quinta-feira, 21 de junho de 2007

quando ninguém desejava um almocreve que estivesse ao mesmo tempo a
serviço de outro patrão.
Esse bom príncipe resolveu-se: cedeu o novo reino a um dos seus amigos, que
foi expulso dali logo depois, e contentou-se com seu antigo domínio.
Volto à minha hipótese. Se fosse mais longe ainda; se, dirigindo-me ao próprio
monarca, o fizesse ver que essa paixão de guerrear, que transtorna as nações,
depois de ter esgotado as finanças e arruinado o povo, poderia ocasionar à
França as conseqüências mais fatais; se lhe dissesse:
Senhor, aproveitai a paz que um feliz acaso vos concede, cultivai o reino de
vossos pais, fazei nele florescer a felicidade, a riqueza e a força; amai vossos
súditos, e que o amor deles faça a vossa alegria; vivei como pai no meio deles e
não comandai nunca como déspota; deixai em paz os outros reinos; aquele que
vos coube por herança é suficientemente grande para vós.
Dizei-me, caro Morus, com que espécie de bom ou mau humor seria acolhida
semelhante arenga?
- Com péssimo mau humor, respondi.
- E não é tudo, continuou Rafael; passamos em revista a política exterior dos
ministros de França; a glória era então o de que necessitava o seu senhor ; agora
é o dinheiro. Vejamos um instante os seus novos princípios de governo e justiça.
Este, propõe elevar o valor da moeda quando se trate de reembolsar um
empréstimo, e de fazê-lo descer muito abaixo do par quando se trate de tornar a
encher o tesouro. Com esse duplo expediente, o príncipe poderá cobrir suas
enormes dívidas, e, sem trabalho, fazer uma grande colheita em recursos.
Aquele, aconselha simular uma guerra próxima. Este pretexto legitimará um
novo imposto. Depois da arrecadação do tributo extraordinário, o príncipe fará
subitamente a paz; ordenará a celebração desse feliz acontecimento por meio de
ações de graça nos templos e de todas as pompas das cerimônias religiosas. A.
nação ficará deslumbrada, e o reconhecimento público elevará até aos céus as
virtudes de um rei tão humanamente avaro do sangue de seus súditos.
Um outro vem, e exuma velhas leis carcomidas pelas traças e caídas em
desuso pelo tempo. Como todo mundo ignora sua existência, todo mundo as
transgride. Restaurando, assim, as multas pecuniárias contidas nessas leis, criarse-
ia uma fonte de renda lucrativa e até honrada, pois que se agiria em nome da
justiça.
Um terceiro pensa que não seria de menos proveito lançar, sob pena de
pesadas multas, uma, multidão de novas proibições, a maioria delas em benefício
do povo. O rei, mediante soma considerável, dispensaria aqueles cujos interesses
privados fossem comprometidos por estas proibições. Dessa maneira o rei ver-seia
cumulado das bênçãos do povo e faria dupla receita, recebendo, ao mesmo
tempo, dinheiro dos contraventores e dos privilegiados. O melhor do negócio é
que quanto mais exorbitante fosse o preço das dispensas tanto mais Sua
Majestade ganharia em estima e consideração.
Vejam, diriam, como este bom príncipe violenta seu coração ao vender tão caro
o direito de prejudicar o povo.
Outro ainda, enfim, aconselha ao monarca ter à disposição juizes sempre
dispostos a sustentar, em todas as ocasiões, os direitos. da coroa. Vossa
Majestade, acrescenta ele, deveria chamá-los à corte, e persuadi-los a discutir,perante a vossa augusta pessoa, os próprios negócios reais. Por pior que seja
uma causa, haverá sempre um juiz para julgá-la boa, seja pela mania da
contradição, seja por amor da novidade e do paradoxo, seja para agradar o
soberano. Então, uma discussão se trava; a multiplicidade e o conflito de opiniões
embrulham uma coisa de si mesma muito clara, e a verdade é posta em dúvida.
