que não tenho nenhum desejo de conhecer). Eles desprezam as
artes benfazejas da paz. Trate-se de conquistar novos reinados, e todos os meios
lhes parecem bons; o sagrado e o profano, o crime e o sangue, não os detêm. Em
compensação, ocupam-se muito pouco de bem administrar os Estados
submetidos à sua dominação.
Quanto aos conselhos dos reis, eis aproximadamente a sua composição:
Postado por
Mony Duraes : )
às
10:12
0
comentários
A UTOPIA
DISCURSO DO MUITO EXCELENTE HOMEM RAFAEL HITLODEU
SOBRE A MELHOR CONSTITUIÇÃO DE UMA REPÚBLICA PELO
ILUSTRE THOMAS MORUS VISCONDE E CIDADÃO DE LONDRES
NOBRE CIDADE DA INGLATERRA
LIVRO PRIMEIRO
O invencível rei da Inglaterra, Henrique, oitavo do nome, príncipe de um gênio
raro e superior, teve, não faz muito tempo, uma querela de certa importância com
o sereníssimo Carlos, príncipe de Castela. Eu fui, então, enviado às Flandres,
como parlamentar, com a missão de tratar e resolver essa questão.
Tinha por companheiro e colega, o incomparável Cuthbert Tunstall, a quem o
rei confiara a chancela do arcebispado de Cantuária, com os aplausos de todos.
Nada direi, aqui, em seu louvor. Não por temer que se acuse a minha amizade de
adulação; porém, a sua doutrina e as suas virtudes estão acima dos meus elogios,
e sua reputação é tão brilhante que celebrar o seu mérito seria, como diz o
provérbio, chover no molhado.
Encontramos em Bruges, lugar fixado para a conferência, os delegados do
príncipe Carlos, todos personagens distintíssimos. O governador de Bruges era o
chefe e o cabeça dessa deputação, e Jorge de Tomásia, preboste de Mont-
Cassel, era a boca e o coração. Este homem, que deve sua eloqüência, menos
ainda à arte que à natureza, passava por um dos mais sábios jurisconsultos em
questões de Estado; e sua capacidade pessoal; aliada a longa prática dos
negócios, fazia dele um habilíssimo diplomata.
A conferência já realizara duas sessões e não pudera ainda concordar sobre
muitos artigos. Os enviados de Espanha despediram-se, então de nós, para ir a
Bruxelas consultar o príncipe. Aproveitei esse lazer e rendí-me a Antuérpia.
Durante a minha estada nesta cidade conheci muita gente; mas nenhuma
relação me foi mais agradável que a de Pedro Gil, antuerpiense de uma grande
integridade. Este moço, que desfruta de honrosa posição entre os seus
concidadãos, merece, realmente, uma das mais elevadas, já pelos seus
conhecimentos, já por sua moralidade, pois, a erudição que possui iguala à
qualidade do caráter. Sua alma está aberta a todos; mas nutre por seus amigos
tanta benevolência, amor, fidelidade e devotamento que poder-se-ia qualificá-lo,
muito justamente, como o perfeito modelo da amizade. Modesto e sem
fingimentos, simples e prudente, sabe falar com espírito, e seu gracejo não é
nunca uma injúria. Em suma, a intimidade que se estabeleceu entre nós foi tão
cheia de prazer e encanto, que suavizou em mim a saudade da pátria, do lar, de
minha mulher, de meus filhos, e acalmou as inquietações de uma ausência de
mais de quatro meses.
Um dia, estava eu na Notre-Dame, igreja da grande devoção do povo, e uma
das obras primas mais belas da arquitetura; depois de ter assistido ao ofício
divino, dispunha-me a voltar para o hotel, quando, de repente, dou de cara com
Pedro Gil, que conversava com um estrangeiro já idoso. A tez trigueira do
desconhecido, sua longa barba, a capa, quase a cair-lhe, negligentemente, sua
aparência e aspecto revelavam um patrão de navio.
Logo que Pedro deu comigo, aproximou-se, e, saudando-me, afastou-se um
pouco de seu interlocutor que iniciava uma resposta, e, a propósito deste, me
disse:
Vede este homem, pois bem, ia levá-lo diretamente à vossa casa.
- Meu amigo, respondi-lhe, por vossa causa, ele seria benvindo.
- É mesmo por causa dele, replicou Pedro, se o conhecêsseis. Não há sobre a
terra outro ser vivo que possa vos dar detalhes tão completos e tão interessantes
sobre os homens e os países desconhecidos. Ora, eu sei que sois
excessivamente curioso por essa espécie de notícias.
- Não tinha adivinhado muito mal, disse eu, então, pois que, logo à primeira
vista, tomei o desconhecido por um patrão de navio.
- Enganai-vos estranhamente; ele navegou, é certo; mas não como Palinuro.
Navegou como Ulisses, e até mesmo como Platão. Escutai sua história:
Rafael Hitiodeu (o primeiro destes nomes é o de sua família) conhece bastante
bem o latim e domina o grego com perfeição. O estudo da filosofia ao qual se
devotou exclusivamente, fe-lo cultivar a língua de Atenas de preferência à de
Roma. E, por isso, sobre assuntos de alguma importância, só vos citará
passagens de Sêneca e de Cícero. Portugal é o seu país. Jovem ainda,
abandonou seu cabedal aos irmãos; e, devorado pela paixão de correr mundo,
amarrou-se à pessoa e à fortuna de Américo Vespúcio. Não deixou por um só
instante este grande navegador, durante as três das quatro últimas viagens, cuja
narrativa se lê hoje em todo o mundo. Porém, não voltou para a Europa com ele.
Américo, cedendo aos seus insistentes pedidos, lhe concedeu fazer parte dos
VINTE E QUATRO ficaram nos confins da NOVA-CASTELA. Foi, então, conforme
seu desejo, largado nessa margem; pois, o nosso homem não teme a morte em
terra estrangeira; pouco se lhe dá a honra de apodrecer numa sepultura; e gosta
de repetir este apotegma: O CADÁVER SEM SEPULTURA TEM O CÉU POR
MORTALHA; HÁ POR TODA A PARTE CAMINHO PARA CHEGAR A DEUS. Este
caráter aventureiro podia ter-lhe sido fatal, se a Providência divina não o tivesse
protegido. Como quer que fosse, depois da partida de Vespúcio ele percorreu,
com cinco castelhanos, uma multidão de países, desembarcou em Taprobana,
como por milagre, e. daí chegou em Calicut, onde encontrou navios portugueses
que o reconduziram ao seu país, contra todas as expectativas.
Assim que Pedro acabou essa narrativa, agradeci-lhe o empenho e solicitude
em me fazer desfrutar conversação com homem tão extraordinário; depois,
abordei Rafael, e, após as saudações e cortesias habituais num primeiro encontro,
levei-o à minha casa com Pedro Gil. Aí, sentados no jardim, sobre um banco de
relva, a conversa começou.
Rafael me contou como, após a partida de Vespúcio, ele e seus companheiros,
com afabilidade e bons serviços, grangearam a amizade dos indígenas, e como
viveram com eles em paz e na melhor harmonia. Houve mesmo um príncipe, cujo
pais e nome me escapam, que lhes deu proteção a mais afetuosa. Sua
generosidade os proveu de barcos, carros e tudo mais de que necessitavam para
continuar a viagem, Um guia fiel teve ordem de acompanhá-los e apresentá-los
aos príncipes com excelentes recomendações.
Depois de vários dias de marcha descobriram burgos e cidades bem
administradas, nações inúmeras e Estados poderosos.
No Equador, acrescentava Hitiodeu, de uma parte e de outra, no espaço
Postado por
Mony Duraes : )
às
10:02
0
comentários
Cena III
O mesmo. Um cemitério, com o túmulo dos Capuletos. Entram Páris e seu pajem, trazendo flores e uma tocha.
PÁRIS — Dá-me a tocha, rapaz, e fica à parte. Não, apaga-a; não quero que me vejam. Deita-te ali embaixo do cipreste e o ouvido encosta junto do oco solo. Assim, não pisará o cemitério nenhum pé, sendo o solo pouco firme, frouxo e escavado pelas sepulturas, sem que o percebas. Deves assobiar-me, em sinal de que vem chegando gente. Dá-me essas flores. Faze o que te disse.
PAJEM (à parte) — Sinto um pouco de medo, por sozinho me ver no cemitério. Mas que seja. (Sai.)
PÁRIS — Minha querida flor, espalho flores em teu leito – Oh! de pedras é o dossel! – De água à noite trarei irrigadores ou o pranto amargo de meu fado cruel. Os funerais de nossa desventura flores far-te-ão nascer na sepultura. (O pajem assobia.) O menino me avisa que vem gente. Que pé maldito pisa estes caminhos durante a noite, para perturbar-me nos funerais e ritos do amor puro? Como! Traz uma tocha? Noite, esconde-me durante alguns instantes. (Retira-se.)
(Entram Romeu e Baltasar, com uma tocha, enxadão, etc.)
ROMEU — Dá-me o ferro e o enxadão. Toma esta carta. Logo que amanhecer tens de entregá-la ao meu senhor e pai. Agora, a tocha. Por tua vida te exorto: embora vejas e ouças seja o que for, fica a de parte, sem vires perturbar-me. Se ora desço a este leito de morte, em parte é apenas para o rosto ainda ver de minha esposa, mas, sobretudo, para de seu dedo de morta o anel tirar muito precioso que necessito para um caso extremo. Por isso, parte logo. Mas se, acaso só por curiosidade retornares para espiar o que fazer pretendo: pelo céu! quebrar-te-ei todas as juntas e encherei o faminto cemitério com partes de teu corpo. Meus intuitos a esta hora são selvagens, mais violentos e inexoráveis ainda do que o tigre faminto e o mar revolto.
BALTASAR — Vou-me embora, senhor, sem vos atrapalhar em nada.
ROMEU — Assim, me provarás tua amizade. Toma isto para ti; vive e prospera. E agora, bom amigo, passa bem.
BALTASAR (à parte) — Mas apesar de tudo, vou esconder-me por aqui mesmo. Não confio nele e temo seu olhar. (Retira-se.)
