quinta-feira, 3 de maio de 2007

criação de seus carneiros. Vão comprar, distante, animais magros, quase por
nada, engordam-nos nos seus campos e os revendem a preços extraordinários.
Temo bastante que a Inglaterra não tenha sofrido todos os efeitos desses
deploráveis abusos. Até agora os engordadores de gado só provocaram a carestia
nos lugares onde vendem; mas à força de transportar o gado do lugar onde
compram, sem lhe dar tempo de reproduzir, o seu número acabará por diminuir,
insensivelmente, e o país acabará por cair numa horrível penúria. Assim, o que
devia fazer a riqueza de vossa ilha fará a miséria, devido à avareza de um
punhado de miseráveis.
A escassez geral obriga todo o mundo a restringir sua despesa e sua
criadagem. E os que são despedidos, para onde vão? Mendigar ou roubar, se têm
coragem.
A estas causas de miséria ajuntam-se ainda o luxo e as despesas insensatas.
Lacaios, operários, camponeses, todas as classes da sociedade, ostentam um
luxo inaudito nas vestes e na alimentação. Que direi dos lugares de prostituição,
dos vergonhosos antros de embriaguez e devassidão, das infames casas de
tavolagem de todos os jogos, do baralho, do dado, do jogo da péla e da conca,
que devoram o dinheiro de seus freqüentadores, e os impelem diretamente ao
roubo para reparar as perdas?
Arrancai de vossa ilha essas pestes públicas, esses germes do crime e da
miséria. Obrigai os vossos nobres demolidores a reconstruir as quintas e burgos
que destruíram, ou a ceder os terrenos para os que quiserem reconstruir sobre as
ruínas. Colocai um freio ao avarento egoísmo dos ricos; tirai-lhes o direito do
açambarcamento e monopólio. Que não haja mais ociosos entre vós. Dai à
agricultura um grande desenvolvimento; criai a manufatura da lã e a de outros
ramos de indústria, para que venha a ser ocupada utilmente esta massa de
homens que a miséria transformou em ladrões, vagabundos ou lacaios, o que é
aproximadamente a mesma coisa.
Se não remediardes os males que vos assinalo, não vos vanglorieis de vossa
justiça; é ela uma mentira feroz e estúpida.
Abandonais milhões de crianças aos estragos de uma educação viciosa e
imoral. A corrupção emurchece, à vossa vista, essas jovens plantas que poderiam
florescer para a virtude, e, vós as matais, quando, tornadas homens, cometem os
crimes que germinavam desde o berço em suas almas. E, no entanto, que é que
fabricais? Ladrões, para ter o prazer de enforcá-los.
Enquanto eu assim falava, o meu adversário preparava a réplica. Ele se
dispunha a seguir a pomposa dialética desses polemistas categóricos, que
repetem mais do que respondem e que fazem ponto de honra de uma discussão
os exercícios de memória.
Falastes muito bem, disse-me ele, sobretudo vós que sois estrangeiro e que
não podeis conhecer estas matérias senão de outiva. Eu vos darei melhores
esclarecimentos. Eis a ordem do meu discurso: antes de tudo, recapitularei tudo o
que vos disse; em. seguida realçarei os erros a que vos induziu a ignorância dos
fatos; finalmente, refutarei os vossos argumentos e pulverizá-los-ei. Começo, pois,
como o prometi. Tendes, se não me engano, enumerado quatro...
- Eu vos detenho aí, interrompeu bruscamente o cardeal, o exórdio me faz
temer que o discurso seja um pouco longo. Nós vos pouparemos hoje desta

fadiga. Mas não vos dou. por desembaraçado dessa arenga; guardai-a
integralmente para a próxima entrevista que tiverdes com vosso adversário.
Desejo que estejam ambos aqui, amanhã, a menos que vós, ou Rafael, estejais na
impossibilidade de vir. Enquanto isso, meu caro Rafael, far-me-íeis o obséquio de
explicar por que o roubo não merece a morte, e por que outra pena a substituireis
de forma a garantir melhor a segurança pública. Como não pensais que se deva
tolerar o roubo, e se a forca não é hoje uma barreira para o banditismo, que terror
exercereis, sobre os celerados quando eles tiverem a certeza de não perder a
vida? Que sanção bastante forte dareis à lei? Uma pena mais branda não seria
um prêmio de incitamento ao crime?
Minha convicção íntima, eminência, é que é injusto matar-se um homem por ter
tirado dinheiro de outrem, desde que a sociedade humana não pode ser
organizada de modo a garantir para cada um uma igual porção de bens.
Podem objetar-me, sem dúvida, que a sociedade, tirando-lhe a vida, vinga a
justiça e as leis, e não pune somente uma miserável subtração de dinheiro.
Responderei com este axioma: Summum jus, summa injuria, O supremo direito é
uma injustiça suprema. A vontade do legislador não é tão infalível e absoluta que
seja necessário desembainhar a espada à menor infração aos seus decretos. A lei
não é tão rígida e estóica que coloque, no mesmo nível, todos os delitos e crimes,
e não estabeleça nenhuma diferença entre matar um homem e roubá-lo. Se a
eqüidade não é uma palavra cã, há entre essas duas ações um abismo.
E como! Deus proibiu o assassínio e nós, nós matamos tão facilmente por
causa do furto de algumas moedas!
Alguém dirá, talvez: Deus, com esse mandamento, tirou o poder de matar ao
homem privado, mas não ao magistrado que condena aplicando as leis da
sociedade.
Mas se é assim, quem impede os homens de fazer outras leis igualmente
contrárias aos preceitos divinos, e de legalizar o estupro, o adultério e o perjúrio.?
Como!... Deus nos proibiu tirar a vida não somente ao nosso próximo mas também
a nós mesmos; e nós poderíamos legitimamente convencionar em degolarmo-nos
em virtude de algumas sentenças jurídicas! E esta convenção atroz colocaria
juizes e carrascos por cima da lei divina, dando-lhes o direito de mandar à morte
os que o código penal condena a morrer!
Resultaria disso esta conseqüência monstruosa: a justiça divina tem
necessidade de ser legalizada e autorizada pela justiça humana; e que, em todos
os casos possíveis, cabe ao homem determinar quando deve obedecer ou não
aos mandamentos de Deus.
A própria lei de Moisés, lei de terror e vingança, feita para escravos e homens
embrutecidos, não punia de morte o simples roubo. Evitemos pensar que, sob a lei
cristã, lei de perdão e caridade, em que Deus ordena como pai, nós temos o
direito de ser mais desumanos, e de derramar, sob qualquer pretexto, o sangue de
nosso irmão.
Tais são os motivos que me persuadem que é injusto aplicar ao ladrão o
mesmo castigo que ao assassino. Poucas palavras vos farão compreender como
esta penalidade é absurda em si mesma e como é perigosa à segurança pública.
O celerado vê que não há menos a temer furtando do que assassinando;
então, ele mata aquele a quem apenas despojara; e mata-o para a sua própria

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Alguem a espera de um mundo melhor

Campo Grande
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