Uns se calam por inépcia, e teriam mesmo grande necessidade de ser
aconselhados. Outros, são capazes, e sabem que o são; mas partilham sempre do
parecer do preopinante, que está em melhores graças, e aplaudem, com
entusiasmo, as pobres imbecilidades que este entende desembuchar; esses vis
parasitas só têm uma finalidade: ganhar, por uma baixa e criminosa lisonja, a
proteção do primeiro favorito. Os outros, são escravos de seu amor próprio e
escutam apenas a própria opinião, o que não é de admirar, pois a natureza insufla
cada um a afagar com amor os produtos de sua invenção. É assim que o corvo
sorri à sua ninhada, e o macaco aos seus filhotes.
Que sucede então no seio desses conselhos onde reinam a inveja, a vaidade e
o interesse? Intenta, alguém, apoiar uma opinião razoável na história dos tempos
passados, ou nos costumes dos outros países? Os outros se mostram surpresos e
transtornados; e com o amor próprio alarmado como se fossem perder a
reputação de sábios e passar por imbecis. Eles quebram a cabeça até encontrar
um argumento contraditório, e, se a memória e a lógica lhes minguam,
entrincheiram-se neste lugar comum: Nossos pais assim pensaram e assim
fizeram; ah! queira Deus que igualemos a sabedoria de nossos pais! Depois se
assentam, pavoneando-se, como se acabassem de pronunciar um oráculo. Dir-seia,
ao ouvi-los, que a sociedade vai perecer se surgir um homem mais sábio que
os seus antepassados. Enquanto isso, permaneçamos indiferentes, deixando
subsistir as boas instituições que eles nos legaram; e quando surge um
melhoramento novo agarramo-nos à antigüidade para não acompanhar o
progresso. Vi, em quase toda a parte, desses julgadores rabugentos, insensatos
ou presunçosos. Aconteceu-me uma vez na Inglaterra. -.
- Perdão, disse eu, então, a Rafael, estivestes também na Inglaterra?
- Sim, estive lá alguns meses, pouco depois da guerra civil dos ingleses
ocidentais contra o rei que terminou com uma horrorosa matança dos insurretos -
Nessa ocasião, recebi enormes obséquios do reverendíssimo padre João Morton,
cardeal-arcebispo de Cantuária e chanceler da Inglaterra.
Era um homem (dirijo-me unicamente a vós, meu caro Pedro, porque Morus
não necessita dessas informações), era um homem ainda mais venerável por seu
caráter e virtude do que por suas altas dignidades. Sua estatura mediana não se
curvava ao peso da idade; sua fisionomia, sem ser dura, impunha respeito; era de
trato fácil, mas severo e majestoso. Sentia prazer em experimentar os solicitantes
com apóstrofes por vezes um tanto rudes, embora nunca ofensivas, mostrando-se
encantado se percebia neles presença de espírito e respostas prontas, mas sem
impertinência. Esta prova o ajudava a inferir do mérito de cada qual e a classificálo,-
segundo a especialidade. Sua linguagem era pura e enérgica; sua ciência do
direito profunda, seu julgamento seleto, sua memória prodigiosa. Essas brilhantes
disposições naturais, ele as tinha ainda desenvolvido pelo exercício e pelo estudo.
O rei fazia grande caso de seus conselhos e o considerava como um dos mais
firmes esteios do Estado - Levado muito jovem do colégio para a corte, envolvido
toda a vida nos acontecimentos mais graves, tangido, sem descanso, pelo mar
tempestuoso do destino, adquirira, em meio de perigos sempre renovados, uma
consumada prudência, um conhecimento tão profundo das coisas que, por assim
dizer, com ele próprio se identificava.
O acaso me fez encontrar um dia, à mesa desse prelado, um leigo reputadocomo douto legista - Este homem, não sei a que propósito, se pôs a cumular de
louvores a rigorosa justiça exercida contra os ladrões. Narrava gostosamente
como eles eram enforcados, aqui e ali, às vintenas, na mesma forca.
Apesar disso, acrescentava, vejam que fatalidade! Mal escapam da forca dois
ou três desses bandidos, e, no entanto, na Inglaterra, eles formigam por toda parte
!
Com a liberdade de palavra que gozava na casa do cardeal, disse eu, então:
Nada disso devia surpreender-vos. Neste caso a morte é uma pena injusta e
inútil; é bastante cruel para punir o roubo, mas bastante fraca para impedi-lo. O
simples roubo não merece a forca, e o mais horrível suplício não impedirá de
roubar o que não dispõe de outro meio para não morrer de fome. Nisto, a justiça
de Inglaterra e de muitos outros países se assemelha aos mestres que espancam
os alunos em lugar de instruí-los. Fazeis sofrer aos ladrões pavorosos tormentos;
não seria melhor garantir a existência a todos os membros da sociedade, a fim de
que ninguém se visse na necessidade de roubar, primeiro, e de morrer, depois?
- A sociedade previu o fenômeno, replicou o meu legista; a indústria, a
agricultura oferecem ao povo inúmeros meios de existência; existem, porém, seres
que preferem o crime ao trabalho.
- Era aí mesmo onde eu vos esperava, respondi. Não falarei dos que voltam
das guerras civis ou estrangeiras com o corpo mutilado. Quantos soldados,
entretanto, na batalha de Cornualha, ou na campanha de França, perderam um ou
vários membros a serviço do rei e da pátria! Esses infelizes tornaram-se fracos
demais para exercer o seu antigo ofício e velhos demais para aprender um novo.
Mas deixemos isso, as guerras só se reacendem a longos intervalos. Olhemos o
que se passa cada dia ao redor de nós. A principal causa da miséria pública reside
no número excessivo de nobres, zangões ociosos, que se nutrem do suor e do
trabalho de outrem e que, para aumentar seus rendimentos, mandam cultivar suas
terras, escorchando os rendeiros até à carne viva. Não conhecem outra economia.
Mas, tratando-se, ao contrário, de comprar um prazer, são pródigos, então, até à
loucura e à mendicidade. E não menos funesto é o fato de arrastarem consigo
uma turba de lacaios e mandriões sem estado e incapazes de ganhar a vida.
Caiam doentes esses lacaios, ou venha o seu patrão a morrer, e são jogados
no olho da rua; porque é preferível nutri-los para não fazer nada, do que alimentálos
enfermos; muitas vezes o herdeiro do defunto não está em condições de
manter a domesticidade paterna.
Eis aí pessoas expostas a morrer de fome se não têm o ânimo de roubar.
Terão eles,, na realidade, outras possibilidades? Procurando emprego gastam a
saúde e as roupas; e quando se tornam descorados pelas moléstias e cobertos de
farrapos, os nobres lhes têm horror, desprezando os seus serviços. Os
camponeses mesmo não os querem empregar. Os camponeses sabem que um
homem criado molemente na ociosidade e nos prazeres, habituado a trazer a
cimitarra e o broquel, a olhar superiormente os vizinhos e a desprezar todo
mundo; os, camponeses sabem que um tal homem não é apto a manejar a pá e a
enxada, a trabalhar, fielmente, por um salário insignificante e uma parca
alimentação, a serviço de um pobre lavrador.
Sobre esse ponto meu antagonista respondeu:
- É precisamente essa espécie de gente que o Estado deve manter e
quinta-feira, 3 de maio de 2007
Postado por
Mony Duraes : )
às
10:14
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Alguem a espera de um mundo melhor
- Mony Duraes : )
- Campo Grande
- Mony duraes.... veja e descubra!!!
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