ROMEU — Matriz da morte. detestável maxila, que estás cheia da mais cara partícula da terra: assim te forço os maxilares podres (Abre a sepultura.) e te obrigo a aceitar mais alimento.
PÁRIS — Este é o Montecchio altivo, que banido foi por ter morto o primo de Julieta, por cuja dor a morrer veio aquela criatura incomparável. Ei-lo agora que vem para fazer nesses cadáveres alguma vilania oprobriosa. Vou prendê-lo. (Adianta-se.) Interrompe teu maldito trabalho, vil Montecchio! Como! É crível que a vingança vá além da própria morte? Estás preso, banido desprezível. Obedece e me segue; morrer deves.
ROMEU — Devo morrer, é fato; foi para isso que vim aqui. Mancebo generoso, tentar não queiras um desesperado. Foge daqui e deixa-me; reflete nestes mortos e que eles te amedrontem. Suplico-te, mancebo, não me faças arcar com o peso de mais um pecado, pois aqui vim contra mim próprio armado. Não fiques; vai-te e dize no porvir que foi um louco que te fez fugir.
PÁRIS — Importância não dou a teu pedido e prendo-te por seres criminoso.
ROMEU — Queres me provocar? Então defende-te.
(Batem-se.)
PAJEM — Batem-se, oh Deus! Vou já chamar a guarda. (Sai.)
PÁRIS (cai) — Estou morto! Se fores compassivo, abre a tumba e me deita com Julieta. (Morre.)
ROMEU — Em verdade o farei. Porém vejamos estas feições: o nobre conde Páris, parente de Mercúcio! Que me disse meu criado, quando juntos caminhávamos para cá e minha alma atormentada não escutava nada? Não me disse que Páris e Julieta iam casar-se? Não foi assim, ou terá sido sonho? Ou então, por estar louco, pensei nisso, quando ele me falava de Julieta? Dá-me essa mão, ó tu que estás inscrito, como eu também, no livro do infortúnio. Vou depor-te num túmulo glorioso. Túmulo? Não, mancebo assassinado; uma lanterna, pois Julieta se acha deitada aí e sua formosura faz desta abóbada uma sala régia, transbordante de luz. Repousa, morto, por um morto enterrado. (Coloca no túmulo o corpo de Páris.) Quantas vezes, no ponto de morrer, ledos se mostram os homens? É o clarão da despedida, dizem quantos o doente estão velando. Oh! poderei chamar clarão a esta hora? Ó meu amor! querida esposa! A morte que sugou todo o mel de teu doce hálito poder não teve em tua formosura. Não; conquistada ainda não foste; a insígnia da beleza em teus lábios e nas faces ainda está carmesim, não tendo feito progresso o pálido pendão da morte. Tebaldo, jazes num lençol de sangue? Oh! que maior favor fazer-te posso do que com esta mesma mão que a tua mocidade cortou, destruir, agora, também, a do que foi teu inimigo? Primo, perdoa-me. Ah! querida esposa, por que ainda és tão formosa? Pensar devo que a morte insubstancial se apaixonasse de ti e que esse monstro magro e horrível para amante nas trevas te conserve? Com medo disso, ficarei contigo, sem nunca mais deixar os aposentos da tenebrosa noite; aqui desejo permanecer, com os vermes, teus serventes. Aqui, sim, aqui mesmo fixar quero meu eterno repouso, e desta carne lassa do mundo sacudir o jugo das estrelas funestas. Olhos, vede mais uma vez; é a última. Um abraço permiti-vos também, ó braços! Lábios, que sois a porta do hálito, com um beijo legítimo selai este contrato sempiterno com a morte exorbitante. Vem, condutor amargo! Vem, meu guia de gosto repugnante! Ó tu, piloto desesperado! lança de um só golpe contra a rocha escarpada teu barquinho tão cansado da viagem trabalhosa. Eis para meu amor. (Bebe.) Ó boticário veraz e honesto! tua droga é rápida. Deste modo, com um beijo, deixo a vida. (Morre.)
(Entra pelo outro lado do cemitério frei Lourenço com lanterna, alavanca e uma pá.)
FREI LOURENÇO — São Francisco me ajude! Quantas vezes esta noite meus pés enfraquecidos tropeçaram em túmulos? Quem vive?
BALTASAR — É um amigo, que muito vos conhece.
FREI LOURENÇO — Deus te abençoe. Querido amigo, dize-me que tocha é aquela ali que embalde a sua luz aos vermes empresta e aos crânios cegos? Ao que parece, está no monumento dos Capuletos.
BALTASAR — Sim, é lá, santo homem. Lá se acha meu senhor, de quem gostais.
FREI LOURENÇO — Quem é ele?
BALTASAR — Romeu.
FREI LOURENÇO — Há quanto tempo está ele lá?
BALTASAR — Há cerca de meia hora.
FREI LOURENÇO — Vem comigo até o túmulo.
BALTASAR — Não ouso fazer isso, senhor; meu amo pensa que eu fui embora e me ameaçou de morte se eu ficasse a espreitá-lo.
FREI LOURENÇO — Então espera; irei só; já começo a sentir medo. Oh! receio algum caso desastrado.
BALTASAR — Tendo dormido sob aquele teixo, vi em sonhos, parece, que meu amo se batia com outro, tendo-o morto.
FREI LOURENÇO (adiantando-se) — Romeu! Romeu! Oh dor! Que sangue é este que mancha a entrada pétrea do sepulcro? Que quererão dizer estas espadas sem dono, a estilar sangue e descoradas, neste lugar de paz? (Entra no túmulo.) Romeu! Oh, pálido! Quem mais? Quê! Também Páris? E encharcado de sangue? Oh! que hora dura teve culpa deste acontecimento lamentável? A senhora se mexe.
(Julieta desperta.)
JULIETA — Ó meu bom frade, onde está meu senhor? Sei muito bem onde eu devia estar, onde me encontro. Mas onde está Romeu?
(Barulho dentro.)
FREI LOURENÇO — Ouço bulha. Saí, senhora, desse ninho de morte, de contágio e sono contrário à natureza. Uma potência por demais forte para que a vençamos frustrou nossos intentos. Vem, bem logo! Teu marido em teu seio se acha morto; Páris também. Vem logo; vou levar-te para um convento de piedosas freiras. Não percas tempo com perguntas; vamos; a guarda está chegando. Vem, bondosa Julieta; não me atrevo a esperar mais.
JULIETA — Vai, que eu daqui não sairei jamais. (Sai frei Lourenço.) Que vejo aqui? Um copo bem fechado na mão de meu amor? Certo: veneno foi seu fim prematuro. Oh! que sovina! Bebeste tudo, sem que me deixasses uma só gota amiga, para alivio. Vou beijar esses lábios; é possível que algum veneno ainda se ache neles, para me dar alento e dar a morte. (Beija-o.) Teus lábios estão quentes.
PRIMEIRO GUARDA (dentro) — Vamos, guia-me, rapaz; qual é o caminho?
JULIETA — Ouço barulho. Preciso andar depressa. Oh! sê bem-vindo, punhal! (Apodera-se do punhal de Romeu.) Tua bainha é aqui. Repousa ai bem quieto e deixa-me morrer. (Cai sobre o corpo de Romeu e morre.)
(Entram os homens da guarda, com o pajem de Páris.)
PAJEM — É ali o ponto, onde está acesa a tocha.
PRIMEIRO GUARDA — Há sangue pelo chão. Passai revista em todo o cemitério, e se encontrardes alguém, prendei-o. (Saem alguns guardas.) Oh vista dolorosa! Aqui se encontra, assassinado, o conde, e Julieta a sangrar de novo e morta recentemente, que há dois dias fora posta neste sepulcro. Ide depressa chamar os Capuletos e os Montecchios. Na busca prossegui vós outros. (Saem outros guardas.) Vemos o terreno de tantas desventuras; mas o terreno verdadeiro destas desgraças lastimáveis, só podemos ficar sabendo após maior estudo.
(Voltam alguns guardas com Baltasar.)
SEGUNDO GUARDA — É o criado de Romeu; fomos achá-lo dentro do cemitério.
PRIMEIRO GUARDA — Segurai-o com bem cautela, até que chegue o príncipe.
(Volta outro guarda, com frei Lourenço.)
TERCEIRO GUARDA — Aqui está um frade que suspira e chora, sem parar de tremer. Nas mãos trazia uma pá e este ferro, e deste lado vinha do cemitério.
PRIMEIRO GUARDA — São indícios suspeitos; segurai também o frade.
(Entra o príncipe com seu séqüito.)
PRÍNCIPE — Que desgraça se deu aqui tão cedo, para tirar assim nossa pessoa de seu sono habitual?
(Entram Capuleto, a senhora Capuleto e outros.)
CAPULETO — Por que esses gritos por toda parte? Que houve?
SENHORA CAPULETO — Pelas praças o nome de Romeu o povo grita; outros, o de Julieta; outros, de Páris, correndo com clamores toda a gente para o lado do nosso monumento.
PRÍNCIPE — Que horror é esse que nos fere a vista?
PRIMEIRO GUARDA — Príncipe, aqui está, morto o conde Páris; morto, Romeu; e a que antes falecera, Julieta, quente está e outra vez morta.
PRÍNCIPE — Investigai por outra parte como se deu este horroroso morticínio.
PRIMEIRO GUARDA — Aqui está um frade e aqui, também, o criado de Romeu; instrumentos carregavam para arrombar o túmulo dos mortos.
CAPULETO — Oh céus! Mulher, vê nossa filha: sangra! Enganou-se o punhal; sua bainha se acha vazia ao lado de Montecchio. Está mal colocado em nossa filha.
SENHORA CAPULETO — Ai de mim! Este quadro só de mortes é como um toque fúnebre que a minha velhice chama para a sepultura.
(Entram Montecchio e outros.)
PRÍNCIPE — Vem cá, Montecchio; cedo te levantas para mais cedo ver baixar teu filho.
MONTECCHIO — O meu senhor! durante a noite a minha senhora faleceu; cortou-lhe o fôlego a tristeza do exílio de meu filho. Que mais conspira contra minha idade?
PRÍNCIPE — Olha e verás.
MONTECCHIO — O néscio! néscio! que costume é esse de, antes do pai, entrar na sepultura?