Vossa Majestade aproveita o momento para resolver a dificuldade, interpretando o
direito em proveito próprio. Os dissidentes se submetem à opinião real por timidez
ou por temor, e o julgamento é dado, segundo as formalidades, com franqueza e
sem escrúpulo. Faltarão jamais ao juiz, que dá uma sentença a favor do príncipe,
os necessários consideranda? Não há o texto da lei, a liberdade de interpretação,
e, acima das leis, para um juiz religioso e fiel, a prerrogativa real?
Ouvi os axiomas de moral política proclamados unanimemente pelos membros
do nobre conselho:
O rei que sustenta um exército nunca tem dinheiro bastante.
O rei não poderia fazer o mal mesmo que o quisesse.
O rei é o proprietário universal e absoluto dos bens e pessoas de todos os seus
súditos; nada possuem senão como usufrutuários pelas boas graças do rei.
A pobreza do povo é o baluarte da monarquia.
A riqueza e a liberdade conduzem à insubordinação e ao desprezo da
autoridade; o homem livre e rico suporta com impaciência um governo injusto e
despótico.
A indigência e a miséria degradam os caracteres, embrutecem as almas,
habituam-nas ao sofrimento e à escravidão, comprimindo-as a ponto de lhes tirar a
energia necessária para sacudir o jugo.
Se outra vez me erguesse, e falasse assim a esses poderosos senhores:
Vossos conselhos são infames, vergonhosos para o rei, funestos para o povo.
A honra de vosso senhor e a sua felicidade consistem na riqueza de seus súditos
mais ainda do que na sua própria. Os homens fizeram os reis para os homens e
não para os reis; colocaram chefes à sua frente para que pudessem viver
comodamente ao abrigo das violências e dos ultrajes; o dever mais sagrado do
príncipe é velar pela felicidade do povo antes de velar pela sua própria; como um
pastor fiel, deve dedicar-se a seu rebanho, e conduzi-lo às pastagens mais férteis.
Sustentar que a miséria pública é a melhor salvaguarda da monarquia, é
sustentar um erro grosseiro e evidente; onde se vêm mais querelas e rixas do que
entre os mendigos?
Qual o homem que mais deseja uma revolução? Não será aquele cuja
existência atual é miserável? Qual o homem que revelará maior audácia em
subverter o Estado? Não será aquele que com isso só pode ganhar por nada ter a
perder?
Um rei que provocasse o ódio e o desprezo dos cidadãos e cujo governo não
pudesse se manter senão pelas vexações, pela pilhagem, pelo confisco e pela
miséria universal, deveria descer do trono e depor o poder supremo. Empregando
estes meios tirânicos, talvez pudesse conservar o nome de rei, mas de rei não
teria mais nem o ânimo nem a majestade. A dignidade real não consiste em reinar
sobre mendigos, mas sobre homens ricos e felizes.
Fabricius, (3) esta grande alma, estava todo penetrado desse sublime
sentimento quando respondeu: Prefiro governar ricos do que eu mesmo ser rico.E, de fato, nadar em delícias, saciar-se de voluptuosidades em meio às dores e
gemidos de um povo, não é manter um reino e sim uma cadeia.
O médico que só sabe curar as moléstias de seus clientes dando-lhes
moléstias mais graves, passa por ignaro e imbecil; confessai, pois, - ó vós que não
sabeis governar senão arrebatando aos cidadãos a subsistência e as
comodidades da vida! - confessai que sois indignos e incapazes de dirigir homens
livres! Ou então corrigi vossa ignorância, vosso orgulho e vossa preguiça: é isso o
que excita o ódio e o desprezo pelo soberano. Vivei de vosso patrimônio, segundo
a justiça; medi vossas despesas na proporção de vossas rendas; detei as
torrentes do vício; criai instituições de benemerência, que previnam o mal e o
estiolem no germe, ao em vez de inventar suplícios contra os infelizes que uma
legislação absurda e bárbara impele ao crime e à morte
Não ressusciteis leis carunchosas caídas no olvido e no esquecimento,
lançando sobre os vossos súditos toda a sorte de obstáculos. Não eleveis o preço
de um delito a uma taxa que o juiz condenaria, como injusta e vergonhosa, entre
simples particulares. Tende sempre diante dos olhos este belo hábito dos
macarianos.
