quinta-feira, 21 de junho de 2007

desenvolvi minhas idéias, foi com o desprezo geral que foram acolhidas as minhas
palavras; mas assim que o cardeal me trouxe o seu beneplácito o elogio substituiu
o desprezo. Suas cortesanices iam ao ponto de achar judiciosas e sublimes as
bufonerias de um bobo, que o cardeal tolerava como uma brincadeira frívola.
Julgai ainda que as pessoas da corte levariam em grande consideração minha
pessoa e meus conselhos?.
Respondi a Rafael: Vossa narrativa fez-me experimentar uma grande alegria.
Ela reunia o interesse e a atração a uma profunda sabedoria. Escutando-vos, eu
me acreditava na Inglaterra; porque fui educado desde criança no palácio desse
bom cardeal, e sua lembrança me reconduz aos primeiros anos da vida. Já vos
tinha dado a minha amizade, mas todo o bem que dissestes à memória do
piedoso arcebispo, torna-vos ainda mais caro ao meu coração. De resto, persisto
na mesma opinião a vosso respeito, estando persuadido de que vossos conselhos
seriam de uma alta utilidade pública, se quisésseis vencer o horror que vos
inspiram os reis e as cortes. E não é um dever para vós, como para todo bom
cidadão, sacrificar ao interesse geral as suas ojerizas particulares? Platão disse: A
humanidade. será feliz um dia, quando os filósofos forem reis, ou quando os reis
forem filósofos. Ai! Como está longe de nós esta felicidade quando os filósofos
nem ao menos se dignam assistir os reis com seus conselhos!
Caluniais os sábios, replicou-me Rafael; eles não são bastante egoístas para
esconder a verdade; muitos a têm revelado em seus escritos; e se os senhores do
mundo estivessem preparados para receber a luz, poderiam ver e compreender.
Infelizmente cega-os uma venda fatal, a venda dos preconceitos e dos falsos
princípios, em que se formaram e dos quais foram inficionados já na infância.
Platão não ignorava isso; sabia, como nós, que os reis nunca seguiam os
conselhos dos filósofos, se eles próprios já não o eram também. Platão teve disso
a triste experiência na corte de Diniz, o Tirano. (2).
Suponhamos pois que eu seja ministro de um rei. Proponho-lhe os decretos
mais salutares; esforço-me por arrancar de seu coração e de seu império todos os
germes do mal. Acreditais que não me expulsará da corte ou que não me exporá
ao riso dos cortesãos?
Suponhamos, por exemplo, que eu seja ministro do rei de França. Eis-me
sentado à mesa do Conselho, ao passo que, no fundo do palácio, o monarca
preside, em pessoa, as deliberações dos mais judiciosos políticos do reino. Essas
nobres e poderosas cabeças estão procurando laboriosamente por quais
maquinações e intrigas, o rei, seu senhor, conservará o ducado de Milanês,
recobrará o reino de Nápoles, sempre a fugir, e como, em seguida, destruirá a.
república de Veneza e submeterá a Itália toda; finalmente, como reunirá à sua
coroa a Flandres, o Brabante, a Borgonha inteira, e outras nações que sua
ambição já invadiu e conquistou há muito tempo.
Este propõe concluir com os venezianos um tratado que durará enquanto não
houver interesse em rompê-lo. Para melhor dissipar suas desconfianças,
acrescenta o mesmo, comunicar-lhes-emos as primeiras palavras do enigma;
podemos mesmo deixar com eles uma parte do saque; fácil nos será retomá-la
depois da execução completa do plano.
Aquele aconselha aliciar alemães; um terceiro, que se atraiam os suíços com
dinheiro. Um outro pensa que se deve tornar propício o deus imperial,sacrificando-lhe ouro em expiação; aquele julga oportuno entrar em entendimentos
com o rei de Aragão, abandonando-lhe, como garantia de paz, o reino da Navarra,
que não lhe pertence. Outro ainda quer engodar o príncipe de Castela com a
esperança de uma aliança, e manter, em sua corte, algumas inteligências,
pagando gordas pensões a alguns grandes personagens.
Depois, vem a questão difícil e insolúvel, a questão da Inglaterra, verdadeiro nó
górdio político. A fim de se prevenir contra qualquer eventualidade, tomam-se as
seguintes resoluções:
Negociar com essa potência as condições de paz, e apertar mais estreitamente
os laços de uma união sempre vacilante; dar-lhe, publicamente, o nome de melhor
amiga da França, e, no fundo, dela desconfiar como de seu inimigo mais
poderoso.
Manter os escoceses permanentemente de guarda, como sentinelas
avançadas, atentas a tudo, e, ao primeiro sintoma de movimento na Inglaterra,
lançá-los imediatamente como um exército de vanguarda.
Manter secretamente (por causa dos tratados que se opõem a uma proteção
aberta) algum grande personagem exilado, animando-o a fazer valer os seus
direitos à coroa da Inglaterra, e, assim, pôr em cheque o príncipe reinante de
quem se receia os desígnios...
Então, se, no meio dessa assembléia real onde se agitam tão vastos
interesses, na presença desses profundos homens de Estado, a concluir,
unânimes, pela guerra, se eu, homem do nada, me levantasse para transtornar
suas combinações e cálculos, e dissesse:
Deixemos a Itália em sossego e fiquemos na França; a França já é grande
demais para ser bem administrada por um só homem e o rei não deve cuidar em
aumentá-la. Escutai, senhores, o que aconteceu aos acorianos numa situação
semelhante, e a decisão que então tomaram:
Esta nação, situada em frente à ilha da Utopia, nas margens do Euronston, fez,
outrora, a guerra, porque seu rei pretendia a sucessão de um reinado vizinho, em
virtude de antiga aliança. O reino vizinho foi subjugado, mas cedo se reconheceu
que a conservação da conquista era mais difícil e onerosa do que a própria
conquista.
A todo momento havia revoltas internas a reprimir, ou tropas a enviar para o
país conquistado; a cada instante era-se forçado a combater pró ou contra os
novos súditos. Em conseqüência, o exército tinha que ser mantido de pé, e os
cidadãos eram esmagados pelos impostos; o dinheiro fugia para fora; e, para
lisonjear a vaidade de um só homem, o sangue corria em borbotões. Os curtos
instantes de paz não eram menos desastrosos do que a guerra. A dissolução das
tropas lançara a corrupção nos costumes; o soldado voltava ao lar com o amor da
pilhagem e a audácia do assassinato, resultado adquirido no trato da violência nos
campos de batalha.
Essas desordens, esse desprezo geral pelas leis, provinham de que o príncipe,
ao dividir sua atenção e cuidados entre dois reinos, não podia bem administrar
nem um nem outro. Os acorianos quiseram pôr um termo a tantos males;
reuniram-se em conselho nacional, e, polidamente, deram ao monarca a escolher
entre os dois Estados, declarando-lhe que não podia mais carregar duas coroas, e
que era absurdo que um grande povo. fosse governado por uma metade de rei,

Nenhum comentário:

Alguem a espera de um mundo melhor

Campo Grande
Mony duraes.... veja e descubra!!!