PRÍNCIPE — Sela a boca do ultraje por um pouco, até que este mistério esclareçamos e fiquemos sabendo sua origem e verdadeiro curso. Depois disso, comandante serei de vossas dores e conduzir-vos-ei à própria morte. Até lá sossegai e que a desgraça se submeta à paciência. Apresentai-nos as pessoas suspeitas.
FREI LOURENÇO — Dos presentes sou eu o mais suspeito, muito embora seja o que menos pode fazer algo, visto acusarem-me o lugar e a hora. Eis-me a acusar-me, a um tempo, e a defender-me, num só momento condenado e absolto.
PRÍNCIPE — Dize então logo o que sobre isto sabes.
FREI LOURENÇO — Serei breve, porque meu curto fôlego não é mais longo do que história insípida. Romeu, aqui sem vida, era marido desta Julieta, assim como ela, morta também aqui, era a fiel consorte deste Romeu. Fui eu que os desposei. O dia dessas núpcias clandestinas foi o do final juízo de Tebaldo, cuja morte baniu de nosso burgo o recente marido. Era por causa dele, não por Tebaldo, que Julieta se vinha definhando. Vós, com o fito de expulsar-lhe do peito essa tristeza, ao conde a prometestes, tencionando casá-la a contragosto. Procurou-me desvairada e pediu-me que inventasse qualquer recurso que a livrasse desse segundo casamento, ou então lá mesmo, sem vacilar, poria termo à vida. Dei-lhe então – por minha arte aconselhado – um estupefaciente que sobre ela o efeito produziu por mim visado, a aparência emprestando-lhe da morte. A Romeu escrevi nesse entrementes, para que ele aqui viesse nesta noite de horrores ajudar-me a retirá-la de seu falso sepulcro, pois o efeito do veneno nessa hora cessaria. Mas a pessoa que levou a carta, Frei João, detido foi por acidente, tendo-ma devolvido ontem à noite. Então, sozinho, na hora prefixada para ela despertar, vim retirá-la do túmulo dos seus, a idéia tendo de escondê-la na minha pobre cela, até chamar Romeu. Aqui chegando, porém – alguns minutos antes da hora de Julieta acordar – encontrei mortos antes de tempo o nobre conde Páris e o fiel Romeu. Julieta despertou. Roguei-lhe que fugisse e que aceitasse com paciência o que o céu lhe destinara. Nisso, um barulho me afastou do túmulo, sem que, em seu desespero, ela comigo se retirasse, tendo, ao que parece, posto termo à existência. Sei só isso. A ama se achava a par do casamento. Se algo nisto falhou por minha culpa, que minha velha vida, algumas horas antes do tempo, o expie em sacrifício, sob o rigor da mais severa pena.
PRÍNCIPE — Por um santo homem sempre te tivemos. E o criado de Romeu, que nos informa?
BALTASAR — Fui portador a meu senhor da nova da morte de Julieta. Ele, apressado, veio de Mântua para cá, para este mesmo túmulo, tendo-me ordenado que esta carta a seu pai desse bem cedo. Ao penetrar no túmulo, ameaçou-me de morte se eu não fosse logo embora e não o deixasse aqui.
PRÍNCIPE — Dá-me essa carta; quero ver o que diz. E onde está o pajem do conde Páris, que chamou a guarda? Que fazia teu amo aqui, pequeno?
PAJEM — Veio com flores para a sepultura de sua noiva, tendo-me ordenado que ficasse de parte. Obedeci-lhe. Depois, com luz, chegou um homem, para violar a sepultura, tendo logo sacado meu senhor contra ele a espada. Saí correndo e fui chamar a guarda.
PRÍNCIPE — Confirma a carta o que nos disse o monge: como o amor decorreu, a falsa nova da morte dela. Aqui ele nos conta que veneno comprou de um boticário e que vinha morrer neste sepulcro, para ficar ao lado de Julieta. Onde se encontram esses inimigos? Capuleto! Montecchio! Vede como sobre vosso ódio a maldição caiu e como o céu vos mata as alegrias valendo-se do amor. Por minha parte, por ter condescendido com vós todos, dois parentes perdi. Fomos punidos.
CAPULETO — Dá-me tua irmão, irmão Montecchio; é o dote de minha filha. Mais, pedir não posso.
MONTECCHIO — Mas eu posso dar mais, pois hei de a estátua dela mandar fazer do mais puro ouro. Enquanto for Verona conhecida, nenhuma imagem terá tanto preço como a da fiel e mui veraz Julieta.
CAPULETO — Romeu fama também dará à cidade; vítimas são de nossa inimizade.
PRÍNCIPE — Esta manhã nos trouxe paz sombria: esconde o sol, de pesadume, o rosto. Ide; falai dos fatos deste dia; serei clemente, ou rijo, a contragosto, que há de viver de todos na memória de Romeu e Julieta a triste história.
(Saem.)
Postado por
Mony Duraes : )
às
07:47
0
comentários
Cena II
Verona. Cela de frei Lourenço. Entra frei João
FREI JOÃO — Santo irmão franciscano! Olá, irmão!
(Entra frei Lourenço.)
FREI LOURENÇO — A voz é de frei João. Deve ser ele. Ó tu que vens de Mântua, sê bem-vindo. Romeu que disse? Ou então, se o pensamento mandou escrito, dá-me sua carta.
FREI JOÃO — Fui procurar um frade de nossa ordem de pés descalços, que visita os doentes, para ir comigo a Mântua, mas os guardas da cidade, pensando que tivéssemos estado numa casa em que a infecciosa pestilência domina, as portas logo fecharam, não deixando que saíssemos. Desta arte minha pressa de ir a Mântua ficou parada.
FREI LOURENÇO — E quem levou a carta para Romeu?
FREI JOÃO — Não pude remetê-la – ei-la aqui outra vez – tentei, embalde, achar um portador para levá-la, tanto medo têm todos de infecção.
FREI LOURENÇO — Quanta falta de sorte! Por minha ordem, essa carta não é sem importância, mas de peso e conteúdo muito grave. O atraso pode ser de conseqüências muito sérias. Frei João, vai bem depressa buscar uma alavanca; estou na cela.
FREI JOÃO — Pois não, irmão; levá-la-ei já já. (Sai.)
FREI LOURENÇO — Agora tenho de ir sozinho ao túmulo. Dentro destas três horas vai a bela Julieta despertar; vai maldizer-me porque Romeu ficou sem ter notícias de quanto aconteceu. Mas para Mântua vou escrever de novo; em minha cela vou deixá-la escondida, até que possa Romeu chegar aqui. Pobre cadáver vivo, enterrado numa sepultura! (Sai.)
Postado por
Mony Duraes : )
às
07:46
0
comentários
ATO V
Cena I
Mântua. Uma rua. Entra Romeu.
ROMEU — Se eu tiver de dar crédito à verdade do sono aduladora, os sonhos dizem-me que está iminente alguma alegre nova. Em seu trono sentado está de leve o senhor do meu peito, e o dia todo com risonhas imagens um espírito desconhecido me ergue do chão duro. Sonhei que meu amor tinha chegado e me encontrara morto. Estranho sonho, que não destrói no morto o pensamento! E com beijos tal vida me insuflava que eu revivi e imperador tornei-me. Quão doce deve ser o amor possuído, se assim tão venturoso é sua sombra! (Entra Baltasar, de botas.) Notícias de Verona! Que acontece, Baltasar? Frei Lourenço mandou carta? E meu pai, está bem? Minha Julieta, como a deixaste? Torno a perguntar-te, nada irá mal, se bem ela estiver.
BALTASAR — Então ela está bem; nada está mal. Seu corpo está dormindo no sepulcro dos Capuletos e a imortal essência vive agora entre os anjos. Vi quando ela foi deposta na tumba da família. Perdoai-me por trazer-vos tais notícias; mas destes-me, senhor, essa incumbência.
ROMEU — É assim? Então, estrelas, desafio-vos! Sabes bem onde eu moro; vai buscar-me papel e tinta e aluga-me uns cavalos. Partirei esta noite.
BALTASAR — Revesti-vos de paciência, senhor, vos peço; tendes pálidas as feições e desvairadas, pressagiando desgraça.
ROMEU — Não; enganas-te. Vai logo e faze o que te disse há pouco. Não me mandou o monge alguma carta?
BALTASAR — Nenhuma, bom senhor.
ROMEU — Bem; não importa. Vai tratar logo de alugar cavalos; irei já para casa. (Sai Baltasar.) Bem, Julieta; deitar-me-ei ao teu lado ainda esta noite. Procuremos os meios... Ó desgraça! como rapidamente te intrometes nos pensamentos dos desesperados! Lembro-me de ter visto um boticário – mora aqui perto – não faz muito tempo, maltrapilho, de cenho carregado, a separar suas ervas. Rosto esquálido, tinha-o roído até aos ossos a miséria. Pendida via-se uma tartaruga em sua pobre loja, um crocodilo morto e empalhado, e muitas outras peles de peixes desconformes; pelas sujas prateleiras, uns montes miseráveis de caixinhas vazias, potes verdes, bexigas e sementes bolorentas, restos de fios, velhos pães de rosas, magramente espalhados para efeito. Vendo tanta miséria, a sós comigo observei que se alguém necessitasse algum dia veneno que, sob pena de morte agora não se vende em Mântua, ali vivia um desgraçado escravo que decerto o vendera. Oh! essa idéia veio muito antes da necessidade. Esse coitado vai vender-me a droga. Se não me engano, a casa é aqui defronte. Sendo feriado, a loja está fechada. Olá! oh!... Boticário!
(Entra o boticário.)
BOTICÁRIO — Quem me chama com tanta força?
ROMEU — Vem aqui, amigo. Vejo que és pobre; toma estes quarenta ducados, mas arranja-me uma dracma de veneno, mas droga tão violenta que tão veloz se espalhe pelas veias, que a pessoa cansada desta vida, bebendo-a, caia morta, e que do corpo o fôlego se aparte tão depressa como pólvora acesa, ao desprender-se do fatal ventre do canhão medonho.
BOTICÁRIO — Possuo esse veneno perigoso; porém as leis de Mântua morte certa cominam para quantos o venderem.