Nesta nação, vizinha da Utopia, no dia em que o rei toma posse do império,
oferece sacrifícios à divindade, comprometendo-se, por um juramento sagrado, a
não ter nunca em seus cofres mais do que mil libras de ouro ou a soma em
dinheiro de valor equivalente. Este uso foi introduzido por um príncipe que tinha
mais desejo de trabalhar pela prosperidade do Estado, do que de acumular
mi1bões. Quis desse modo pôr um freio à avareza dos seus sucessores e impedilos
de enriquecer pelo empobrecimento de seus súditos. Mil libras de ouro lhe
pareceram uma quantia suficiente para um caso de guerra civil ou estrangeira,
mas demasiado fraca para apoderar-se da fortuna da nação. Foi principalmente
este último motivo que o induziu a decretar esta lei; mas visava ele ainda duas
outras finalidades: em primeiro lugar, ter em reserva, para os tempos de crise, a
quantidade de dinheiro necessária à circulação e às transações quotidianas dos
cidadãos; em segundo lugar, limitar as cifras dos impostos e da lista civil no intuito
de impedir que o príncipe empregasse o excesso da dotação legal em semear a
corrupção e cometer injustiças. Um rei como este é o terror dos maus e a
veneração das pessoas de bem.
Mas, dizei-me, caro Morus, pregar uma tal moral a homens que por interesse e
por sistema se orientam por princípios diametralmente opostos, não é contar
histórias a surdos?
- E a surdos como portas, respondí. Mas isto não me espanta., e, para vos
revelar o meu modo de pensar, é perfeitamente inútil dar conselhos quando se
tem a certeza de que serão repelidos, quer na forma, quer no fundo. Ora, os
ministros e os políticos de hoje, estão impregnados de erros e preconceitos; como
quereis bruscamente modificar suas crenças e fazer penetrar, de chofre, em suas
cabeças e em seu coração, a verdade e a justiça? Esta filosofia escolástica está
no seu lugar em uma conversação familiar, entre amigos; está fora de propósito
nos conselhos dos reis, onde grandes coisas são tratadas com grande autoridade
e em face do poder supremo.
- Era isto o que vos dizia ainda agora, retrucou Rafael, a filosofia não tem
acesso na corte dos príncipes.

desenvolvi minhas idéias, foi com o desprezo geral que foram acolhidas as minhas
palavras; mas assim que o cardeal me trouxe o seu beneplácito o elogio substituiu
o desprezo. Suas cortesanices iam ao ponto de achar judiciosas e sublimes as
bufonerias de um bobo, que o cardeal tolerava como uma brincadeira frívola.
Julgai ainda que as pessoas da corte levariam em grande consideração minha
pessoa e meus conselhos?.
Respondi a Rafael: Vossa narrativa fez-me experimentar uma grande alegria.
Ela reunia o interesse e a atração a uma profunda sabedoria. Escutando-vos, eu
me acreditava na Inglaterra; porque fui educado desde criança no palácio desse
bom cardeal, e sua lembrança me reconduz aos primeiros anos da vida. Já vos
tinha dado a minha amizade, mas todo o bem que dissestes à memória do
piedoso arcebispo, torna-vos ainda mais caro ao meu coração. De resto, persisto
na mesma opinião a vosso respeito, estando persuadido de que vossos conselhos
seriam de uma alta utilidade pública, se quisésseis vencer o horror que vos
inspiram os reis e as cortes. E não é um dever para vós, como para todo bom
cidadão, sacrificar ao interesse geral as suas ojerizas particulares? Platão disse: A
humanidade. será feliz um dia, quando os filósofos forem reis, ou quando os reis
forem filósofos. Ai! Como está longe de nós esta felicidade quando os filósofos
nem ao menos se dignam assistir os reis com seus conselhos!
