quinta-feira, 3 de maio de 2007

compreendido pela órbita do sol, não viram senão vastas solidões eternamente
devoradas por um céu de fogo. Ai, tudo os aturdia de horror e espanto. A terra
inculta tinha apenas como habitantes os animais mais ferozes, os reptis mais
terríveis, ou homens mais selvagens que os animais. Afastando-se do Equador, a
natureza se abrandava pouco a pouco; o calor é menos abrasador, a terra se
cobre de uma ridente verdura e os animais são menos selvagens. Mais longe
ainda, aparecem povos, cidades, povoações, em que se faz um comércio ativo por
terra e por mar, não somente no interior e com as fronteiras, mas entre nações
muito distantes.
Estas descobertas inflamavam o ardor de Rafael e de seus companheiros. E o
que alimentava essa paixão pelas viagens era o fato de serem admitidos sem
dificuldade no primeiro navio a partir, qualquer que fosse o seu destino.
As primeiras embarcações que viram eram chatas, as velas formadas de vimes
entrelaçados ou de fo1has de papiros, e algumas de couro. Em seguida,
encontraram embarcações terminadas em ponta, as velas feitas de cánamo; e
finalmente embarcações inteiramente semelhantes às nossas, e hábeis nautas
conhecendo muito bem o céu e o mar, mas sem nenhuma idéia da bússola.
Esses bons homens ficaram pasmados de admiração e cheios do mais vivo
reconhecimento, quando nossos castelhanos lhes mostraram uma agulha
imantada. Antes, era tremendo que se aventuravam ao mar, e, ainda assim,
atreviam-se a navegar apenas no verão. Hoje, bússola em mão, arrostam os
ventos e o inverno mais confiados do que seguros; pois, se não tomam cuidado,
essa bela invenção que parecia dever trazer-lhes tantos benefícios, poderá
transformar-se, por sua imprudência, em uma fonte de males.
Seria muito extenso se relatasse, aqui, tudo o que Rafael viu em suas viagens.
Aliás, não é essa a finalidade desta obra. Completarei talvez a sua narrativa num
outro livro em que darei detalhes, principalmente, dos hábitos, costumes e sábias
instituições dos povos civilizados, que freqüentou Rafael.
Sobre essas graves questões nós o importunamos com perguntas
intermináveis, e ele consentia, prazeirosamente, em satisfazer a nossa
curiosidade. Nós nada lhe perguntamos sobre esses monstros famosos que já
perderam o mérito da novidade: Cila (1), Celenos, Lestrigões, comedores de gente,
e outras hárpias da mesma espécie que existem em quase toda parte. O que é
raro, é uma sociedade sã e sabiamente organizada.
Para dizer verdade, Rafael notou entre esses novos povos instituições tão ruins
quanto as nossas, mas, observou também um grande número de leis capazes de
esclarecer, de regenerar as cidades, nações e reinos da velha Europa.
Todas essas coisas, repito-o, serão objeto de uma outra obra. Nesta, relatarei
apenas o que Rafael nos contou dos costumes e instituições do povo utopiano.
Antes, quero mostrar ao leitor de que maneira a conversa foi levada para este
terreno:
Rafael entremeava a sua narrativa com as reflexões mais profundas.
Examinando cada forma de governo, analisava, com uma sagacidade
maravilhosa, o que há de bom e verdadeiro numa, de mau e de falso noutra. Ao
ouvi-lo discorrer tão sabiamente sobre as instituições e os costumes dos
diferentes povos, era de pensar-se que vivera toda a vida nos lugares por onde
apenas passara. Pedro não pode conter a sua admiração.
Na verdade, disse, meu caro Rafael, espanto-me que não vos tivésseis posto a
serviço de algum rei. Certamente não haveria um só que não encontrasse em vós
utilidade e satisfação. Encheríeis de encanto os seus lazeres com o vosso
conhecimento universal das coisas e dos homens, e os incontáveis exemplos, que
poderíeis citar, proporcionar-lhe-iam um sólido ensinamento e conselhos
preciosos. Faríeis, ao mesmo tempo, uma brilhante fortuna para vós e os vossos.
- Eu pouco me inquieto com a sorte dos meus, retomou Hitiodeu. Creio ter
cumprido sofrivelmente os meus deveres para com eles. Os outros homens só
abrem mão de seus bens já velhos e na agonia, e é ainda chorando, que
renunciam ao que suas mãos desfalecentes não mais podem reter. Eu, cheio de
saúde e juventude, tudo dei aos meus parentes e amigos. - Eles não se queixarão,
espero, do meu egoísmo; não exigirão que, para cumulá-los de ouro, eu me faça
escravo de um rei.
- Entendamo-nos, disse Pedro, a minha intenção não foi a de que servísseis
um príncipe como lacaio e sim como ministro.
- Os príncipes, meu amigo, põem nisto pouca diferença; e, entre estas duas
palavras latinas servire e inservire, vêm apenas uma sílaba a mais, ou a menos.
- Chamai a coisa como quiserdes, respondeu Pedro; é o melhor meio de ser útil
ao público, aos indivíduos, e de tornar mais feliz a própria situação.
- Mais feliz, dizeis! mas, como aquilo que repugna ao meu sentimento, ao meu
caráter, poderia fazer minha felicidade? Presentemente sou livre, vivo como quero,
e duvido que muitos dos que vestem a púrpura possam dizer o mesmo. Muita
gente ambiciona os favores do trono; os reis não sentirão falta, se eu e dois ou
três da minha têmpera não nos encontrarmos entre os cortesãos.
Então falei assim:
É evidente, Rafael, que não procurais riquezas nem poder, e não tenho menos
admiração e estima por um homem como vós, do que por aquele que está à frente
de um império. Parece-me, entretanto, que seria digno de um espírito tão
generoso, tão filósofo, como o vosso, aplicar todos os seus talentos na direção
dos negócios públicos, embora houvesse que comprometer o seu bem estar
pessoal; ora, a maneira de o fazer com mais proveito, é ainda a de entrar para o
conselho de algum grande príncipe; estou certo de que a vossa boca não se abrirá
jamais, senão para a virtude e para a verdade. Vós o sabeis, o príncipe é a fonte
de onde o bem e o mal jorram, como uma torrente, sobre o povo; e possuís tanta
ciência e tantos talentos que, embora não tivésseis o hábito dos negócios, daríeis,
mesmo assim, um excelente ministro para o rei mais ignorante.
- Incidis num duplo erro, caro Morus, replicou Rafael; e não só quanto ao fato
em si como quanto à pessoa; estou longe de ter a capacidade que me atribuis; e
mesmo que a tivesse cem vezes maior, o sacrifício de meu sossego seria inútil à
causa pública.
Em primeiro lugar, os príncipes cuidam somente da guerra (arte que me é
desconhecida e que não tenho nenhum desejo de conhecer). Eles desprezam as
artes benfazejas da paz. Trate-se de conquistar novos reinados, e todos os meios
lhes parecem bons; o sagrado e o profano, o crime e o sangue, não os detêm. Em
compensação, ocupam-se muito pouco de bem administrar os Estados
submetidos à sua dominação.
Quanto aos conselhos dos reis, eis aproximadamente a sua composição:

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Campo Grande
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