quinta-feira, 21 de junho de 2007

estabelecer na Inglaterra, sem acarretar a dissolução e a ruína do império.
Depois sacudiu a cabeça, mordeu os lábios, e calou.
Todos os ouvintes aplaudiram com arrebatamento esta magnífica sentença, até
que o cardeal fez a seguinte reflexão:
Não somos profetas para saber, antes de experimentar, se a legislação
polilerita convém ou não ao nosso país. Todavia, parece-me que depois do
pronunciamento da sentença de morte, o príncipe poderia decretar o sursis, a fim
de experimentar este novo sistema de repressão, abolindo, ao mesmo tempo, os
privilégios dos lugares de asilo. Se a experiência desse bons resultados,
adotaríamos o sistema; se não, que os condenados continuem a ser levados ao
suplício. Essa maneira de proceder apenas suspende o curso da justiça e não
oferece nenhum perigo no intervalo. Irei mesmo além, creio que seria muito útil
tomar medidas igualmente moderadas e sábias para reprimir e acabar com a
vagabundagem. Temos acumulado leis sobre leis contra este flagelo e o mal é
hoje pior do que nunca.
Apenas terminara o cardeal, os louvores mais exagerados acolheram as
opiniões expendidas por Sua Eminência, as quais não tinham encontrado senão
desprezo e desdém quando sozinho as sustentara. O incenso das louvaminhas
envolvia particularmente as idéias do prelado referentes à vagabundagem.
Não sei se seria preferível suprimir o resto da conversação; coisas bem
ridículas lá foram ditas. Entretanto, vou relatá-las; não eram de todo ruins e se
relacionam com o assunto.
Havia na mesa um desses parasitas, cuja honra provém do ofício de fazer o
louco. A esse respeito a semelhança era tão perfeita, que poderia ser facilmente
tomada a sério. Seus gracejos eram tão estúpidos e insípidos que o riso era
provocado mais a miúdo pela própria pessoa do que por suas graças. Mas, de vez
em quando escapavam-lhe algumas palavras bastante razoáveis.
Um dos convivas observou que eu procurava remediar a sorte dos ladrões e o
cardeal a dos vagabundos; mas que existiam ainda duas classes de infelizes às
quais a sociedade devia assegurar a existência, porque são incapazes de
trabalhar para viver: os doentes e os velhos.
Deixai-me falar, disse o bufão, possuo a este respeito um plano soberbo. Para
falar francamente, grande é o meu desejo de poupar-me ao espetáculo desses
miseráveis e enclausurá-los longe de todos os olhos. eles me fatigam com as suas
lamúrias, suspiros e lamentáveis súplicas, embora deva convir que esta lúgubre
música ainda não conseguiu arrancar-me um cêntimo; aliás, sempre acontece
comigo uma destas duas coisas: ou quando posso dar não o quero, ou quando
quero não o posso. Também agora já se mostram bastante avisados: quando me
vêm passar se calam para não perder tempo. Sabem que de mim há tanto a
esperar quanto de um padre.
Eis então o decreto que sugiro:
Todos os mendigos velhos e doentes serão distribuídos e classificados como
se segue: os homens entrarão para os conventos dos beneditinos na qualidade de
irmãos leigos; as mulheres tornar-se-ão religiosas. Tal é o meu bom desejo.
O cardeal sorriu desse repente, aprovou-o como um rasgo de espírito,
enquanto os demais ouvintes o tomaram como uma sentença séria e grave.
Causou particular bom humor a um irmão teólogo que ali se achava. Estereverendo, desfranzindo um pouco a carrancuda fisionomia, riu-se
maliciosamente, à custa dos padres e frades, e depois, dirigindo-se ao bufo, falou:
Não tereis suprimido a mendicidade, se não provirdes à subsistência de nós
mesmos, frades mendicantes.
- Sua eminência, o cardeal, proveu perfeitamente, quando disse que se devia
encerrar os vagabundos e faze-los trabalhar. Ora, os freis mendicantes são os
maiores vagabundos do mundo.
A vivacidade da resposta, todos os olhos se fixaram sobre o cardeal, que, no
entanto, não pareceu se formalizar; o epigrama foi então ruidosamente aplaudido.
Quanto ao frei reverendo, ficou petrificado. O dardo satírico que acabava de lhe
ser lançado ao rosto, acendeu subitamente a sua cólera; e, vermelho como fogo,
desatou numa torrente de injúrias, tratando o engraçado de velhaco, caluniador,
tagarela, ameaçando-o de danação, tudo temperado com as ameaças mais
aterradoras da Santa Escritura.
Então o nosso bufão gracejou com seriedade, e, levando a melhor, replicou:
Não nos zanguemos, caríssimo irmão. Está escrito:
Com paciência dominareis as vossas almas.
O teólogo recomeçou, no mesmo instante, e foram estas as suas expressões:
Não me agasto, pícaro; ou pelo menos não peco; porque o salmista diz: --
Encolerizai-vos mas não pequeis.
O cardeal, numa admoestação cheia de doçura, convida, então, o frade a
moderar os seus transportes.
Não, monsenhor, exclamou, não, não posso Calar-me, não o devo. É um zelo
divino que me exalta, e os homens de Deus tiveram destas santas cóleras. Está
escrito: O ZELO DE TUA CASA ME CONSOME. Não se ouve cantar nas igrejas:
AQUELES QUE ZOMBAVAM DE ELISEU ENQUANTO ELE SUBIA PARA A
CASA DE DEUS SOFRERAM A CÓLERA DO CALVO? A mesma punição
castigará talvez esse gracejador, esse bufão, esse devasso.
- Sem dúvida, disse o cardeal, a vossa intenção é boa. Mas. me parece que
procederíeis mais sabiamente, senão mais santamente, evitando comprometervos
com um louco numa querela ridícula.
- Monsenhor, meu comportamento não poderia ser mais sábio. Salomão, o
mais sábio dos homens, disse: RESPONDEI AO LOUCO CONFORME A SUA
LOUCURA. Pois bem, é isso o que faço. Mostro-lhe o abismo onde vai se
precipitar, se não se cuida. Aqueles que riam de Eliseu eram em grande número, e
foram todos punidos por terem zombado de um único calvo. Qual será, pois, o
castigo do único homem que ridiculariza um tão grande número de frades, entre
os quais há tantos calvos? Mas o que deve, sobretudo, fazê-lo tremer é que temos
uma. bula do papa que excomunga aqueles que escarnecem de nós.
O cardeal, vendo que o caso não acabava, despediu, com um aceno, o bufão
parasita, e mudou prudentemente o curso da conversação. Logo depois levantouse
da mesa para dar audiência a seus vassalos, e despediu todos os convivas.
Caro Morus, fatiguei-vos com a narrativa de uma história bastante longa.
Estaria verdadeiramente envergonhado de tê-la prolongado tanto se não fosse por
ter cedido às vossas instâncias, e se a atenção que prestastes aos detalhes não
me tivesse obrigado a não omitir nenhum. Poderia ter abreviado, mas quis
esclarecer-vos sobre o espírito e o caráter dos convivas. Enquanto, sozinho,

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