Caluniais os sábios, replicou-me Rafael; eles não são bastante egoístas para
esconder a verdade; muitos a têm revelado em seus escritos; e se os senhores do
mundo estivessem preparados para receber a luz, poderiam ver e compreender.
Infelizmente cega-os uma venda fatal, a venda dos preconceitos e dos falsos
princípios, em que se formaram e dos quais foram inficionados já na infância.
Platão não ignorava isso; sabia, como nós, que os reis nunca seguiam os
conselhos dos filósofos, se eles próprios já não o eram também. Platão teve disso
a triste experiência na corte de Diniz, o Tirano. (2).
Suponhamos pois que eu seja ministro de um rei. Proponho-lhe os decretos
mais salutares; esforço-me por arrancar de seu coração e de seu império todos os
germes do mal. Acreditais que não me expulsará da corte ou que não me exporá
ao riso dos cortesãos?
Suponhamos, por exemplo, que eu seja ministro do rei de França. Eis-me
sentado à mesa do Conselho, ao passo que, no fundo do palácio, o monarca
preside, em pessoa, as deliberações dos mais judiciosos políticos do reino. Essas
nobres e poderosas cabeças estão procurando laboriosamente por quais
maquinações e intrigas, o rei, seu senhor, conservará o ducado de Milanês,
recobrará o reino de Nápoles, sempre a fugir, e como, em seguida, destruirá a.
república de Veneza e submeterá a Itália toda; finalmente, como reunirá à sua
coroa a Flandres, o Brabante, a Borgonha inteira, e outras nações que sua
ambição já invadiu e conquistou há muito tempo.
Este propõe concluir com os venezianos um tratado que durará enquanto não
houver interesse em rompê-lo. Para melhor dissipar suas desconfianças,
acrescenta o mesmo, comunicar-lhes-emos as primeiras palavras do enigma;
podemos mesmo deixar com eles uma parte do saque; fácil nos será retomá-la
depois da execução completa do plano.
Aquele aconselha aliciar alemães; um terceiro, que se atraiam os suíços com
dinheiro. Um outro pensa que se deve tornar propício o deus imperial,sacrificando-lhe ouro em expiação; aquele julga oportuno entrar em entendimentos
com o rei de Aragão, abandonando-lhe, como garantia de paz, o reino da Navarra,
que não lhe pertence. Outro ainda quer engodar o príncipe de Castela com a
esperança de uma aliança, e manter, em sua corte, algumas inteligências,
pagando gordas pensões a alguns grandes personagens.
Depois, vem a questão difícil e insolúvel, a questão da Inglaterra, verdadeiro nó
górdio político. A fim de se prevenir contra qualquer eventualidade, tomam-se as
seguintes resoluções:
Negociar com essa potência as condições de paz, e apertar mais estreitamente
os laços de uma união sempre vacilante; dar-lhe, publicamente, o nome de melhor
amiga da França, e, no fundo, dela desconfiar como de seu inimigo mais
poderoso.
Manter os escoceses permanentemente de guarda, como sentinelas
avançadas, atentas a tudo, e, ao primeiro sintoma de movimento na Inglaterra,
lançá-los imediatamente como um exército de vanguarda.
Manter secretamente (por causa dos tratados que se opõem a uma proteção
aberta) algum grande personagem exilado, animando-o a fazer valer os seus
direitos à coroa da Inglaterra, e, assim, pôr em cheque o príncipe reinante de
quem se receia os desígnios...
Então, se, no meio dessa assembléia real onde se agitam tão vastos
interesses, na presença desses profundos homens de Estado, a concluir,
unânimes, pela guerra, se eu, homem do nada, me levantasse para transtornar
suas combinações e cálculos, e dissesse:
Deixemos a Itália em sossego e fiquemos na França; a França já é grande
demais para ser bem administrada por um só homem e o rei não deve cuidar em
aumentá-la. Escutai, senhores, o que aconteceu aos acorianos numa situação
semelhante, e a decisão que então tomaram:
Esta nação, situada em frente à ilha da Utopia, nas margens do Euronston, fez,
outrora, a guerra, porque seu rei pretendia a sucessão de um reinado vizinho, em
virtude de antiga aliança. O reino vizinho foi subjugado, mas cedo se reconheceu
que a conservação da conquista era mais difícil e onerosa do que a própria
conquista.