ROMEU — És tão nu e tão cheio de misérias, e a morte ainda receias? Tens a fome nas faces; as angústias e o infortúnio de fome em teu olhar estão morrendo; do dorso pendem-te a miséria e a ofensa. Não se te mostra amigo o mundo e, menos ainda, a lei do mundo. Em todo o mundo não há uma lei para deixar-te rico. Não sejas pobre, então; passa por cima da lei e toma isto.
BOTICÁRIO — Aceita a minha pobreza o que me dás, não a vontade.
ROMEU — Não a vontade, pago-te a pobreza.
BOTICÁRIO — Ponde isto em qualquer líquido; tomando-o, embora a resistência possuirdes de vinte homens, caireis de pronto morto.
ROMEU — Eis teu ouro, veneno mais nocivo para as almas dos homens, que mais crimes tem cometido neste mundo sujo, do que essas pobres drogas misturadas que não podes vender. Dei-te veneno; não tu a mim. Adeus. Compra alimento e engorda um pouco mais. Vamos, cordial, não veneno. Ao sepulcro vem comigo de Julieta, mostrar que és meu amigo.
(Saem.)
Postado por
Mony Duraes : )
às
07:46
0
comentários
Cena V
O mesmo. Quarto de Julieta.
(Entra a ama.)
AMA — Senhora, olá! Julieta! É quase certo que ainda esteja a dormir. Eh, ovelhinha! Então, senhora? Então? Que dorminhoca! Então, amor? Senhora! Estou chamando... Coraçãozinho! Noiva!... Como! Muda? Agora desforrais a vossa parte, dormindo uma semana; mas garanto-vos que na noite que vem o Conde Páris repouso não terá, porque repouso também não possais ter. Deus me perdoe. Santa Virgem e amém! Que sono calmo! Mas preciso acordá-la. Olá, senhora! Que o conde venha vos tirar da cama, e hei de vos espantar. Não falei certo? Como assim? Já vestistes toda a roupa, e outra vez a dormir? Vou despertá-la, Senhora! Olá!... Oh Deus!... Socorro! A patroa está morta!... Aqui!... Socorro! Oh dia triste! Assim nunca eu nascesse. Aqua vitae! Senhor! Senhora!... Acudam!..
(Entra a senhora Capuleto.)
SENHORA CAPULETO — Que barulheira é essa?
AMA — Oh dia triste!
SENHORA CAPULETO — Que aconteceu?
AMA — Olhai, senhora... Oh dia!
SENHORA CAPULETO — Oh! minha única filha! Minha filha! Reanima-te, olha para mim, ou deixa-me morrer também contigo. Aqui! Socorro! Vai chamar gente!
(Entra Capuleto.)
CAPULETO — Que vergonha! Trazei Julieta logo; o noivo já chegou.
AMA — Está sem vida, morta, sem vida! Oh dia desgraçado!
SENHORA CAPULETO — Oh que dia! Morreu! Morreu! Morreu!
CAPULETO — Deixai-me vê-la. Oh dor! Já está gelada. O sangue está parado; os membros, duros. Estes lábios e a vida há muito tempo separados já estão. A morte se acha sobre ela como geada mui precoce sobre a flor mais gentil de todo o campo.
AMA — Oh dia lamentável!
SENHORA CAPULETO — Oh tristeza!
CAPULETO — A morte que a tirou de mim com o fito de fazer-me gemer, a língua me ata, não me deixando pronunciar palavra.
(Entram frei Lourenço e Páris, com músicos.)
FREI LOURENÇO — A noiva já está pronta para a igreja?
CAPULETO — Sim, para ir para a igreja, sem que nunca possa de lá voltar. Ó filho, a morte, na véspera do dia de tuas núpcias, deitou-se com tua noiva; é minha herdeira; cortejou minha filha. Morrer quero, para levar à morte o que possuo: vida, bens; tudo é dela.
PÁRIS — Quis tanto ver a face deste dia, para enfim contemplar este espetáculo?
SENHORA CAPULETO — Dia infeliz, maldito, desgraçado! A hora mais triste que já viu o tempo em toda a sua peregrinação comprida e laboriosa. Uma só filha, uma só, pobre filha, e tão amada, para gozo e consolo um ser apenas, e a cruel morte arrancar-ma, assim, da vista
AMA — Oh dia triste! Oh dia triste! Oh dor! O dia mais escuro e lamentável que eu vi em toda. a vida. Oh dia triste! Oh dia odioso! Oh dia! Oh dia triste Nunca vi dia de tão densas trevas. Oh dia triste! Oh dia!
PÁRIS — Ludibriado, ofendido, separado desprezado, destruído... Morte odiosa, ludibriado por ti, por ti, cruel morte, arruinado de todo. Oh amor! Oh vida...! Não, vida não: amor na própria morte!
CAPULETO — Odiado, desprezado, desolado, martirizado, morto! Inconsolável tempo, por que motivo vieste agora matar, matar nossa solenidade? Oh filha! Filha, não: alma querida! Já não vives! morreste! Ah! minha filha já não vive e, com ela, sepultada vai ser minha alegria.
FREI LOURENÇO — Calma! peço-vos; a cura da desordem vir não pode da desorientação. Tal como vós, tinha o céu parte nesta bela criança. Agora o céu tem tudo, o que é, por certo, melhor para a donzela. Não vos fora possível subtrair da morte a parte que tínheis nela, mas o céu à dele vida eterna vai dar. O que queríeis era vê-la elevada; todo o vosso céu consistia justamente nisso. E agora a lastimais, vendo-a exaltada, tão acima das nuvens, no alto céu? Com vosso amor amais a vossa filha tão mal que vos mostrais desesperados por sabê-la tão bem? As bem casadas não são as que assim vivem muito tempo; mas bem casada está quem morre cedo. Interrompei o pranto; sobre o belo corpo espalhai bastante rosmaninho, e, tal como é de praxe, em suas vestes mais vistosas levai-o para a igreja. Embora chorar mande a natureza, ri a razão ao choro da tristeza.
CAPULETO — Tudo o que havia para o festival usado ora vai ser no funeral. Os instrumentos viram melancólicos sinos; nosso festim, jantar funéreo; nossos hinos solenes, puras nênias; as flores nupciais irão de enfeite servir para o cadáver, transmudando-se, assim, em seu contrário as coisas todas.
FREI LOURENÇO — Retirai-vos, senhor; acompanhai-o, minha senhora; e vós, conde, também. Que todos se preparem para o belo corpo levar à tumba. Porventura o céu vos pune por qualquer maldade; não o irriteis, pois essa é a sua vontade.
(Saem Capuleto, a senhora Capuleto, Páris e monge.)
PRIMEIRO MÚSICO — Por minha fé, podemos guardar as gaitas e ir embora.
AMA — Ah! meus homens, guardai-as, guardai-as, que isso é um caso doloroso!
PRIMEIRO MÚSICO — Oh! é certo; poderia ser melhor.
(Entra Pedro.)
PEDRO — Músicos! Olá! "Alegra-te, coração! Alegra-te, coração!" Se quereis que eu viva, tocai "Alegra-te coração!"
PRIMEIRO MÚSICO — Por que "Alegra-te, coração?"
PEDRO — Oh! músicos, porque meu próprio coração toca "O coração me pesa de tristeza". Oh! tocai uma litania alegre, para reconfortar-me.
SEGUNDO MÚSICO — Não, nada de litanias; não é hora de tocar música.
PEDRO — Então não quereis tocar?
MÚSICOS — Não.
PEDRO — Nesse caso vou tratar-vos como o mereceis.
PRIMEIRO MÚSICO — De que modo pretendes tratar-nos?
PEDRO — Não será com dinheiro, é claro; mas com pilhérias. Vou arranjar-vos um arranhador de rabeca.
PRIMEIRO MÚSICO — Nesse caso eu arranjarei para ti um servente de cozinheiro.
PEDRO — E eu vos atirarei na cabeça a faca do servente de cozinheiro. Eu sou assim; não levo semínimas para casa. Vou fazer de vós ré e fá. Tomastes nota?
PRIMEIRO MÚSICO — Se de nós fizerdes ré e fá, viraremos notas.
SEGUNDO MÚSICO — Por obséquio, por obséquio: esconde essa faca e mostra o espírito.
PEDRO — Tomai cuidado com meu espirito! Vou malhar-vos com meu espírito de aço e embainhar minha faca. Respondei-me como homens: Quando a dor e a tristeza libertinas me oprimem a cabeça e o coração, a música de notas argentinas... Por que "notas argentinas"? Por que "música de notas argentinas"? Que dizeis a isso, Simão Catling?
PRIMEIRO MÚSICO — Ora, senhor, porque a prata tem um som agradável.
PEDRO — Tolice! Que pensais, Hugo Rabeca?
SEGUNDO MÚSICO — Penso que "notas argentinas" significam que os músicos tocam suas notas para adquirir prata.
PEDRO — Oh! peço perdão. E sois cantores! Vou dar a explicação por vós. A frase "música de notas argentinas" significa que os músicos nunca vêem ouro com suas notas...a música de notas argentinas com seu poder me deixa outra vez são.
PRIMEIRO MÚSICO — Que sujeito pestilencioso!
SEGUNDO MÚSICO — Que se enforque! Vamos; entremos, para assistir ao enterro e esperar pelo jantar.
(Saem.)
Postado por
Mony Duraes : )
às
07:46
0
comentários
Cena IV
O mesmo. Sala da casa de Capuleto. Entram a senhora Capuleto e a ama.
SENHORA CAPULETO — Ama, toma estas chaves e nos traze mais temperos e cheiro.
AMA — Os pasteleiros querem marmelo e tâmara.
(Entra Capuleto.)
CAPULETO — Depressa! Mexam-se! Vamos! O segundo galo já cantou e o sinal de apagar fogo há muito já foi dado. São três horas. Cuida dos bolos, minha boa Angélica, sem poupar coisa alguma.
AMA — Ide, ide embora, metediço; o lençol está chamando. Por minha fé, assim ficais doente, por haverdes velado a noite toda.
CAPULETO — Nem um pouquinho. Ora essa! Muitas noites já passei acordado por motivos bem menores, sem ter ficado doente.
SENHORA CAPULETO — É certo, em vossa mocidade andáveis a caçar ratos; mas agora eu tomo sobre mim o trabalho de poupar-vos de tais caçadas.
