quando ninguém desejava um almocreve que estivesse ao mesmo tempo a
serviço de outro patrão.
Esse bom príncipe resolveu-se: cedeu o novo reino a um dos seus amigos, que
foi expulso dali logo depois, e contentou-se com seu antigo domínio.
Volto à minha hipótese. Se fosse mais longe ainda; se, dirigindo-me ao próprio
monarca, o fizesse ver que essa paixão de guerrear, que transtorna as nações,
depois de ter esgotado as finanças e arruinado o povo, poderia ocasionar à
França as conseqüências mais fatais; se lhe dissesse:
Senhor, aproveitai a paz que um feliz acaso vos concede, cultivai o reino de
vossos pais, fazei nele florescer a felicidade, a riqueza e a força; amai vossos
súditos, e que o amor deles faça a vossa alegria; vivei como pai no meio deles e
não comandai nunca como déspota; deixai em paz os outros reinos; aquele que
vos coube por herança é suficientemente grande para vós.
Dizei-me, caro Morus, com que espécie de bom ou mau humor seria acolhida
semelhante arenga?
- Com péssimo mau humor, respondi.
- E não é tudo, continuou Rafael; passamos em revista a política exterior dos
ministros de França; a glória era então o de que necessitava o seu senhor ; agora
é o dinheiro. Vejamos um instante os seus novos princípios de governo e justiça.
Este, propõe elevar o valor da moeda quando se trate de reembolsar um
empréstimo, e de fazê-lo descer muito abaixo do par quando se trate de tornar a
encher o tesouro. Com esse duplo expediente, o príncipe poderá cobrir suas
enormes dívidas, e, sem trabalho, fazer uma grande colheita em recursos.
Aquele, aconselha simular uma guerra próxima. Este pretexto legitimará um
novo imposto. Depois da arrecadação do tributo extraordinário, o príncipe fará
subitamente a paz; ordenará a celebração desse feliz acontecimento por meio de
ações de graça nos templos e de todas as pompas das cerimônias religiosas. A.
nação ficará deslumbrada, e o reconhecimento público elevará até aos céus as
virtudes de um rei tão humanamente avaro do sangue de seus súditos.
Um outro vem, e exuma velhas leis carcomidas pelas traças e caídas em
desuso pelo tempo. Como todo mundo ignora sua existência, todo mundo as
transgride. Restaurando, assim, as multas pecuniárias contidas nessas leis, criarse-
ia uma fonte de renda lucrativa e até honrada, pois que se agiria em nome da
justiça.
Um terceiro pensa que não seria de menos proveito lançar, sob pena de
pesadas multas, uma, multidão de novas proibições, a maioria delas em benefício
do povo. O rei, mediante soma considerável, dispensaria aqueles cujos interesses
privados fossem comprometidos por estas proibições. Dessa maneira o rei ver-seia
cumulado das bênçãos do povo e faria dupla receita, recebendo, ao mesmo
tempo, dinheiro dos contraventores e dos privilegiados. O melhor do negócio é
que quanto mais exorbitante fosse o preço das dispensas tanto mais Sua
Majestade ganharia em estima e consideração.
Vejam, diriam, como este bom príncipe violenta seu coração ao vender tão caro
o direito de prejudicar o povo.
Outro ainda, enfim, aconselha ao monarca ter à disposição juizes sempre
dispostos a sustentar, em todas as ocasiões, os direitos. da coroa. Vossa
Majestade, acrescenta ele, deveria chamá-los à corte, e persuadi-los a discutir,perante a vossa augusta pessoa, os próprios negócios reais. Por pior que seja
uma causa, haverá sempre um juiz para julgá-la boa, seja pela mania da
contradição, seja por amor da novidade e do paradoxo, seja para agradar o
soberano. Então, uma discussão se trava; a multiplicidade e o conflito de opiniões
embrulham uma coisa de si mesma muito clara, e a verdade é posta em dúvida.
Vossa Majestade aproveita o momento para resolver a dificuldade, interpretando o
direito em proveito próprio. Os dissidentes se submetem à opinião real por timidez
ou por temor, e o julgamento é dado, segundo as formalidades, com franqueza e
sem escrúpulo. Faltarão jamais ao juiz, que dá uma sentença a favor do príncipe,
os necessários consideranda? Não há o texto da lei, a liberdade de interpretação,
e, acima das leis, para um juiz religioso e fiel, a prerrogativa real?
Ouvi os axiomas de moral política proclamados unanimemente pelos membros
do nobre conselho:
O rei que sustenta um exército nunca tem dinheiro bastante.
O rei não poderia fazer o mal mesmo que o quisesse.
O rei é o proprietário universal e absoluto dos bens e pessoas de todos os seus
súditos; nada possuem senão como usufrutuários pelas boas graças do rei.
A pobreza do povo é o baluarte da monarquia.
A riqueza e a liberdade conduzem à insubordinação e ao desprezo da
autoridade; o homem livre e rico suporta com impaciência um governo injusto e
despótico.
A indigência e a miséria degradam os caracteres, embrutecem as almas,
habituam-nas ao sofrimento e à escravidão, comprimindo-as a ponto de lhes tirar a
energia necessária para sacudir o jugo.
Se outra vez me erguesse, e falasse assim a esses poderosos senhores:
Vossos conselhos são infames, vergonhosos para o rei, funestos para o povo.