A todo momento havia revoltas internas a reprimir, ou tropas a enviar para o
país conquistado; a cada instante era-se forçado a combater pró ou contra os
novos súditos. Em conseqüência, o exército tinha que ser mantido de pé, e os
cidadãos eram esmagados pelos impostos; o dinheiro fugia para fora; e, para
lisonjear a vaidade de um só homem, o sangue corria em borbotões. Os curtos
instantes de paz não eram menos desastrosos do que a guerra. A dissolução das
tropas lançara a corrupção nos costumes; o soldado voltava ao lar com o amor da
pilhagem e a audácia do assassinato, resultado adquirido no trato da violência nos
campos de batalha.
Essas desordens, esse desprezo geral pelas leis, provinham de que o príncipe,
ao dividir sua atenção e cuidados entre dois reinos, não podia bem administrar
nem um nem outro. Os acorianos quiseram pôr um termo a tantos males;
reuniram-se em conselho nacional, e, polidamente, deram ao monarca a escolher
entre os dois Estados, declarando-lhe que não podia mais carregar duas coroas, e
que era absurdo que um grande povo. fosse governado por uma metade de rei,

estabelecer na Inglaterra, sem acarretar a dissolução e a ruína do império.
Depois sacudiu a cabeça, mordeu os lábios, e calou.
Todos os ouvintes aplaudiram com arrebatamento esta magnífica sentença, até
que o cardeal fez a seguinte reflexão:
Não somos profetas para saber, antes de experimentar, se a legislação
polilerita convém ou não ao nosso país. Todavia, parece-me que depois do
pronunciamento da sentença de morte, o príncipe poderia decretar o sursis, a fim
de experimentar este novo sistema de repressão, abolindo, ao mesmo tempo, os
privilégios dos lugares de asilo. Se a experiência desse bons resultados,
adotaríamos o sistema; se não, que os condenados continuem a ser levados ao
suplício. Essa maneira de proceder apenas suspende o curso da justiça e não
oferece nenhum perigo no intervalo. Irei mesmo além, creio que seria muito útil
tomar medidas igualmente moderadas e sábias para reprimir e acabar com a
vagabundagem. Temos acumulado leis sobre leis contra este flagelo e o mal é
hoje pior do que nunca.
Apenas terminara o cardeal, os louvores mais exagerados acolheram as
opiniões expendidas por Sua Eminência, as quais não tinham encontrado senão
desprezo e desdém quando sozinho as sustentara. O incenso das louvaminhas
envolvia particularmente as idéias do prelado referentes à vagabundagem.
Não sei se seria preferível suprimir o resto da conversação; coisas bem
ridículas lá foram ditas. Entretanto, vou relatá-las; não eram de todo ruins e se
relacionam com o assunto.
Havia na mesa um desses parasitas, cuja honra provém do ofício de fazer o
louco. A esse respeito a semelhança era tão perfeita, que poderia ser facilmente
tomada a sério. Seus gracejos eram tão estúpidos e insípidos que o riso era
provocado mais a miúdo pela própria pessoa do que por suas graças. Mas, de vez
em quando escapavam-lhe algumas palavras bastante razoáveis.
Um dos convivas observou que eu procurava remediar a sorte dos ladrões e o
cardeal a dos vagabundos; mas que existiam ainda duas classes de infelizes às
quais a sociedade devia assegurar a existência, porque são incapazes de
trabalhar para viver: os doentes e os velhos.