(Saem a senhora Capuleto e a ama.)
CAPULETO — Oh ciúmes! ciúmes! (Entram três ou quatro criados, com espetos, achas de lenha e cestos.) Amigos, que levais aí dentro?
PRIMEIRO CRIADO — Coisas que o cozinheiro reclamou, senhor; não sei bem o que seja.
CAPULETO — Pressa! pressa! (Sai o primeiro criado.) e tu, maroto, traze lenha seca; Pedro pode indicar onde é o depósito.
SEGUNDO CRIADO — Tenho cabeça para achar a lenha; não vou incomodar para isso o Pedro. (Sai.)
CAPULETO — Raios! Boa resposta! O sem-vergonha tem gênio alegre, ah! ah! Dará bom cepo. Por minha fé, já é dia; mais um pouco e o conde chegará mais os seus músicos. Foi o que ele que disse. (Ouve-se música..) Ei-lo! Já o ouço. Ama! Mulher! Estou chamando. Olá! (Volta a ama.) Vai acordar Julieta e prepará-la. Vou conversar com Páris. Toda pressa! Mais pressa nisso! O noivo já está pronto. Mais pressa! digo.
(Saem.)
Postado por
Mony Duraes : )
às
07:45
0
comentários
Cena III
O mesmo. Quarto de Julieta. Entram Julieta e a ama.
JULIETA — Sim, estas são as peças mais bonitas. Mas, gentil ama, deixa-me esta noite; desejo ficar só, pois necessito de rezar muito, para que consiga fazer sorrir o céu para o meu lado, pois bem sabeis: tenho a alma atormentada e cheia de pecados.
(Entra a senhora Capuleto.)
SENHORA CAPULETO — Ocupada bastante, não? Necessitais de mim?
JULIETA — Não, senhora; escolhemos, tão-somente, quanto nos pareceu mais necessário para amanhã vestir na cerimônia. Assim, vos peço me deixeis sozinha, dormindo a ama esta noite em vosso quarto, pois sei que vos achais assoberbada de ocupações para esta festa súbita.
SENHORA CAPULETO — Boa noite, então. E tu, podes deitar-te; não temos precisão de teus serviços.
(Saem a senhora Capuleto e a ama.)
JULIETA — Adeus. Deus sabe quando nos veremos outra vez. Pelas veias me passeia um medo frio e lânguido, que quase deixa o calor da vida inteiriçado. Vou chamá-los de novo para darem-me coragem. Ama!... Mas, por que vir cá? Precisarei representar sozinha meu terrível papel. Vamos, frasquinho. E se esta droga não fizer efeito? Terei de me casar amanhã cedo? Não; isto o impedirá. Fica aqui perto. (Põe de lado um punhal.) E se for um veneno que esse frade com astúcia me deu para matar-me, temendo o opróbrio que podia vir-lhe do casamento, por me haver casado com Romeu antes disso? Sinto medo. Contudo, quero crer, não o faria, pois como santo é tido há muito tempo. Não devo ter tão baixo pensamento. E se, depois de estar na sepultura, eu vier a despertar, sem que Romeu chegue para salvar-me? Oh caso horrível! Não ficarei asfixiada dentro da sepultura, cuja boca imunda não respira ar sadio, e, assim, morrendo sufocada sem vir o meu Romeu? Ou se eu viver, não será mui plausível que aquela imagem de negror e morte, associada ao pavor do próprio ponto – um sepulcro, carneira onde há centenas de meus antepassados; onde se acha desde pouco Tebaldo ensangüentado, a decompor-se em seu sudário branco; onde, assim dizem, em determinadas horas da noite espíritos vagueiam?... Ai! ai de mim! Pois não será possível que eu venha a despertar antes do tempo?... Aquele cheiro repugnante, os gritos que como o das mandrágoras, ao serem arrancadas da terra, influem loucura em todos quantos porventura os ouvem... Ao despertar não ficarei demente no meio desses medos pavorosos, pondo-me, louca, a remexer nos ossos de meus antepassados, e a puxar de seu lençol Tebaldo mutilado? Ou, tomada de fúria, com um osso de um dos meus bisavós, que irá servir-me de clava não farei saltar meu cérebro desesperado? Oh! vede! o espírito parece de meu primo, que anda em busca de Romeu, que espetou seu pobre corpo na ponta do punhal. Pára, Tebaldo! Romeu, aqui! Bebo isto por tua causa.
(Cai sobre o leito, para dentro das cortinas.)
Postado por
Mony Duraes : )
às
07:45
0
comentários
Cena II
O mesmo, Sala em casa de Capuleto. Entram Capuleto, senhora Capuleto, ama e criados.
CAPULETO — Convidai as pessoas desta lista. (Sai o criado.) E tu, maroto aí! Vai contratar-me vinte hábeis cozinheiros.
SEGUNDO CRIADO — Não arranjareis nenhum cozinheiro ruim, senhor, porque eu me incumbirei de verificar se eles sabem lamber os dedos.
CAPULETO — E de que modo conseguirás isso?
SEGUNDO CRIADO — Ora, senhor, o cozinheiro que não sabe lamber os dedos, não presta. Por isso, deixarei de trazer os que não souberem fazê-lo.
CAPULETO — Está bem; vai logo. (Sai o segundo criado.) Vai faltar muita coisa; o tempo é curto. Quem saberá dizer-me se Julieta foi à cela do monge?
AMA — Foi, realmente.
CAPULETO — Talvez ele lhe dê um bom conselho. É uma rapariguinha cabeçuda.
AMA — Ei-la contente; vem da confissão.
(Entra Julieta.)
CAPULETO — Então, cabeçudinha? Onde estivestes saracoteando?
JULIETA — Onde aprendi, realmente, a arrepender-me do pecado grave de desobedecer a vossas ordens, tendo-me frei Lourenço, esse santo homem, ordenado que viesse aqui prostrar-me para pedir perdão. Perdão vos peço. De hoje em diante sereis meu guia em tudo.
CAPULETO — Ide chamar o conde; contai-lhe isso. Será firmado o enlace amanhã cedo.
JULIETA — Vi o conde na cela de Lourenço, tendo-lhe dado tudo o que é possível conceder dentro da área da modéstia.
CAPULETO — Isso me alegra muito. Bem; levanta-te. Assim vai tudo bem. Vou ver o conde. Com a breca! Olá, maroto! vai buscá-lo. Deus louvado. Esse frade reverendo, toda a cidade o tem em grande estima.
JULIETA — Quereis, ama, ir comigo até o meu quarto para escolhermos juntas os enfeites que mais próprios achardes para a festa?
SENHORA CAPULETO — Não; até quinta-feira há muito tempo.
CAPULETO — Vai, ama; vai com ela. Nós iremos até à igreja amanhã.
(Saem Julieta e a ama.)
SENHORA CAPULETO — Vão faltar provisões, e é quase noite.
CAPULETO — Oh diabo! Vou mexer-me; e tudo, tudo, mulher, termina bem, posso afirmar-te. Vai ajudar Julieta nos enfeites. Deixem-me só; hoje não vou deitar-me. Por esta vez serei dona de casa. Olá, rapazes! Qual! saíram todos. Irei sozinho ver o Conde Páris, para animá-lo para amanhã cedo. O coração por demais leve sinto desde que essa menina criou juízo.
(Saem.)
Postado por
Mony Duraes : )
às
07:44
0
comentários
ATO IV
Cena I
Verona. Cela de Frei Lourenço. Entram frei Lourenço e Páris.
FREI LOURENÇO — Quinta-feira, senhor? O prazo é curto.
PÁRIS — Foi o pai Capuleto que assim quis, sem que eu propenso esteja para frouxa deixar a pressa dele.
FREI LOURENÇO — Mas dissestes que não sabeis ainda o que a donzela sobre isso resolveu. Esse caminho não o considero certo; não me agrada.
PÁRIS — Chora sem pausa a morte de Tebaldo. Por essa causa, pouco conversamos a respeito de amor; não sorri Vênus numa casa de lágrimas. Agora, senhor, ficai sabendo que o pai dela considera nocivo ela entregar-se desse modo à tristeza, e tem em sua sabedoria posto pressa às núpcias, para sustar a inundação das lágrimas. O que na solidão toma incremento, pode minguar na vida em sociedade. Sabeis, pois, as razões de tanta pressa.
FREI LOURENÇO (à parte) — Quisera não saber quais os motivos que à dilação obrigam. – Vede, conde: aí vem a dama em direção à cela.
(Entra Julieta.)
PÁRIS — Feliz encontro, minha esposa e dona!
JULIETA — Assim poderá ser, quando casar-me.
PÁRIS — O "poderá" será na quinta-feira próxima.
JULIETA — O que tiver de ser, será.
FREI LOURENÇO — É um dito muito certo.
PÁRIS — Aqui viestes para vos confessar com este monge?
JULIETA — Dar-vos uma resposta, já seria confessar-me convosco.
PÁRIS — Revelai-lhe que me tendes amor.
JULIETA — A vós diria que lhe dedico amor.
PÁRIS — Do mesmo modo lhe direis que me amais, tenho certeza.
JULIETA — Se assim fosse, teria mais valia não vos dizer no rosto, mas nas costas.
PÁRIS — Pobre alma, o rosto as lágrimas te ofendem.
JULIETA — É vitória pequena para as lágrimas, pois, antes disso, ele já era feio.
PÁRIS — Mais o ofendeste agora, assim falando, do que com tuas lágrimas.
JULIETA — Calúnia não foi, senhor; só disse o que é verdade.
PÁRIS — Teu rosto é meu; com isso o caluniaste.
JULIETA — Pode ser, que a mim mesma não pertence. Tendes vagar agora, santo padre, ou voltar devo à tarde, para a missa?
FREI LOURENÇO — Tenho vagar agora, minha filha pensativa. Senhor, será preciso que nos deixeis sozinhos.
PÁRIS — Deus não queira que eu possa perturbar a devoção! Julieta, quinta-feira, bem cedinho, hei de vos despertar. Até esse instante, adeus: Ficai com este beijo pio. (Sai.)
JULIETA — Oh! fecha a porta logo! E, após a teres fechado, vem também chorar comigo. Já não há esperança, nem remédio, não há socorro algum.