A honra de vosso senhor e a sua felicidade consistem na riqueza de seus súditos
mais ainda do que na sua própria. Os homens fizeram os reis para os homens e
não para os reis; colocaram chefes à sua frente para que pudessem viver
comodamente ao abrigo das violências e dos ultrajes; o dever mais sagrado do
príncipe é velar pela felicidade do povo antes de velar pela sua própria; como um
pastor fiel, deve dedicar-se a seu rebanho, e conduzi-lo às pastagens mais férteis.
Sustentar que a miséria pública é a melhor salvaguarda da monarquia, é
sustentar um erro grosseiro e evidente; onde se vêm mais querelas e rixas do que
entre os mendigos?
Qual o homem que mais deseja uma revolução? Não será aquele cuja
existência atual é miserável? Qual o homem que revelará maior audácia em
subverter o Estado? Não será aquele que com isso só pode ganhar por nada ter a
perder?
Um rei que provocasse o ódio e o desprezo dos cidadãos e cujo governo não
pudesse se manter senão pelas vexações, pela pilhagem, pelo confisco e pela
miséria universal, deveria descer do trono e depor o poder supremo. Empregando
estes meios tirânicos, talvez pudesse conservar o nome de rei, mas de rei não
teria mais nem o ânimo nem a majestade. A dignidade real não consiste em reinar
sobre mendigos, mas sobre homens ricos e felizes.
Fabricius, (3) esta grande alma, estava todo penetrado desse sublime
sentimento quando respondeu: Prefiro governar ricos do que eu mesmo ser rico.E, de fato, nadar em delícias, saciar-se de voluptuosidades em meio às dores e
gemidos de um povo, não é manter um reino e sim uma cadeia.
O médico que só sabe curar as moléstias de seus clientes dando-lhes
moléstias mais graves, passa por ignaro e imbecil; confessai, pois, - ó vós que não
sabeis governar senão arrebatando aos cidadãos a subsistência e as
comodidades da vida! - confessai que sois indignos e incapazes de dirigir homens
livres! Ou então corrigi vossa ignorância, vosso orgulho e vossa preguiça: é isso o
que excita o ódio e o desprezo pelo soberano. Vivei de vosso patrimônio, segundo
a justiça; medi vossas despesas na proporção de vossas rendas; detei as
torrentes do vício; criai instituições de benemerência, que previnam o mal e o
estiolem no germe, ao em vez de inventar suplícios contra os infelizes que uma
legislação absurda e bárbara impele ao crime e à morte
Não ressusciteis leis carunchosas caídas no olvido e no esquecimento,
lançando sobre os vossos súditos toda a sorte de obstáculos. Não eleveis o preço
de um delito a uma taxa que o juiz condenaria, como injusta e vergonhosa, entre
simples particulares. Tende sempre diante dos olhos este belo hábito dos
macarianos.
Nesta nação, vizinha da Utopia, no dia em que o rei toma posse do império,
oferece sacrifícios à divindade, comprometendo-se, por um juramento sagrado, a
não ter nunca em seus cofres mais do que mil libras de ouro ou a soma em
dinheiro de valor equivalente. Este uso foi introduzido por um príncipe que tinha
mais desejo de trabalhar pela prosperidade do Estado, do que de acumular
mi1bões. Quis desse modo pôr um freio à avareza dos seus sucessores e impedilos
de enriquecer pelo empobrecimento de seus súditos. Mil libras de ouro lhe
pareceram uma quantia suficiente para um caso de guerra civil ou estrangeira,
mas demasiado fraca para apoderar-se da fortuna da nação. Foi principalmente
este último motivo que o induziu a decretar esta lei; mas visava ele ainda duas
outras finalidades: em primeiro lugar, ter em reserva, para os tempos de crise, a
quantidade de dinheiro necessária à circulação e às transações quotidianas dos
cidadãos; em segundo lugar, limitar as cifras dos impostos e da lista civil no intuito
de impedir que o príncipe empregasse o excesso da dotação legal em semear a
corrupção e cometer injustiças. Um rei como este é o terror dos maus e a
veneração das pessoas de bem.
Mas, dizei-me, caro Morus, pregar uma tal moral a homens que por interesse e
por sistema se orientam por princípios diametralmente opostos, não é contar
histórias a surdos?
- E a surdos como portas, respondí. Mas isto não me espanta., e, para vos
revelar o meu modo de pensar, é perfeitamente inútil dar conselhos quando se
tem a certeza de que serão repelidos, quer na forma, quer no fundo. Ora, os
ministros e os políticos de hoje, estão impregnados de erros e preconceitos; como
quereis bruscamente modificar suas crenças e fazer penetrar, de chofre, em suas
cabeças e em seu coração, a verdade e a justiça? Esta filosofia escolástica está
no seu lugar em uma conversação familiar, entre amigos; está fora de propósito
nos conselhos dos reis, onde grandes coisas são tratadas com grande autoridade
e em face do poder supremo.
- Era isto o que vos dizia ainda agora, retrucou Rafael, a filosofia não tem
acesso na corte dos príncipes.
quinta-feira, 21 de junho de 2007
Postado por
Mony Duraes : )
às
07:19
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Alguem a espera de um mundo melhor
- Mony Duraes : )
- Campo Grande
- Mony duraes.... veja e descubra!!!
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