Deixai-me falar, disse o bufão, possuo a este respeito um plano soberbo. Para
falar francamente, grande é o meu desejo de poupar-me ao espetáculo desses
miseráveis e enclausurá-los longe de todos os olhos. eles me fatigam com as suas
lamúrias, suspiros e lamentáveis súplicas, embora deva convir que esta lúgubre
música ainda não conseguiu arrancar-me um cêntimo; aliás, sempre acontece
comigo uma destas duas coisas: ou quando posso dar não o quero, ou quando
quero não o posso. Também agora já se mostram bastante avisados: quando me
vêm passar se calam para não perder tempo. Sabem que de mim há tanto a
esperar quanto de um padre.
Eis então o decreto que sugiro:
Todos os mendigos velhos e doentes serão distribuídos e classificados como
se segue: os homens entrarão para os conventos dos beneditinos na qualidade de
irmãos leigos; as mulheres tornar-se-ão religiosas. Tal é o meu bom desejo.
O cardeal sorriu desse repente, aprovou-o como um rasgo de espírito,
enquanto os demais ouvintes o tomaram como uma sentença séria e grave.
Causou particular bom humor a um irmão teólogo que ali se achava. Estereverendo, desfranzindo um pouco a carrancuda fisionomia, riu-se
maliciosamente, à custa dos padres e frades, e depois, dirigindo-se ao bufo, falou:
Não tereis suprimido a mendicidade, se não provirdes à subsistência de nós
mesmos, frades mendicantes.
- Sua eminência, o cardeal, proveu perfeitamente, quando disse que se devia
encerrar os vagabundos e faze-los trabalhar. Ora, os freis mendicantes são os
maiores vagabundos do mundo.
A vivacidade da resposta, todos os olhos se fixaram sobre o cardeal, que, no
entanto, não pareceu se formalizar; o epigrama foi então ruidosamente aplaudido.
Quanto ao frei reverendo, ficou petrificado. O dardo satírico que acabava de lhe
ser lançado ao rosto, acendeu subitamente a sua cólera; e, vermelho como fogo,
desatou numa torrente de injúrias, tratando o engraçado de velhaco, caluniador,
tagarela, ameaçando-o de danação, tudo temperado com as ameaças mais
aterradoras da Santa Escritura.
Então o nosso bufão gracejou com seriedade, e, levando a melhor, replicou:
Não nos zanguemos, caríssimo irmão. Está escrito:
Com paciência dominareis as vossas almas.
O teólogo recomeçou, no mesmo instante, e foram estas as suas expressões:
Não me agasto, pícaro; ou pelo menos não peco; porque o salmista diz: --
Encolerizai-vos mas não pequeis.
O cardeal, numa admoestação cheia de doçura, convida, então, o frade a
moderar os seus transportes.
Não, monsenhor, exclamou, não, não posso Calar-me, não o devo. É um zelo
divino que me exalta, e os homens de Deus tiveram destas santas cóleras. Está
escrito: O ZELO DE TUA CASA ME CONSOME. Não se ouve cantar nas igrejas:
AQUELES QUE ZOMBAVAM DE ELISEU ENQUANTO ELE SUBIA PARA A
CASA DE DEUS SOFRERAM A CÓLERA DO CALVO? A mesma punição
castigará talvez esse gracejador, esse bufão, esse devasso.
- Sem dúvida, disse o cardeal, a vossa intenção é boa. Mas. me parece que
procederíeis mais sabiamente, senão mais santamente, evitando comprometervos
com um louco numa querela ridícula.
- Monsenhor, meu comportamento não poderia ser mais sábio. Salomão, o
mais sábio dos homens, disse: RESPONDEI AO LOUCO CONFORME A SUA
LOUCURA. Pois bem, é isso o que faço. Mostro-lhe o abismo onde vai se
precipitar, se não se cuida. Aqueles que riam de Eliseu eram em grande número, e
foram todos punidos por terem zombado de um único calvo. Qual será, pois, o
castigo do único homem que ridiculariza um tão grande número de frades, entre
os quais há tantos calvos? Mas o que deve, sobretudo, fazê-lo tremer é que temos
uma. bula do papa que excomunga aqueles que escarnecem de nós.