FREI LOURENÇO — Ó Julieta! já sei do teu desgosto. Ele ultrapassa de muito meus espíritos. Disseram-me que vais casar na quinta-feira próxima com o Conde Páris, sem que nada possa adiar a cerimônia.
JULIETA — Não me fales, padre, no que soubeste a esse respeito, se o meio não disseres de evitá-lo. Se em toda tua ciência não achares nenhum recurso, ao menos chamai sábia minha resolução, pois esta faca já já me ensejará remédio pronto. Meu coração e o de Romeu reunidos foram por Deus; as mãos tu nos juntaste. Antes, pois, que esta mão, por ti fechada na de Romeu, possa servir de timbre para outra transação, ou que o meu fido coração, com perfídia revoltosa, corra para outro, assim os dois liquido. Por tudo isso, com tua experiência, dá-me logo um conselho. Do contrário, verás como esta faca sanguinária de árbitro vai servir entre mim própria e a minha dor imensa, decidindo sobre o que a autoridade de teus anos e de tanto saber não conseguiram levar a termo honroso. Não retardes a resposta. Viver me causa tédio, se falar não me vieres do remédio.
FREI LOURENÇO — Pára, filha! Vislumbro uma esperança, mas a tal ponto desesperadora, como é desesperado o que queremos impedir que aconteça. Se energia tens suficiente para suicidar-te, só para a mão não dar ao Conde Páris, será melhor, então, que te resolvas a empreender algo que suicídio lembra, para afastar o opróbrio, assim lutando com a morte, para dela te furtares. Se ousares isso, arranjarei os meios.
JULIETA — Oh! mandai que eu me jogue das ameias daquela torre, mas de casamento com o conde não faleis; ou concitai-me a andar pelas estradas de assaltantes, ou a esconder-me em ninhos de serpentes; amarrai-me com ursos rugidores; numa carneira me fechai à noite, cheia de ossos humanos, que se choquem, de tíbias negras, crânios sem mandíbulas; mandai-me entrar num túmulo recente, para esconder-me, ao lado do defunto, sob sua própria mortalha; coisas essas que, só de ouvir, tremer já me fizeram. Sem a menor vacilação, sem medo, tudo farei, contanto que prossiga como esposa sem mancha de quem amo.
FREI LOURENÇO — Escuta, então: vai para casa, mostra-te alegre e dize que disposta te achas a desposar o conde. Quarta-feira é amanhã; amanhã, à noite, deita-te sozinha, sem que fique a ama no quarto. Toma este frasco, e quando te deitares em tua cama, bebe seu conteúdo, que pelas veias, logo, há de correr-te humor frio, de efeito entorpecente, sem que a bater o pulso continue em seu curso normal, parando logo. Calor nenhum nem hálito tua vida poderão atestar; mudadas ficam essas rosas das faces e da boca em cinza desmaiada, a cair vindo as janelas dos olhos, como quando fecha o dia da vida a morte escura. Do maleável poder os membros todos ficando, então, privados, hão de frios e rígidos tornar-se como a morte. Vinte e quatro horas ficarás com esse tétrico aspecto da engelhada morte, para acordar como de um doce sono. Quando, portanto, cedo vier o noivo despertar-te do leito, estarás morta. Então – como é costume em nossa terra – com belas vestes, num esquife aberto, posta serás no mesmo antigo túmulo em que toda a família Capuleto tem sido sepultada. Nesse em meio, antes de despertares, Romeu há de, por minhas cartas, conhecer o que houve e virá para cá. Aguardaremos, eu e ele, que despertes, conduzindo-te Romeu, na mesma noite, para Mântua. Do opróbrio ameaçador esse projeto te livrará, se o medo feminino ou o capricho volúvel, à última hora, não te privarem do valor consueto.
JULIETA — Dai-mo! dai-mo! e vereis se tenho medo.
FREI LOURENÇO — Eis aqui. Parti logo e conservai-vos nessa resolução. Vou mandar prestes a Mântua um portador com uma carta de minha parte para teu marido.
JULIETA — Triunfe o amor, e eis tudo resolvido. Adeus, meu caro padre. (Saem.)
Postado por
Mony Duraes : )
às
07:43
0
comentários
Cena V
O mesmo. Quarto de Julieta. Entram Romeu e Julieta.
JULIETA — Já vais partir? O dia ainda está longe. Não foi a cotovia, mas apenas o rouxinol que o fundo amedrontado do ouvido te feriu. Todas as noites ele canta nos galhos da romeira. É o rouxinol, amor; crê no que eu digo.
ROMEU — É a cotovia, o arauto da manhã; não foi o rouxinol. Olha, querida, para aquelas estrias invejosas que cortam pelas nuvens do nascente. As candeias da noite se apagaram; sobre a ponta dos pés o alegre dia se põe, no pico das montanhas úmidas. Ou parto, e vivo, ou morrerei, ficando.
JULIETA — Não é do dia aquela claridade, podes acreditar-me. É algum meteoro que o sol exala, para que te sirva de tocheiro esta noite e te ilumine no caminho de Mântua. Assim, espera. Não precisas partir assim tão cedo.
ROMEU — Que importa que me prendam, que me matem? Serei feliz, assim, se assim o quiseres. Direi que aquele ponto acinzentado não é o olho do dia, mas o pálido reflexo do diadema da alta Cíntia, e também que não foi a cotovia, cujas notas a abóbada celeste tão longe ferem sobre nossas frontes. Ficar é para mim grande ventura; partir é dor. Vem logo, morte dura! Julieta quer assim. Não, não é dia.
JULIETA — É dia; foge! A noite se abrevia. Depressa! É a cotovia, sim, que canta desafinada e rouca, discordantes modulações forçando e insuportáveis. Dizem que ela é só fonte de harmonia; não é assim, pois ora nos divide. Há quem diga que o sapo e a cotovia mudam os olhos. Oh! quisera agora que ambos a voz também trocado houvessem, pois ela nos separa e, assim tão cedo, como grito de caça mete medo. Oh vai! A luz aumenta a cada instante.
ROMEU — A luz? A escuridão apavorante.
(Entra a ama.)
AMA — Senhora!
JULIETA — Ama?
AMA — Vossa mãe se dirige para cá. Sede prudente; já raiou o dia, como podereis ver. (Sai.)
JULIETA — Então, janela, que o dia entre no quarto e a vida fuja.
ROMEU — Adeus, adeus! Um beijo, e desço logo.
(Desce.)
JULIETA — Já foste? Meu senhor! Amor! Amigo! Notícias quero ter todas as horas, porque um minuto encerra muitos dias. Fazendo a conta assim, ficarei velha antes de ver de novo o meu Romeu.
ROMEU — Adeus. Não deixarei passar um só momento sem te mandar contar o meu tormento.
JULIETA — Oh! pensas mesmo que ainda nos veremos?
ROMEU — Não o duvides; todas estas dores nos servirão ainda unicamente para doces deixar nossos colóquios.
JULIETA — Oh Deus! Um coração tenho agourento. Vendo-te assim, tão longe, só parece que estás sem vida, dentro de um sepulcro. Ou vejo mal, ou estás, realmente, pálido.
ROMEU — Podes crer-me, querida; de igual modo tu me pareces. A aflição sedenta nos bebe todo o sangue. Adeus! Adeus! (Sai.)
JULIETA — Ó fortuna! fortuna! Os homens todos de inconstante te chamam. Se inconstante fores, mesmo, que tens a ver com ele, pela fidelidade tão famoso? Sê inconstante, fortuna, pois espero que em vez de o seqüestrares muito tempo, logo o farás voltar.
SENHORA CAPULETO (dentro) — Ó filha! filha! Já estás de pé?
JULIETA — Quem é que está chamando? É minha mãe? Não se deitou ainda, ou já acordou tão cedo? Qual o insólito motivo que a faz vir falar-me agora?
(Entra a senhora Capuleto.)
SENHORA CAPULETO — Então, Julieta, como estás?
JULIETA — Senhora, não estou boa.
SENHORA CAPULETO — Ainda a chorar te achas a morte de teu primo? Acaso queres com lágrimas tirá-lo do sepulcro? Inda que o conseguisses, impossível te fora dar-lhe vida. Assim, deixa isso. Alguma dor é indício de amizade; mas muito choro indica pouco espírito.
JULIETA — Mas deixai-me chorar tão grande perda.
SENHORA CAPULETO — Sentis a perda, apenas, não o amigo, cuja perda chorais.
JULIETA — Sentindo a perda tanto assim, outra coisa não me resta senão chorar o amigo.
SENHORA CAPULETO — Sim, menina; não choras tanto pela morte dele, como porque está vivo o miserável que da vida o privou.
JULIETA — Que miserável, minha senhora?
SENHORA CAPULETO — Esse vilão Romeu.
JULIETA (à parte) — Vilão e ele estejam separados por milhares de léguas. – Que perdoado seja por Deus como por mim já o foi. Contudo, homem nenhum tanto, como ele, me oprime o coração.
SENHORA CAPULETO — É que esse biltre, esse assassino ainda está com vida.
JULIETA — Sim, e longe do alcance destas mãos. Oh! se eu, tão-só, vingar pudesse a morte do meu querido primo!
SENHORA CAPULETO — Ainda haveremos de vingá-lo; por isso não te aflijas. Pára, pois, com essas lágrimas. A Mântua, exílio onde se encontra o renegado, mandarei quem lhe dê uma bebida tão fora do comum, que logo ele há de companhia fazer para Tebaldo. E assim, espero-o, ficarás contente.
JULIETA — Decerto, nunca ficarei contente com Romeu sem o ter em frente – morto. Assim meu pobre coração lamenta a perda de meu primo. Se pudésseis, senhora, achar uma pessoa, ao menos, que levasse o veneno, eu o preparara de modo que Romeu, tomando-o, logo repousaria em paz. Oh! como sente meu coração ouvir-lhe o nome odioso, sem conseguir aproximar-me dele para vingar o amor que eu dedicava ao meu primo Tebaldo, sobre o corpo de quem o assassinou.
SENHORA CAPULETO — Encontra os meios, que eu acharei esse homem. Mas agora vim trazer-te notícias mais alegres.
JULIETA — Vem a tempo a alegria em tal tristeza. E em que consistem essas alegrias, minha senhora, poderei sabê-lo?