O cardeal, vendo que o caso não acabava, despediu, com um aceno, o bufão
parasita, e mudou prudentemente o curso da conversação. Logo depois levantouse
da mesa para dar audiência a seus vassalos, e despediu todos os convivas.
Caro Morus, fatiguei-vos com a narrativa de uma história bastante longa.
Estaria verdadeiramente envergonhado de tê-la prolongado tanto se não fosse por
ter cedido às vossas instâncias, e se a atenção que prestastes aos detalhes não
me tivesse obrigado a não omitir nenhum. Poderia ter abreviado, mas quis
esclarecer-vos sobre o espírito e o caráter dos convivas. Enquanto, sozinho,

segurança. Assim agindo, ele se descarta do seu principal denunciador, e tem
maior probabilidade de esconder o crime. Eis o belo efeito desta justiça
implacável: aterrorizando o ladrão com a expectativa da forca, fez dele um
assassino!
Chego, agora, à solução deste problema tão controvertido: Qual é o melhor
sistema penitenciário?
Na minha opinião, era mais fácil encontrar o melhor do que o pior.
Primeiramente, todos vós conheceis a penalidade adotada pelos romanos, povo
tão adiantado na ciência de governar. Eles condenavam os grandes criminosos à
escravatura perpétua, aos trabalhos forçados nas pedreiras ou nas minas. Esse
modo de repressão parece-me conciliar a justiça com a utilidade pública.
Entretanto, para vos dizer o meu modo de pensar sobre esse ponto, não conheço
nada de comparável ao que ví nos polileritas, nação dependente da Pérsia.
É aquele um país bastante povoado, e às suas instituições não falta
sabedoria. Além do tributo anual que pagam ao rei da Pérsia, gozam de liberdade
e se governam por suas próprias leis. Longe do mar, cercados de montanhas, se
satisfazem com os produtos do seu solo feliz e fértil; vão raramente a outros
lugares e raramente outros vêm ao seu país. Fiéis aos princípios e costumes dos
seus antepassados, não procuram nunca estender as suas fronteiras, e nada têm
a temer de fora. Suas montanhas, e o tributo que pagam, anualmente, ao
monarca, põem-nos ao abrigo de uma invasão. Vivem comodamente na paz e na
abundância, sem exército e sem nobreza, ocupados com sua felicidade e
despreocupados de qualquer vã celebridade; pois, seu nome, desconhecido no
resto da terra, talvez o seja mesmo aos seus vizinhos.
Quando ali um indivíduo é apanhado em furto, obrigam-no, primeiro, a restituir
o objeto roubado ao proprietário e não ao príncipe, como é de uso em outras
partes. Os polileritas julgam que o furto não destrói o direito de propriedade. Se o
objeto foi danificado ou perdido, o valor dele é descontado dos bens do autor do
furto, deixando-se o que sobrar do desconto à sua mulher e filhos. Ele é
condenado aos trabalhos públicos; e se o furto não é acompanhado de
circunstâncias agravantes, o seu autor não é jogado no calabouço nem posto a
ferros; trabalha, o corpo livre, e sem entraves.
Para forçar os preguiçosos e os rebeldes, empregam-se os castigos corporais
de preferência às correntes. Os que cumprem bem o seu dever não sofrem
nenhum mau trato. De tarde se faz a chamada nominal dos condenados,
encerrando-os nas celas onde passam a noite. Aliás, a única pena que podem vir
a sofrer é a continuidade do trabalho; porque lhes são fornecidas todas as coisas
necessárias à vida; uma vez que trabalham para a sociedade, é a sociedade que
os mantém.
Os costumes, nesse ponto, variam segundo as localidades. Em certas
províncias, o produto das esmolas e das coletas é reservado aos condenados;
este recurso, precário por si mesmo, é, na rea1idade, o mais fecundo devido à
humanidade dos habitantes. Em outros países destina-se, para este fim, uma
parte das rendas públicas, ou então um tributo particular e pessoal.
Há mesmo regiões em que os condenados não são empregados nos trabalhos
públicos. Todo indivíduo que tem necessidade de operários, ou de carregadores,
vem alugá-los por dia, pagando-lhes salário pouco menor que o de um homemlivre. A lei dá ao patrão o direito de bater nos preguiçosos. Dessa forma, os
condenados não faltam nunca ao trabalho; ganham roupas e alimentação cada dia
contribuem com alguma coisa para o Tesouro.
Eles são reconhecíveis facilmente pela cor de seu uniforme, igual para todos e
só a eles reservado. A cabeça não é raspada, exceto um pouco acima das
orelhas, uma das quais é mutilada. Os amigos podem lhes dar de beber, comer, e
uma roupa. Mas um presente em dinheiro acarreta a morte tanto do que dá como
do que recebe. Um homem livre não pode, sob nenhum pretexto, receber dinheiro
de um escravo (é assim que são chamados os condenados). O escravo não pode
tocar em armas. Estes dois últimos crimes são punidos de morte.
Cada província marca seus escravos com um sinal particular e característico.
Fazê-lo desaparecer é para eles um crime capital, assim como transpor a fronteira
e falar com os escravos de uma outra província. O simples projeto de fugir não é
menos perigoso que a própria fuga. Por ter-se envolvido em semelhante trama o
escravo perde a vida e o homem livre, a liberdade. Ainda mais, a lei confere
recompensas ao delator; dinheiro, se este é livre; liberdade, se escravo;
impunidade, se cúmplice, a fim de que o malfeitor não se sinta mais seguro
perseverando num mau desígnio, do que arrependendo-se.
Eis aí as, penalidades correspondentes ao roubo entre os polileritas. Não é
difícil divisar nelas uma grande humanidade aliada a um grande senso utilitário. Se
a lei castiga, é para matar o crime, conservando o homem. Trata o condenado
com tanta benignidade e justiça, que o força a se tornar honesto e a reparar,
durante o resto de sua vida, todo o mal que fez à sociedade.
Também é extremamente raro que os condenados voltem aos seus antigos
hábitos. Os cidadãos não têm nenhum medo deles, e é mesmo comum, entre os
que empreendem qualquer viagem, escolher seus guias entre os escravos que
são trocados de uma província a outra. Na verdade, o que Se pode temer? A lei
tira ao escravo a possibilidade, e até o pensamento, do roubo; suas mãos estão
desarmadas; o dinheiro é para ele um crime capital; se aprisionado, a morte é bem
próxima e a fuga impossível. Como quereis que um homem vestido
diferentemente dos outros possa dissimular a sua fuga? E se fugisse
completamente nu? Mas mesmo assim a sua orelha meio cortada o trairia.
É impossível igualmente que os escravos possam urdir uma conspiração contra
o Estado. A fim de assegurar à revolta alguma probabilidade de êxito, os cabeças
teriam necessidade de incitar e arrastar para o seu lado os escravos de diversas
províncias. Ora, isto é impraticável. Uma conspiração não é fácil a pessoas que,
sob pena de morte, não se podem reunir, se falar, dar ou retribuir uma saudação.
Ousariam mesmo confiar seu projeto aos camaradas que conhecem o perigo do
silêncio e a enorme vantagem da denúncia? Por outro lado, todos alimentam a
esperança de recobrar, um dia, a liberdade, mostrando-se submissos e
resignados, dando, por seu bom comportamento, garantias para o futuro; aliás,
não há um ano sequer em que grande número deles, transformados em boas
pessoas, não seja reabitado e emancipado.
Por que, acrescentei então não se estabeleceria na Inglaterra uma penalidade
semelhante? Isso valeria infinitamente mais do que esta justiça que desperta tão
exaltado entusiasmo ao meu sábio antagonista.
- Um semelhante estado de coisas, respondeu este, não poderia jamais se

Alguem a espera de um mundo melhor

Campo Grande
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