SENHORA CAPULETO — Bem, bem, menina; tens um pai zeloso, que para te livrar dessa tristeza excogitou um dia de alegria como nem tu esperas, nem eu própria poderia pensar.
JULIETA — Oh! vem a tempo! Mas, senhora, que dia será esse?
SENHORA CAPULETO — Filha, vê só! Na quinta-feira próxima na igreja de São Pedro o conde Páris, valente moço e nobre gentil-homem, para sua ventura, alegre noiva te fará finalmente.
JULIETA — Ora, por essa igreja de São Pedro, e por São Pedro, de mim não fará ele noiva alegre. Estranho tanta pressa; por esposo ter eu de receber uma pessoa antes até de me fazer a corte! Dizei, senhora, a meu senhor e pai, que não quero casar; é muito cedo; e que, quando o fizer, posso jurá-lo, antes escolherei Romeu, que odeio como bem o sabeis, que o conde Páris. Eis aí novidade de primeira.
SENHORA CAPULETO — Aí vem vosso pai; dizei-lhe tudo isso vós mesma e vede as conseqüências.
(Entram Capuleto e a ama.)
CAPULETO — Quando o sol morre, o céu chuvisca orvalho; mas na morte do filho de meu mano chove torrencialmente. Então, menina, que goteira é essa? Ainda e sempre em lágrimas? Que é isso? Sempre a chover? Num corpo pequenino, o mar imitar queres, barco, ventos? Pois teus olhos, a que de mar eu chamo, fluxo e refluxo mostram, só de lágrimas; teu corpo é o barco nesse mar salgado; teus suspiros, os ventos, que em conflito permanente com as lágrimas se encontram e que hão de soçobrar-te o frágil corpo tão maltratado pela tempestade, se não fizer a tempo calmaria. Então, mulher: falastes-lhe a respeito de nossa decisão?
SENHORA CAPULETO — Sim, conversamos. Ela, porém, com isso não concorda. Muito vos agradece. Eu desejara que essa tola casasse com seu túmulo.
CAPULETO — Mais devagar, mulher! Levai-me junto! Como! Não quer casar? E ainda agradece? Não se sente orgulhosa? Não se julga muito feliz – sendo, como é, indigna – por lhe termos obtido um noivo desses, tão digno gentil-homem?
JULIETA — Orgulhosa não estou, mas vos sou agradecida. Não posso ter orgulho do que odeio; mas agradeço justamente esse ódio que significa amor.
CAPULETO — Que quer dizer tudo isso? Como assim, minha sofista? "Agradecida" e "não agradecida", "orgulhosa" e também "não orgulhosa"... Não precisais agradecer-me os vossos agradecidos, nem mostrar orgulho dos orgulhosos ou o que quer que seja. Mas tratai de aprontar vossas juntinhas galantes para, quinta-feira próxima, a igreja de São Pedro irdes com Páris. Caso contrário, para lá te levo dentro de uma carroça. Fora! Fora! carniça doente! Fora, marafona! cara de vela!
SENHORA CAPULETO — Ora essa! Estais maluco?
JULIETA — Bondoso pai, de joelhos vos suplico ouvirdes-me, paciente, uma palavra.
CAPULETO — Vai te enforcar, rapariguinha à-toa! Tipo desobediente! Já te mostro. Vai quinta-feira à igreja, ou não me encares nunca mais, nunca mais! Não me repliques coisa nenhuma. Basta! Não me fales. Nos dedos sinto cócegas. Pensávamos, mulher, que nossa dita era pequena, porque Deus só nos dera uma menina; mas vejo agora que esta já nos sobra e que com ela a maldição nos veio. Rameira à-toa!
AMA — Deus do céu que a ampare! Procedeis mal, senhor, por insultá-la desse modo.
CAPULETO — Por quê, dona prudência? Guardai na boca a língua sabe-tudo. Ide mas é ensinar vossas comadres.
AMA — De mal não disse nada.
CAPULETO — Bom proveito.
AMA — Não se pode falar?
CAPULETO — Paz, resmungona. Velha tonta! Guardai vossas sentenças para vossas iguais. Não precisamos delas aqui.
SENHORA CAPULETO — Estais muito excitado.
CAPULETO — Sacramento de Deus! É de deixar-me louco de todo. Dias e mais dias, a toda hora, de noite, o ano inteirinho, no trabalho, no jogo, só, no meio dos companheiros, tinha apenas uma preocupação: sabê-la, enfim, casada. E agora que arranjei um gentil-homem de nobre parentesco, jovem, rico, de fina educação, forrado, como se costuma dizer, de qualidades excepcionais, e tão proporcionado como melhor não fora concebível, lá vem uma coisinha choramingas, uma boneca cheia de lamúrias, ao lhe sorrir a sorte, declarar-me:"Sou muito nova”, “amar não me é possível”, “não desejo casar-me”, “desculpai-me, por obséquio”. Pois não, vou desculpar-vos, se não quereis casar. Procurai pasto onde bem entenderdes, que aqui em casa não ficareis comigo. Refleti; vede bem; gracejar não é meu hábito. Quinta-feira está perto; aconselhai-vos com o coração. Se fordes minha filha, por mim a meu amigo sereis dada. Mas se o não fordes, enforcai-vos, ide pedir esmola, perecer de fome, morrer na rua, pois — pela alma o juro! — jamais hei de reconhecer-te e nunca quanto for meu te poderá ser útil. Reflete bem, pois não serei perjuro. (Sai.)
JULIETA — Não haverá piedade em meio às nuvens, para dor me sondar até o mais fundo? Oh! não me repilais, bondosa mãe! Adiai esse esposório pelo prazo de um mês, uma semana; ou se impossível vos for tal coisa, preparai o tálamo nupcial no monumento em que Tebaldo se encontra sepultado.
SENHORA CAPULETO — Não me fales. Não digo nada; faze o que entenderes, que para mim não representas nada. (Sai.)
JULIETA — Oh Deus! Ó ama! como evitar isso? Tenho o esposo na terra, a fé, no céu. De que modo essa fé poderá vir-me de novo para a terra, a menos que ele do céu ma envie, após deixar a terra? Conforta-me; aconselha-me. Oh tristeza! usar o céu de tais estratagemas com um ser tão delicado! Não me dizes uma palavra, ao menos? Como pensas, ama? Nenhum consolo?
AMA — Sim, digo isto: Romeu está banido; o mundo todo contra nada, em como ele não retorna para vos reclamar. Mas ainda mesmo que retorne, forçoso é que isso seja muito às ocultas. Ora, estando as coisas nesse pé, mais razoável me parece desposardes o conde. Oh! que fidalgo tão gracioso! Romeu, ao lado dele, não é mais do que um pano de cozinha. Uma águia, senhorita, não tem olhos tão penetrantes, verdes e bonitos como os de Páris. Quero que maldito fique meu coração, se venturosa não vos fizer este segundo esposo. De muito o outro ele vence; e ainda mesmo que não vencesse, aquele já está morto, ou é como se estivesse, por viverdes aqui, sem uso algum fazerdes dele.
JULIETA — Falas de coração?
AMA — E também de alma.
JULIETA — Amém.
AMA — Como?
JULIETA — Soubeste consolar-me maravilhosamente. Vai e dize a minha mãe que por haver deixado meu pai aborrecido, fui à cela de frei Lourenço, com o fim de confessar-me para ser absolvida.
AMA — Dir-lhe-ei isso; procedeis bem. (Sai,)
JULIETA — Oh velha amaldiçoada! Oh demônio perverso! Que pecado será maior: querer-me ver perjura, ou insultar meu senhor com a mesma boca que o exaltou sobre tudo neste mundo tantos milhões de vezes? Conselheira, podes ir. Dora em diante, separados tu e meu peito estais. Vou ver o monge. Dar-me-á remédio. Vindo a falhar tudo, porei na morte todo o meu estudo. (Sai.)
Postado por
Mony Duraes : )
às
07:43
0
comentários
Cena IV
O mesmo. Um quarto da casa de Capuleto. Entram Capuleto, a senhora Capuleto e Páris.
CAPULETO — As coisas, meu senhor, tomaram rumo tão infeliz, que tempo não tivemos de advertir nossa filha. Vede bem: dedicava afeição sincera ao primo Tebaldo. Tal como eu. Bem; só nascemos para morrer. Já é muito tarde; agora ela não descerá. Posso afiançar-vos que, se não fosse vossa companhia, há uma hora já me houvera recolhido.
PÁRIS — Este tempo de dor não é propício para a corte fazermos. Bem, despeço-me. Senhora, passai bem. A vossa filha recomendai-me.
SENHORA CAPULETO — Farei isso mesmo. Saberei cedo o pensamento dela. Hoje ela está na dor enclausurada.
CAPULETO — Senhor Páris, atrevo-me a afiançar-vos o amor de minha filha. Ela se deixa, quero crer, dirigir por mim em tudo. Sim, estou certo disso. Ao quarto dela subi, mulher, antes de vos deitardes. Contai-lhe o amor de nosso filho Páris e, notai bem, contai-lhe que na próxima quarta-feira... Porém, que dia é hoje?
PÁRIS — Segunda, meu senhor.
CAPULETO — Ah! ah! Segunda! Muito bem. Quarta-feira é muito cedo. Será na quinta. Sim, comunicai-lhe que ela desposará na quinta-feira este mui nobre conde. Estareis pronto? Aprovais tanta pressa? Não faremos muito barulho; uns dois ou três amigos, nada mais, ora vede; porque, tendo sido morto Tebaldo, há pouco tempo, poderemos dar azo a que se pense que não lhe dedicávamos estima como a parente, e que comemos muito. Por isso reuniremos uma dúzia de amigos, tão-somente, e... ponto nisso. E agora que dizeis de quinta-feira?
PÁRIS — Senhor, quisera que essa quinta-feira já fosse amanhã mesmo.
CAPULETO — Podeis ir. Muito bem. Pois que seja quinta-feira. Antes de vos deitar, ide falar-lhe. Preparai-a para esse casamento. Adeus, senhor. Olá! Luz no meu quarto! Aqui, primeiro! Aqui! Já é tão tarde, que, com mais um pouquinho, poderemos dizer que é cedo. Bem, adeus. Boa noite.
(Saem.)
Postado por
Mony Duraes : )
às
07:42
0
comentários
Cena III
O mesmo. Cela de frei Lourenço. Entra frei Lourenço.
FREI LOURENÇO — Romeu, vem cá, homem medroso! As aflições de ti se enamoraram. Desposaste a desgraça.
(Entra Romeu.)
ROMEU — Padre, que novidades? E a sentença do príncipe, qual foi? Qual é a tristeza que eu ainda não conheço e que deseja tocar-me a mão de perto?
FREI LOURENÇO — O meu querido filho por demais íntimo se mostra com essas companhias tão adversas. Vou contar-te o que foi que disse o príncipe, qual foi sua sentença,
ROMEU — Não teria sido o juízo final sua sentença?
FREI LOURENÇO — Dos lábios lhe saiu uma sentença mais branda: não a morte para o corpo, mas o exílio do corpo.
ROMEU — Exílio! exílio! Sê clemente, dizendo logo "morte", pois mais horror contém no olhar o exílio que a própria morte. Assim, não me repitas essa palavra: "Exílio".
FREI LOURENÇO — Estás banido de Verona. Reveste-te de calma, pois o mundo é bastante grande e largo.
ROMEU — Mundo não pode haver fora dos muros de Verona, mas dores, purgatório, o próprio inferno. Estar daqui banido, é banido também estar do mundo, e semelhante banimento é a morte. Alcunha, assim, da morte é "banimento". Dando à morte esse nome, com machado de ouro a cabeça me apartais do tronco rindo do golpe que me tira a vida.
FREI LOURENÇO — Oh pecado mortal! Oh rude e absurdo desagradecimento! Nossas leis dão o nome de morte à tua falta, Mas o benígno príncipe, tomando teu partido, a lei pôs de lado, logo, e em exílio mudou o escuro termo. É graça, e grande, e tu não queres vê-la!
ROMEU — É tortura, não graça. O céu se encontra onde Julieta vive. Um simples gato, um ratinho, um cachorro, as coisas ínfimas aqui vivem no céu e podem vê-la. Mas não o pode Romeu. Mais importância, mais dignidade, mais cortesania se acham nas varejeiras dos monturos, que no pobre Romeu. Tocar conseguem no cândido milagre da querida mão de Julieta e mortal bênção podem dos lábios lhe roubar que, com modéstia pura e vestal, corados ainda ficam por julgarem que os beijos são pecado. As moscas fazem isso; e eu sou forçado a muscar-me daqui; são povo livre; eu, banido. E ainda dizer que esse exílio não significa a morte? Não possuis mistura venenosa, faca afiada, ou qualquer meio rápido de morte, por mais baixo que seja e que me mate, tirante esse "banido"? Ora, banido! Ó frade! essa palavra os condenados usam no inferno e de urros a acompanham. Na qualidade de homem santo, sendo, como és, um confessor, que tem poderes para perdoar pecados, meu amigo declarado, pretendes esmagar-me com esse termo: "Banido"?
FREI LOURENÇO — Homem sem juízo, ouve-me ao menos uma palavrinha.
ROMEU — Oh! vais falar de exílio novamente.
FREI LOURENÇO — Vou emprestar-te uma armadura, para esse termo amparar: filosofia, o leite doce e são da adversidade, que te há de confortar, embora estejas, em verdade, banido.
ROMEU — Mas, "banido"! Põe a filosofia numa forca, a menos que a filosofia possa fazer uma Julieta, uma cidade mudar, ou deixar írrito um decreto. Se não, de nada vale, para nada pode servir-me. Não me fales nisso.
FREI LOURENÇO — Vejo que os loucos não possuem orelhas.
ROMEU — Como tê-las, se os sábios não têm olhos?
FREI LOURENÇO — Deixa-me discorrer sobre o teu caso.
ROMEU — Falar não podes sobre o que não sentes. Se, como eu, fosses moço; se Julieta te pertencesse, por se ter tornado tua esposa há uma hora; se tivesses morto Tebaldo, e louco, apaixonado como eu te visses: bem, assim podias falar, arrepelar a cabeleira, jogar-te ao solo como o faço agora, para dar a medida de uma cova que ainda vai ser aberta.
(Batem dentro.)
FREI LOURENÇO — Estão batendo, Romeu. Levanta-te depressa e esconde-te.
ROMEU — Não; a menos que o sopro dos gemidos do coração, à guisa de neblina, me ocultasse da busca dos olhares.
(Batem.)
FREI LOURENÇO — Escuta! Estão batendo novamente. – Quem está aí? – Romeu, Romeu, levanta-te. Podes ser preso. – Um momentinho apenas. – (Batem.) Levanta-te! Esconde-te em meu quarto. – Já vou! Já vou! – Por Deus, como és teimoso! – (Batem.) Já vou! Quem bate com tamanha força? Da parte de quem vindes? Que quereis?
AMA — (dentro) – Deixai-me entrar, para que eu dê o recado. A senhora Julieta é que me manda.
FREI LOURENÇO — Bem-vinda sois, então. (Entra a ama.)
AMA — Ó santo frade, dizei-me, santo frade, onde se encontra o senhor de minha ama? Onde está ele? Romeu, que é dele?
FREI LOURENÇO — Ali, jogado ao solo, embriagado por suas próprias lágrimas.
AMA — Oh! justamente o caso de minha ama! Justamente o seu caso.
FREI LOURENÇO — Oh simpatia dolorosa, terrível situação!
AMA — Ela está justamente assim, deitada, chorando e lastimando-se, chorando sem parar. Levantai-vos! levantai-vos! Sede homem, por amor, sim, de Julieta. Por que vos consumirdes em lamentos?
ROMEU — Ama?
AMA — Ah meu senhor! A morte é o fim de tudo.
ROMEU — Fala-me de Julieta. Como pensa? Não me julga assassino inveterado, pelo fato de eu ter manchado a infância de nossa grande dita com um sangue tão próximo do seu? Onde está ela? Que faz? Que diz minha secreta esposa do nosso amor destruído?
AMA — Oh! não diz nada, senhor; mas chora, chora sem parar. Ora se joga ao leito, ora levanta-se, chama "Tebaldo", grita o vosso nome, e cai de novo.
ROMEU — Como se esse nome, por um canhão contra ela disparado, lhe desse a morte, como a mão maldita de tal nome o fizera com seu primo. Ó frade, dize-me: em que parte abjeta de minha anatomia está meu nome? Dize, que eu saquearei, no mesmo instante, a casa do inimigo.
(Saca da espada.)
FREI LOURENÇO — Detém essa desesperada mão. Acaso és homem? Tua postura o afirma, mas as lágrimas são de mulher, mostrando esses teus atos desesperados o furor selvagem dos próprios animais. Ó deformada mulher, sob a aparência de um mancebo, ou animal deturpado, sob a forma de ambos: pasmado estou. Pela minha ordem sagrada: sempre fiz outro juízo de teu temperamento. Não mataste Tebaldo? Agora queres suicidar-te e, assim, matar a tua própria esposa, que de tua vida vive, revertendo contra ti próprio esse ódio amaldiçoado? Por que insultas o berço, o céu e a terra? O berço, o céu e a terra unidos se acham em ti, e de uma vez perdê-los queres? Ora, envergonhas tua forma, o espírito, o amor, que em barda tens, como usurário, sem que nada uses no seu vero emprego para te ornar a forma, o amor, o espírito. Tua nobre figura é como imagem de cera, se o vigor viril lhe falta; teu amor tão prezado, oco perjúrio que mata o amor que proteger juraste; o espírito, esse ornato da postura, como do amor, se encontra deformado pela conduta de ambos, como pólvora no frasco de um soldado inexperiente, que por tua própria ignorância explode, com tuas próprias armas desmembrando-te. Vamos, homem: levanta-te! Está viva tua Julieta, por quem te achas quase no ponto de morrer. Estás com sorte. Tebaldo quis matar-te; a morte deste-lhe. Nisso foste também mui venturoso. A lei se mostra tua amiga, a pena de morte atenuando para exílio: outra ventura. Sobre o dorso um fardo de bênçãos te caiu. Com seus mais ricos atavios te vem fazendo a corte sempre a felicidade; mas no jeito de um rapaz não polido e caprichoso, com a sorte e o amor amuado te revelas. Toma cuidado! Quem assim procede, acaba sempre mal. Vamos, levanta-te! Vai ter com teu amor, como assentamos. Escala o quarto e leva-lhe conforto. Tem cautela, porém; não te demores até que venham iniciar a guarda, porque então para Mântua não saíras, que é onde vais viver até que achemos a hora oportuna de anunciar as bodas, a reconciliação fazer de todos os vossos conhecidos, e a demência do príncipe alcançar, para chamar-te, finalmente, de volta, retornando tu com cem vezes mil mais alegrias do que tinhas de dores ao partires. Ama, segue na frente. Recomenda-me à senhorita e dize-lhe que cuide de mandar para a cama toda a casa, a isso disposta pelos cruéis eventos. Romeu vai logo.
AMA — Oh Deus! Aqui ficara toda a noite, para ouvir bons conselhos. Quanto vale, quanto, a instrução! Senhor, à senhorita anunciarei vossa ida.
ROMEU — Sim, e dize-lhe que se prepare para repreender-me.
AMA — Eis um anel, senhor, por ela entregue para que vo-lo desse. Vamos, vinde depressa que já está ficando tarde. (Sai.)
ROMEU — Como isto o coração me fortalece!
FREI LOURENÇO — Saí, boa noite, e toda vossa dita sabeis depende disto: ou saí antes de iniciarem a guarda, ou, muito cedo disfarçado, deixai nossa cidade. Ficai em Mântua, que eu acharei meios de encontrar vosso criado. Ele vos há de com freqüência levar as boas novas do que se for passando em nosso meio. Dai-me a mão. Passai bem, Há pressa. Adeus.
ROMEU — Não fosse a dita me levar daqui, sentira dor em me afastar de ti. Adeus.
(Saem.)
Postado por
Mony Duraes : )
às
07:42
0
comentários
Alguem a espera de um mundo melhor
- Mony Duraes : )
- Campo Grande
- Mony duraes.... veja e descubra!!!